conhecimento

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

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Heidegger tinha aversão à Erkenntnistheorie, mesmo antes de decidir que Kant era mais um metafísico do que um epistemólogo (GA26, 272s, 286). Erkenntnis é "conhecimento" filosófico ou científico, apesar de seu verbo correspondente, Erkennen, significar frequentemente apenas "conhecer, reconhecer etc." "Nem todo conhecer [Erkennen] é Erkenntnis científico" (SZEHF, 63/52). Erkenntnis e, até mesmo, Erkennen pressupõem uma consciência tácita e não especializada de mundo, da própria vida e dos afazeres de cada um — Dasein ou Existem — que eles nunca podem apreender inteiramente. Erkenntnis e, portanto, Erkenntnistheorie pressupõem uma explicação do ser: "A questão acerca da essência de Erkenntnis já é [...] uma ponderada projeção da essência do homem e de sua posição em meio aos entes e uma projeção da essência destes próprios entes" (N1, 561s/N3, 75. Cf. GA20, 215ss). Para o ser-no-mundo cotidiano, Heidegger prefere palavras tais como verstehen, "compreender", ou, antes de SZ, sich auskennen, "entender de algo": "Conhecimento [Wissen] no sentido mais amplo" inclui "não apenas teoria, mas também entender de algo [Sich-auskennen], por exemplo, em uma profissão" (GA22, 265, cf. GA43, 99; GA21, 143). Wissen, "saber [como, que, sobre etc.], contrasta com kennen, "conhecer, ser familiar, ter relação [com algo ou alguém]". Wissen era originalmente um verbo no passado, " ter percebido". Usado sobretudo na acepção de saber como, esse verbo não costuma atualmente ser relacionado à visão. Heidegger o associa, no entanto, a ver e ter visto (UK, 47/184). Considera das Wissen como " a preservação da verdade", ao passo que Erkennen é " um modo pelo qual a verdade é revelada e adquirida" e Erkenntnis, " aquisição de verdade" (SZEHF, 63/52). Utiliza, às vezes, Wissen em um sentido amplo que inclui tanto "teoria", Erkenntnis, quanto entender de algo (GA22, 265). Outras vezes, o utiliza de modo mais positivo do que o faz com as palavras ligadas a kennen, relacionando-o ao conhecimento filosófico ou conhecimento do todo: "O conhecimento [kennen] comum termina com o não-conhecimento [Nichtkennen] daquilo que ainda é passível de ser conhecido [Kennbaren]. O conhecimento essencial [Wissen] começa com o conhecimento [Wissen] de algo que não é passível de ser conhecido [Nichtwissbaren]" (N1, 477/N3, 5s, cf. GA29, 213). Erkenntnis sempre contrasta com humores e com vontade. Wissen, não necessariamente. O Wissen transmitido por uma grande obra de arte não "consiste meramente em conhecer [Kennen] e representar algo. Aquele que verdadeiramente conhece [weiss] os entes, sabe o que quer em meio a eles. [...] O Wissen que permanece uma vontade, e a vontade que permanece um Wissen, é o envolvimento ecstático do homem existencial no desencobrimento dos entes", e é portanto similar à decisão, em SZ (UK, 55/192). Assim sendo, simplesmente "ter informação [Kenntnisse], por mais abundante que isso possa ser, não é Wissen" (im, 16/17). No nosso abandono tecnológico de ser, Wissen tende a se degenerar para " a disseminação calculada, rápida e em grande escala de informação mal-compreendida para o maior número possível, no menor tempo possível" (GA65, 122). [DH]



O conhecimento provoca abertura. Abrindo, o conhecimento é um desencobrimento. [GA7, pag. 17]

Submitted on:  Mon, 12-Mar-2012, 15:39