de-cisão

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

de-cisão

Austrag

VIDE diferença de ente e ser

Em SZ, o Dasein decidido não está simplesmente absorto no presente; ele "adianta-se" à sua própria morte e " repete" ou " retraça" o passado. Assim, Augenblick ao contrário do presente inautêntico, é explicitamente a interseção entre o passado e o futuro. O "intelecto vulgar" tende a interpretar mal conceitos tais como "adiantar-se à morte [Vorlaufen in den Tod]" (SZ, 305) e decisão (GA29, 425ss). Ele pensa em função de episódios atuais, mensuráveis pelo relógio, psicológicos ou físicos. Para ele, adiantar-se à morte consiste em pensar com frequência sobre sua própria morte, decisão é tomar frequentes resoluções ou engajar-se em intensas deliberações e vigorosas ações, e "reminiscência", Erinnerung, resume-se a "uma memória [Gedächtnis]" que "preserva o que antes era atual e agora não é mais". Mas isso não procede. Alguém poderia pensar com frequência e intensamente sobre a morte e ainda assim não conduzir sua própria vida com vistas à morte; além disso, não é preciso ser obcecado com a morte para não querer, por exemplo, adiar seus exames por dez anos. Resoluções frequentes, deliberações ansiosas e atos vigorosos não são garantia de uma conduta de-cidida e coerente, guiada pela concepção de que tipo de pessoa se é e de como sua vida deveria seguir. Isto requer um certo desapego do presente imediato. Se uma pessoa se concentra exclusivamente no presente, provavelmente não verá razão alguma para votar nas eleições ou para sair das festas na hora certa. Há invariavelmente maneiras mais vantajosas de preencher o tempo que se leva para votar; raramente faz diferença se saio da festa agora ou se fico mais dez minutos. Já que tais conceitos não podem ser adequadamente especificados em função de episódios atuais ou estados de coisas, Heidegger fala de suas próprias explicações como uma "indicação formal [formale Anzeige]". Elas não transmitem explicitamente o que é a de-cisão, assim como o que é caminhar não se deixar transmitir adequadamente quando se explica que se coloca um pé na frente do outro de modo que ambos os pés nunca estejam simultaneamente fora do chão. Heidegger pode nos apontar a direção da de-cisão, mas nós só podemos descobrir o que ela é ao nos tornarmos decididos. [DH]



Ser no sentido do sobrevento desocultante e ente enquanto tal, no sentido do advento que se esconde, acontecem como fenômeno os enquanto são assim diferenciados a partir do mesmo, a partir da di-ferença. Somente esta dá e mantém separado o "entre" em que sobrevento e advento são conservados na unidade, em que são sustentados distintos e identificados. A diferença entre ser e ente é, enquanto diferença entre sobrevento e advento, a de-cisão desocultante-ocultante de ambos. Na de-cisão [Austrag] impera a revelação do que se fecha e se vela; este imperar dá a separação e união de sobrevento e advento.

Enquanto procuramos considerar a diferença enquanto tal, não a conseguimos fazer desaparecer, mas a perseguimos na sua origem essencial. A caminho dela pensamos a de-cisão de sobre-vento e ad-vento. Isto é o objeto do pensamento pensado por um passo de volta mais objetivamente: ser pensado a partir da diferença. [MHeidegger A CONSTITUIÇÃO ONTO-TEO-LÓGICA DA METAFÍSICA]


Somente atingimos a proximidade do que nos vem do destino historial através do súbito instante de uma lembrança. Isto também vale para a experiência de cada cunho da diferença de ser do ente ao qual corresponde uma particular interpretação do ente enquanto tal. O que foi dito vale antes de tudo também para nossa tentativa de, no passo de volta do esquecimento da diferença enquanto tal, pensar a ela enquanto de-cisão de sobre-vento desocultante e ad-vento ocultante. Manifesta-se, na verdade, a um ouvido mais dócil, o fato de que nós, quando falamos da de-cisão, já permitimos que faça uso da palavra aquilo que foi e continua sendo, na medida em que lembramos o desocultar e ocultar, a ultrapassagem (transcendência) e o advento (presentear). Talvez se manifeste mesmo pela discussão da diferença de ser e ente, na de-cisão enquanto o lugar de sua essência, algo comum, que perpassa o destino do ser desde o começo até sua plenitude. Entretanto, continua difícil de dizer como esta generalidade deve ser pensada, se ela não é nem algo geral, que vale para todos os casos, nem uma lei que garante a necessidade de um processo no sentido do processo dialético. [MHeidegger A CONSTITUIÇÃO ONTO-TEO-LÓGICA DA METAFÍSICA]


O que agora unicamente interessa para nosso plano é a penetração numa possibilidade de pensar de tal modo a diferença como de-cisão que se torne claro em que medida a constituição onto-teo-lógica da metafísica tem sua origem essencial na de-cisão, que inicia a história da metafísica, perpassa suas épocas, e, no entanto, em toda parte, permanece velada enquanto a de-cisão e, deste modo, esquecida por um esquecimento que a si mesmo ainda subtrai.

Para facilitar a compreensão do acima referido, consideramos o ser e nele a diferença e nesta a de-cisão, a partir daquele cunho do ser pelo qual ele se revelou como logos, como o fundamento. O ser mostra-se no sobrevento desocultante como deixar-estar-aí do que advém, como o fundar nos múltiplos modos do a-duzir e pro-duzir. O ente enquanto tal, o advento que se oculta no desvelamento, é o fundado que, como fundado e assim como obrado, funda a seu modo, a saber, obra, isto é, causa. A de-cisão entre fundante e fundado enquanto tais não mantém apenas ambos separados, ela os mantém na união recíproca. Os elementos sustentados na separação são de tal modo imbricados na de-cisão que não somente ser enquanto fundamento funda o ente, mas que o ente por seu lado funda à sua maneira o ser, causa-o. Tal coisa o ente apenas pode, na medida em que "é" a plenitude do ser: como o mais ente.

Aqui nossa reflexão atinge um encadeamento surpreendente. Ser se manifesta como fenômeno como o cunho do logos no sentido do fundamento, no sentido do deixar-estar-aí. O mesmo logos é enquanto recolhimento do unificante, o hen. Este hen, entretanto, tem uma estrutura dupla: de um lado é o uno unificante no sentido do primeiro, em toda parte, e assim é o mais geral e ao mesmo tempo o uno unificante no sentido do supremo (Zeus). O logos recolhe fundando tudo no universal e recolhe fundando tudo a partir do único. Observemos, apenas de passagem, que o mesmo logos oculta em si, além disto, a origem essencial da marca distintiva da linguagem e que o logos determina deste modo, em sentido mais amplo, os modos do dizer enquanto um dizer lógico.

Na medida em que ser acontece como fenômeno como ser do ente, como diferença, como de-cisão, perdura a separação e união do fundar e fundamentar; o ser funda o ente, este, enquanto o mais ente, fundamenta o ser. Um sobre-vém ao outro, um ad-vém no outro. Sobrevento e advento aparecem mutuamente enviscerados no re-flexo que os opõe. Dito a partir da diferença, isto significa: a de-cisão é um circular, um circular de ser e ente, um em torno do outro.

O fundar mesmo aparece no seio da revelação da de-cisão como algo que é e que assim por si mesmo exige, enquanto ente, a correspondente fundação pelo ente, quer dizer, a causação, e, na verdade, a causação pela causa suprema.

Uma das provas clássicas para este estado de coisas na história da metafísica encontra-se num texto, pouco considerado, de Leibniz, que nós, por amor à brevidade, chamamos As Vinte e Quatro Teses da Metafísica. (Gerh, Phil., VII, 289; e ss.; cf. para isso: O Princípio de Razão, 1957, p. 51 e ss.) [MHeidegger A CONSTITUIÇÃO ONTO-TEO-LÓGICA DA METAFÍSICA]

Submitted on:  Mon, 12-Mar-2012, 20:30