conceito de mundo

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

conceito de mundo

Já na Dissertação de 1770, onde a caracterização introdutória do conceito de mundo em parte ainda se move inteiramente no roteiro da tradicional metafísica ôntica, toca Kant numa dificuldade que se esconde no conceito de mundo que, mais tarde, na Crítica da Razão Pura, toma a gravidade e amplidão de um problema central. Kant inicia a análise do conceito de mundo na Dissertação com uma determinação formal daquilo que se compreende com "mundo": mundo como "termo" está essencialmente referido à "síntese": In composito substantiali, quemadmodum Analysis non terminatur nisi parte quae est totum, h.e. Simplici, ata synthesis non nisi toto quod non est pars, i.e. Mundo. [De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis, Sectio I De notione mundi generatim, §§ 1, 2. (N. do A.)] No § 2 determina o filósofo aqueles "momentos" que são essenciais para uma definição do conceito de mundo: 1. Materia (in sensu transcendentali) h.e. partes, quae hic summuntur esse substantiae. 2. Forma, quae consistit in substantiarum coordinatione, non subordinatione. 3. Universitas, quae est omnitudo compartiam absoluta. Com relação a este terceiro momento nota Kant: Totalitas haec absoluta, quamquam conceptus quotidiana et facile obvii speciem prae se ferat, praesertim cum negative enuntiatur, sicuti fit in definitione, tamen penitus perpensa crucem figere philosopho videtur.

Esta "cruz" pesa o decênio seguinte sobre Kant; pois, a Crítica da Razão Pura torna-se justamente esta universitas mundi problema e sob vários aspectos. Trata-se de aclarar: 1. A que (Worauf) se refere a totalidade representada sob o nome "mundo", respectivamente, a que pode ela unicamente referir-se? 2. O que, de acordo com isto, é representado no conceito de mundo? 3. Que caráter possui este representar de tal totalidade, isto é, qual é a estrutura conceitua) do conceito de mundo como tal?

As respostas de Kant a estas questões, por ele não formuladas tão expressamente, trazem consigo uma absoluta modificação do problema do mundo. Não há dúvida que também para o conceito de mundo de Kant se mantém o fato de que a totalidade nele representada se refere às coisas finitas subsistentes. Mas esta relação com a finitude, tão essencial para o conteúdo do conceito de mundo, recebe um novo sentido. A finitude das coisas puramente subsistentes não é determinada pela via de uma demonstração ôntica de seu ser-criado por Deus, mas é explicada levando em conta o fato de que e em que medida as coisas são objeto possível para um conhecimento finito, isto é, para um tal conhecimento, que deve primeiramente deixar-se dá-las enquanto já subsistentes. Este ente mesmo, dependente sob o ponto de vista de sua acessibilidade, de uma passiva receptividade (intuição finita), designa Kant como "fenômenos", isto é, "coisas em sua aparição". Todavia, o mesmo ente, entendido como possível "objeto" de uma intuição, absoluta, isto é, criadora, ele o chama "coisa em si". A unidade do complexo de fenômenos, isto é, a constituição ontológica do ente acessível ao conhecimento finito, é determinada pelos princípios ontológicos, isto quer dizer, pelo sistema dos conhecimentos sintéticos a priori. O conteúdo objetivo representado a priori nestes "princípios sintéticos", sua "realidade" no sentido antigo, justamente retido por Kant, de coisidade, se pode apresentar, sem a experiência, intuitivamente a partir dos objetos, isto é, a partir daquilo que é necessariamente intuído a priori com eles, a partir da pura intuição do "tempo". Sua realidade é uma realidade objetiva, representável a partir dos objetos. Não obstante, é a unidade dos fenômenos, já que necessariamente dependente de um dar-se faticamente contingente, sempre condicionada e fundamentalmente imperfeita. Se agora esta unidade da multiplicidade dos fenômenos for representada como perfeita, então surge a representação de um conceito compreensivo, cujo conteúdo (realidade) não se deixa projetar numa imagem, isto é, em algo intuível. A representação é "transcendente". Na medida, porém, em que esta representação de uma perfeição é, contudo, a priori necessária, possui ela, ainda que transcendente, no entanto, realidade transcendental. As representações deste caráter Kant denomina "ideias". Ela "contém uma certa perfeição a que não tem acesso nenhum conhecimento empírico possível, e a razão persegue com isto apenas uma unidade sistemática, da qual procura aproximar a unidade empírica possível, sem jamais poder atingi-la de maneira completa" [Cf. Crítica da Razão Pura, A 568, B 596]. "Eu, porém, entendo por sistema a unidade dos conhecimentos múltiplos sob uma ideia. Esta é conceito racional da forma de um todo." [Ibidem, A 832, B 860] Esta unidade e totalidade representada nas ideias não pode também nunca, porque "jamais pode ser projetada na imagem", [Ibidem, A 328, A 328, B 384] referir-se imediatamente a algo intuível. Ela concerne, por conseguinte, enquanto unidade superior, sempre apenas à unidade da síntese do entendimento. Mas estas ideias "não são inventadas arbitrariamente, mas impostas pela natureza da razão mesma e se referem, portanto, necessariamente a todo o uso do entendimento". [Ibidem, A 327, B 384] Como puros conceitos do entendimento, elas não brotam da reflexão do entendimento, ainda sempre referido ao que é dado, mas emergem do puro procedimento da razão enquanto conclusiva. Kant denomina, por isso, as ideias, à diferença dos conceitos "refletidos" do entendimento, conceitos "obtidos por conclusão" [Ibidem, A 310, B 367; ainda A 333, B 390. (N. do A.)] No procedimento conclusivo, porém, a razão visa a conquistar o incondicionado para as condições. As ideias, como puros conceitos racionais da totalidade, são, por isso, representações do incondicionado. "Portanto, o conceito transcendental da razão não é outro senão aquele da totalidade das condições para um condicionado dado. Pelo fato de o incondicionado poder unicamente tornar possível a totalidade das condições, e vice-versa, a totalidade das condições ser sempre, ela mesma, incondicionada, pode um puro conceito da razão como tal ser explicado pelo conceito incondicionado, na medida em que contém um fundamento da síntese do condicionado." [Ibidem, A 322, B 379. - Quanto à integração da "ideia", como uma determinada "espécie de representação" na "escala" das representações, cf. Ibidem, A 320, B 376 e ss.]

Ideias são como representações da totalidade incondicionada de um âmbito do ente, representações necessárias. Na medida em que é possível uma tríplice relação das representações com algo, com o sujeito e com o objeto e com este novamente de duas maneiras, de maneira finita (fenômenos) e de maneira absoluta (coisa em si), surgem três classes de ideias, com as quais se deixam harmonizar as três disciplinas da metaphysica specialis da tradição. A ideia de mundo é, de acordo com isto, aquela em que é representada a priori a totalidade absoluta dos objetos acessíveis no conhecimento finito. Mundo designa, por conseguinte, tanto "conjunto de todos os fenômenos" [Ibidem, A 334, B 391] como "conjunto de todos os objetos da experiência possível" [Que significa: orientar-se no pensamento?, 1786. Obras Completas (Cassirer), IV, p. 355] Denomina todas as ideias transcendentais, na medida em que se referem à totalidade absoluta na síntese por fenômenos, "conceitos de mundo". [Crítica da Razão Pura, A 407 ss., B 434] Mas pelo fato de o ente acessível ao conhecimento finito poder ser considerado ontologicamente, tanto sob o ponto de vista de sua quididade (essentia) como sob o ponto de vista de sua existência (existentia) ou, de acordo com a formulação kantiana desta diferença, segundo a qual ele também divide as categorias e princípios da analítica transcendental, "matematicamente" e "dinamicamente" ["Na aplicação dos conceitos puros do entendimento à experiência possível, é o uso de sua síntese, ou matemático ou dinâmico: pois eles se dirigem em parte à intuição, em parte à existência de um fenômeno em geral." Ibidem, A 160, B 199. - No que diz respeito à correspondente distinção dos "princípios", diz Kant: "Deve-se entretanto, notar que não tenho diante de meus olhos, aqui, tampouco os princípios da matemática, num caso, quanto os princípios da dinâmica geral (física) no outro, mas apenas os princípios do puro entendimento em sua relação com o sentido interno (sem distinção das representações nele dadas), dos quais aqueles, reunidos, recebem sua possibilidade. Denomino-os, portanto, levando mais em consideração sua aplicação que seu conteúdo..." Ibidem, A 162, B 302. - Cf., justamente no que respeita a uma problemática mais radical do conceito de mundo e do ente em sua totalidade, a diferença entre o sublime-matemático e o sublime-dinâmico. Crítica da Força do Juízo, particularmente § 28] surge como resultado uma divisão de conceitos de mundo em matemáticos e dinâmicos. Os conceitos de mundo matemáticos são os conceitos de mundo "em sentido estrito", à diferença dos dinâmicos, que o filósofo também denomina "conceitos transcendentais da natureza". [Ibidem, A 419 ss., B 446 ss. (N. do A.)] Contudo, Kant acha "muito conveniente" denominar estas ideias "em conjunto" conceitos de mundo, "porque com mundo se entende o conceito compreensivo de todos os fenômenos, e nossas ideias também se dirigem somente ao incondicionado sob os fenômenos"; em parte também porque a palavra "mundo" significa, no entendimento transcendental, a absoluta totalidade do conjunto das coisas existentes, e porque nós dirigimos nossa atenção unicamente para a perfeição da síntese (ainda que propriamente apenas no regresso às condições). [Ibidem.]

Nesta nota, vem à luz não apenas a conexão do conceito kantiano de mundo com a metafísica tradicional, mas, com a mesma clareza, a transformação realizada na Crítica da Razão Pura, isto é, a originária interpretação ontológica do conceito de mundo, que agora, em resposta breve às questões acima colocadas, pode ser assim caracterizada: 1. O conceito de mundo não é um encadeamento ôntico das coisas em si, mas um conceito compreensivo transcendental (ontológico) das coisas como fenômenos. 2. No conceito de mundo não é apresentada uma "coordenação" das substâncias, mas justamente uma subordinação, e, a saber, "a série ascendente" das condições da síntese para o incondicionado. 3. O conceito de mundo não é uma representação "racional" indeterminada em sua conceitualidade, mas determinado como ideia, isto é, como puro conceito sintético da razão e distinto dos conceitos do entendimento.

E, desta maneira, é retirado do conceito de mundus agora também o caráter de universitas (totalidade), que antigamente lhe era atribuído, e reservado para uma classe ainda mais alta de ideias transcendentais, para as quais o conceito de mundo mesmo possui uma indicação e que Kant denomina de "ideal transcendental". [Ibidem, A 572, B 600, nota]

Neste lugar, é preciso renunciar a uma interpretação deste momento supremo da metafísica especulativa de Kant. Somente uma coisa deve ser lembrada, para pôr, com mais clareza, em relevo, o caráter essencial de mundo, a finitude.

Como ideia é o conceito de mundo a representação de uma totalidade incondicionada. Contudo, não representa ele simples e "propriamente" o incondicionado, na medida em que a totalidade nele pensada, o objeto possível do conhecimento finito, permanece referida a fenômenos. Mundo como ideia é, na verdade, transcendente, ultrapassa os fenômenos, mas de tal maneira que como totalidade deles é a eles retro-referido. Transcendência, no sentido kantiano do ultrapassar da experiência é, porém, ambígua. De um lado, pode significar: ultrapassar, em meio à experiência, aquilo que nela é dado como tal, a multiplicidade dos fenômenos. Isto vale da representação "mundo". De outro lado, porém, transcendência significa: sair da experiência como conhecimento finito em geral e representar a possível totalidade de todas as coisas como "objeto" do intuitus originarias. Nesta transcendência emerge o ideal transcendental, em face do qual mundo representa uma restrição e torna-se expressão do conhecimento finito humano em sua totalidade. O conceito de mundo está como que entre a "possibilidade da experiência" e o "ideal transcendental" e significa assim, em seu núcleo, a totalidade da finitude do ser humano.

A partir daqui se descerra o véu para a segunda significação especificamente existencial que em Kant recebe o conceito de mundo ao lado do "cosmológico".
"O objeto mais importante no mundo, a que o homem pode aplicar todos os progressos na cultura, é o homem, porque ele é seu próprio fim último. - Conhecê-lo, portanto, como habitante da terra, dotado de razão segundo sua espécie, merece ser particularmente chamado conhecimento do mundo, ainda que apenas constitua uma parte dos seres terrestres". [Antropologia redigida sob o ponto de vista pragmático, 1800, segunda edição, prefácio. Obras Completas (Cassirer), VIII, p. 3] Conhecimento do homem, e isto, precisamente, sob o ponto de vista "daquilo, que ele como ser que age com liberdade, faz de si ou pode e deve fazer", portanto, precisamente não o conhecimento do homem sob o ponto de vista "fisiológico", é aqui denominado conhecimento do mundo. Conhecimento significa o mesmo que antropologia pragmática (ciência do homem). "Uma tal antropologia, considerada como conhecimento do mundo..., não é propriamente ainda então denominada de pragmática, quando contém um conhecimento ampliado das coisas no mundo, por exemplo, dos animais, plantas e minerais em diversos países e climas, mas quando contém conhecimento do homem como cidadão do mundo." [Ibidem, p. 4]

O fato de "mundo" significar justamente a existência do homem no convívio histórico e não como fenômeno cósmico, como espécie e ser vivo, torna-se ainda particularmente claro a partir das expressões que Kant aduz para a clarificação deste conceito existencial do mundo: "Conhecer mundo" e "possuir mundo". Ambas as expressões significam, ainda que ambas visem à existência do homem, algo diferente, "enquanto um (o que conhece o mundo) apenas compreende o jogo a que assistiu, o outro, porém, tomou parte do jogo". [Ibidem. "Um homem do mundo é companheiro no grande jogo da vida" - "Homem do mundo quer dizer saber das relações com outros homens e o que está acontecendo na vida humana." Ter mundo quer dizer ter máximas e imitar grandes modelos. Vem do francês. Alcança-se o fim através da conduite, costumes, trato etc." Preleção sobre antropologia. CE As principais preleções filosóficas de 1. Kant. Conforme os recém-encontrados cadernos do Conde Heinrich zu Dohnawunderlacken. Editados por A. Kowalewski, 1924, p. 71] Mundo é aqui o nome para o jogo do ser-aí, cotidiano, para este mesmo.

De acordo com isto distingue Kant a "sabedoria do mundo" da "sabedoria privada". A primeira é habilidade de um homem para influenciar outros, para usá-los para seus "propósitos". [Cf. Fundamentação da metafísica dos costumes, Obras Completas (Cassirer), IV, p. 273, nota] Ademais: "Pragmaticamente uma história está redigida quando torna sábio, isto é, quando instrui o mundo, como pode procurar sua vantagem melhor ou ao menos tão bem como o mundo que o precedeu". [Ibidem, p. 274, nota]

Deste "conhecimento do mundo" no sentido de uma "experiência da vida" e da compreensão da existência, distingue Kant o "saber da escola" [Cf. as preleções sobre antropologia que citamos, p. 72]. Usando como fio condutor esta distinção, desenvolve o filósofo então o conceito de filosofia segundo o "conceito de escola" e segundo o "conceito de mundo". [Crítica da Razão Pura, A 839, 11867 - Cf. também Lógica (ed. por G. B. Jäsche), Introdução, Seções III]. Filosofia no sentido escolástico permanece objeto do puro "artista da razão". Filosofia segundo o conceito de mundo é a meta do "mestre no ideal", isto é, daquele que visa ao "homem divino em nós". [Ibidem, A 569, B 597] "Conceito de mundo significa aqui aquele que se refere àquilo que a cada um necessariamente interessa." [Ibidem, A 840, B 868, nota] [MHeidegger SOBRE A ESSÊNCIA DO FUNDAMENTO]

Submitted on:  Sat, 23-Oct-2010, 16:04