culpa

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

culpa

Heidegger difere da noção de "conscientia" em são Tomás, embora não da "interpretação ordinária", ao supor que a consciência envolve uma bifurcação de Dasein em um convocador e um convocado. Dasein divide-se em dois: I. Enreda-se em significativos negócios mundanos sob a influência do impessoal. II. Dasein é lançado nu em um mundo vazio e insignificante no qual não está em casa, mas sente-se estranho. II explica I: a angústia reprimida de Dasein GA51 o leva a "fugir" de si mesmo para o nível I. II também liberta Dasein de I: o nu e sem lar Dasein II convoca Dasein I. Ele não o convoca para nada definido: o nu Dasein II não tem nada definido para dizer. Não prescreve, portanto, um trajeto definido de ação, nem recomenda um estado permanente de angústia e estranheza. Convoca Dasein I a considerar suas próprias possibilidades, mais do que o cardápio oferecido pelo impessoal, e a escolher por si mesmo o que fazer.

Dasein é essencialmente culpado (SZ, 280ss), em um sentido distinto do conceito teológico de pecado, embora por ele pressuposto (PT, 64/18f; SZ, 306n.). Dasein é culpado, mas Dasein I ignora, foge desta culpa. Dasein II convida Dasein I para a culpa explícita e autêntica. Schuldigsein e seus cognatos possuem quatro sentidos comuns: (a) dever algo, ter débitos; (b) ser responsável, culpado, por algo; (COISA) se fazer responsável, punível por, ser culpado de (infringir a lei); (d) enganar, dever algo aos outros. Heidegger prefere o sentido (d), que equivale a: "ser fundamento da falta em Dasein de um outro, de tal maneira que esse próprio ser fundamento determina-se como ‘faltoso’ a partir de seu para quê" (SZ, 282). (Se eu quebro o nariz de alguém, o nariz quebrado é uma falta, e eu também estou faltando ou deficiente em vista da falta que causei.) Devemos interpretar isto não no sentido comum, que envolve a falta de algum ser-simplesmente-dado ou manual, mas em função da existência de Dasein de sua própria existência, e não primeiramente da existência dos outros. A culpa existencial é, portanto, "ser fundamento de um ser [Sein] determinado por um não [Nicht, o correlato existencial de uma falta do ser-simplesmente-dado], i.e., ser o fundamento de um nada [Nichtigkeit]" (SZ, 283). Observamos para ver se, naquilo que até agora consideramos que Dasein fosse, podemos achar alguma coisa que corresponda a esta definição abstrata.

Heidegger encontra tal culpa na estrutura tripla do cuidado (cura) de Dasein: a. lançamento, B. existência e C. decadência. A. envolve a nulidade: Dasein não é responsável por sua própria entrada no mundo nem pela situação na qual se encontra; ele não decide de onde vai começar nem mesmo se vai começar. Dasein lançado é o fundamento de B e C. B. também envolve a nulidade: Dasein tem de existir, tornar seu ser e estar lançado o fundamento de uma projeção de suas possibilidades; mas ele não tem natureza, regras ou trajetos intrínsecos para guiá-lo; Dasein é pura possibilidade, intrinsecamente nu e sem lar, e, assim, seu projeto é "nulo". Além disso, a existência envolve a rejeição de algumas possibilidades em prol de outras. a, que é Dasein ii, fundamenta C, a queda de si mesmo para Dasein I: se Dasein não fosse no fundo culpado, não poderia sair desta condição nem teria motivo algum para fugir dela. Em C, Dasein se refugia no impessoal e se esquece de sua culpa original e de suas várias nulidades.

Mais tarde, Heidegger ainda fala da convocação, especialmente da convocação silenciosa (Ruf, Zuruf, etc.): o apelo do ser (GA65, 384), o apelo dos homens, deuses, terra e mundo uns aos outros (EHD, 177), o apelo da poesia a nós (GA12, 21ss/plt, 198s) e o apelo envolvido no nomear as coisas (EHD, 188; WHD, 151ss/123ss). Na obra de Heidegger posterior a SZ, consciência e culpa desempenham, porém, um pequeno papel. [DH]

Submitted on:  Mon, 12-Mar-2012, 16:02