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História

Definition:
vide história

(gr. historia; lat. historia; in. History; fr. Histoire, al. Geschichte; it. Storià).

Esse termo, que em geral significa pesquisa, informação ou narração e que já em grego era usado para indicar a resenha ou a narração dos fatos humanos, apresenta hoje uma ambiguidade fundamental: significa, por um lado, o conhecimento de tais fatos ou a ciência que disciplina e dirige esse conhecimento (historia rerum gestarum) e, por outro, os próprios fatos ou um conjunto ou a totalidade deles (res gestae). Essa ambiguidade está presente em todas as atuais línguas cultas (cf. história I. Marrou, De la connaissance historique, 1954, pp. 38-39). Mas, em vista do maior uso do termo historiografia para indicar o conhecimento histórico em geral, ou ciência da história (e não a arte de escrever história), pode-se colocar no verbete historiografia o tratamento dos significados atribuídos à história ao longo do tempo, (como conhecimento) e incluir neste verbete só os significados que foram dados à realidade histórica como tal. Tais significados são os seguintes: 1) história como passado; 2) história como tradição; 3) história como mundo histórico; 4) história como objeto da historiografia.

1) A história interpretada como passado pode, com boas razões, ser considerada uma tautologia, mas o sentido em que Heidegger entendeu essa interpretação (Sein und Zeit, § 73), não parece puramente tautológico. Quando se diz: "Isto pertence à história", entende-se que pertence ao passado, a um passado que tem pouca eficácia sobre o presente. Por outro lado, quando se diz: "Não podemos subtrair-nos à história", entende-se ainda a história como passado, mas como um passado que age inevitavelmente sobre o presente. Assim também, dizer que "algo tem história" significa afirmar que tem passado e que é fruto desse passado. Nestas e em semelhantes expressões, o significado desse termo permanece estritamente genérico: remete a uma dimensão do tempo e às relações que podem ser estabelecidas entre ela e as outras dimensões.

2) Em segundo lugar, a história pode ser entendida como tradição, em que crenças e técnicas são transmitidas e conservadas através do tempo, seja tal legado verificável pela historiografia, seja considerado como "evidente", mesmo permanecendo obscuro e não verificável. Ao conceito de tradição pode vincular-se o conceito de Heidegger sobre a historicidade autêntica, que é a escolha, para o futuro, das possibilidades que já foram, sendo, pois, aí transmissão de tais possibilidades da existência ; para si mesma, uma repetição decidida, que Heidegger chama também de destino. "A decisão constitui a fidelidade da existência a si mesma. Enquanto decisão permeada de angústia, a fidelidade é ao mesmo tempo o possível respeito em face da única autoridade que um existir livre pode reconhecer, ou seja, em face das possibilidades repetíveis da existência" (Sein und Zeit, § 75) . "Se o ser-aí só é autenticamente real na existência, sua factualidade constitui-se justamente no decidido autoprojetar-se para um poder-ser que já foi escolhido. Mas então o que foi autenticamente um fato é a possibilidade existenciária em que se determinam efetivamente o destino, a destinação comum e mundanamente histórica" (Ibid., § 76). Às vezes, porém, a tradição é entendida como conservação infalível e progressiva de todos os resultados ou conquistas do homem; nesse caso, o conceito identifica-se com o de história como plano providencial (v. tradição).

3) O terceiro significado de história é o mais relevante filosoficamente; para ele, história é o mundo histórico, a totalidade dos modos de ser e das criações humanas no mundo, ou a totalidade da "vida espiritual" ou das culturas. Nesse sentido, a história contrapõe-se a "natureza", que é a totalidade do que é independente do homem ou que não pode ser considerado produção ou criação sua, mas permanece aparentado com a natureza pelo seu caráter de totalidade, de mundo. É no âmbito desse conceito que se podem distinguir as interpretações "filosóficas" da história, que constituem a chamada "filosofia da história". Entre estas interpretações podem-se considerar principais as seguintes: d) história como decadência; ti) história como ciclo; c) história como reino do acaso; d) história como progresso; e) história como ordem providencial.

a) A interpretação da história como decadência é própria da Antiguidade, que a expressou com a doutrina das idades do gênero humano. A sucessão das cinco idades, descrita por Hesíodo, vai da idade de ouro, na qual os homens "viviam como deuses", à idade dos homens, na qual estes estão sujeitos a toda espécie de males, passando pela idade de prata, de bronze e dos heróis, que assinalam a decadência gradual do estado do gênero humano (Op., 109-79). Platão reduziu a três as idades, enumerando somente a idade dos deuses, dos heróis e dos homens, mas conservando o caráter de decadência sucessiva que as idades apresentam quanto às condições materiais e morais dos homens (Crítias, 109b ss.). Retomada no mundo moderno (Vico, Fichte e outros), essa doutrina perdeu o significado pessimista e tornou-se otimista: as idades estão em ordem de progresso e não de decadência. Mas não há dúvida de que, para os gregos, essa doutrina constitui uma interpretação da história como decadência (v. idade).

b) A noção da história como ciclo está ligada à de ciclo do mundo, bastante difundida na Antiguidade grega. Para os estoicos a repetição do ciclo cósmico incluía a repetição da história humana no seu conjunto. Segundo eles, de fato, em cada novo ciclo do mundo, "haverá de novo Sócrates de novo Platão e de novo cada um dos homens com os mesmos amigos e concidadãos, as mesmas crenças, os mesmos assuntos discutidos, e toda cidade, vilarejo ou campo igualmente retornarão" (Nemésio, De nat. bom., 38). Pode-se ver na obra de Spen-gler uma revivescência moderna desse conceito de história Para ele, os ciclos históricos, as culturas, não se repetem de modo idêntico, como julgavam os estoicos, mas a sua forma repete-se identicamente: nascimento, crescimento e morte. "Toda cultura, todo surgimento, progresso e declínio, bem como cada um dos seus graus e dos seus períodos inteiramente necessários têm duração determinada, sempre igual, sempre recorrente, com forma de símbolo" (Der Untergang des Abendlandes, 1932, I, p. 147) (v. ciclo).

c) O conceito da história como reino do acaso não é frequente na interpretação filosófica da história. Parece, contudo, que Aristóteles não estava muito longe dele quando contrapôs o historiador ao poeta, dizendo que a este último cabia representar o universal, "as coisas tais quais poderiam acontecer segundo a verossimilhança e a necessidade", ao passo que caberia ao historiador representar as coisas "realmente acontecidas", "o particular" e, como p. ex. "o que fez Aquiles e o que lhe aconteceu" (Poet., IX, 1451b 2-10). Não se deve esquecer que, para Aristóteles, só o universal é objeto de conhecimento científico e que o particular não pertence à ciência (Met., III, 6, 1003 a 15). Mais explicitamente, Schopenhauer dizia: "A história do gênero humano, a intimidade de acontecimentos, a mudança dos tempos, os múltiplos aspectos da vida humana em países e séculos diferentes, tudo isso é apenas a forma casual assumida pela manifestação da Ideia, que não pertence a esta, na qual está apenas a objetividade adequada da vontade, mas ao fenômeno que fica sendo conhecido pelo indivíduo; e é tão estranha, tão inessencial e indiferente à Ideia quanto são estranhas às nuvens as figuras que representam, ao rio a forma dos seus sorvedouros e das suas espumas, e ao gelo suas figuras de árvores e flores" (Die Welt, I, § 35). Não se pode considerar, porém, neste tópico, o conceito da história expresso por Maquiavel ao dizer que "a sorte pode ser árbitro da metade das nossas ações, contanto que nos deixe ainda governar a outra metade, ou quase"; comparando a sorte a um rio que, quando irado, arrasta tudo, mas cujo ímpeto não é prejudicial ou causa menos danos quando o homem faz, a tempo, reparos e diques (Princ, 25). De fato, para Maquiavel, a sorte é o conjunto de condições que limitam, impedem ou frustram a ação do homem na história, mas não é a totalidade da história No entanto, para A. Cournot o acaso servia para definir o domínio da história, que ele contrapôs ao da natureza, que é o domínio da ordem e da lei (Essai sur les fondements de la connaissance, 1851).

d) O conceito de história como progresso tem a característica de afirmar o caráter problemático e não inevitável do progresso, pois, se o progresso é necessário, a história é sobretudo uma ordem providencial cujos momentos são todos igualmente perfeitos, porquanto indispensáveis à perfeição ou ao aperfeiçoamento do conjunto. A história como progresso problemático é uma ideia iluminista que supõe a medida do progresso, ou seja, uma norma ou um ideal de que a história procura aproximar-se, ou que ela procura realizar, mas não encontrando jamais em si uma adequação perfeita. G. B. Vico expressou esse ideal no conceito de história ideal eterna "sobre a qual transcorrem no tempo as histórias de todas as nações, com surgimentos, progressos, estados, decadências e fins" (Sc. nuova, De principi). A história ideal eterna é a ordem universal e eterna à qual a história temporal, ou melhor, as várias histórias temporais dos vários tempos e nações tendem a adequar-se, sem nunca conseguirem por completo, aliás, às vezes precipitando-se na confusão e na ruína (Ibid., Conclusão da obra). Vico entendia a história ideal eterna como sucessão progressiva de três idades (dos deuses, dos heróis, dos homens) e a permanência indefinida na última, que é a conclusão do ciclo. Voltaire, ao contrário, considerou como norma e medida do progresso histórico a ilustração; a libertação da razão humana dos preconceitos e a sua posição de guia da vida individual e social do homem (cf. especialmente o Essai sur les moeurs, 1740; Philosophie de l’histoire, 1765). Kant seguiu o mesmo critério, sugerindo-o, porém, apenas como "fio condutor" para orientar-se filosoficamente na história dos povos. Escreveu: "À medida que as limitações à atividade pessoal forem sendo abolidas e que a liberdade religiosa for concedida a todos, produzir-se-á gradualmente, ainda que com intervalos de ilusões e fantasias, a ilustração como um grande bem que a espécie humana poderá fazer derivar até dos objetivos ambiciosos de poder dos seus dominadores" (Idee zu einer allgemeinen Geschichte, 1784, tese VIII). Segundo Jaspers, o único fim projetável da história é a unidade da humanidade, não alcançável por meio da ciência ou da uniformidade linguística ou cultural, mas da "ilimitada comunicação daquilo que é diferente historicamente, tal como se pode realizar num diálogo incessante, numa luta amorável" (Vom Ursprung und Ziel der Geschichte, 1949). Certamente é possível propor outros critérios ou normas como medida do progresso na história, mas as características dessa noção não mudam enquanto se admite a inevitabilidade do progresso.

e) Com a afirmação da inevitabilidade do progresso, o próprio progresso torna-se inconcebível (como viu Hegel), porque, se a história é necessária, cada momento dela é tudo o que deve ser e não pode ser melhor nem pior do que os outros. A concepção da necessidade da história é a concepção da história como plano providencial. A noção de plano providencial está implícita em todas as formas de milenarismo ou quiliasmo: toda doutrina desse tipo inclui a ideia de desenvolvimento necessário dos feitos humanos até a consecução de um estado definitivo de perfeição. Foi esse, p. ex., o conceito de história em Orígenes: para ele, os mundos sucedem-se no tempo como escolas nas quais os seres decaídos se reeducam (De princ, III, 6, 3), e o ciclo total da história é o retorno do mundo a Deus, que culmina na apocatástase, na restituição de todos os seres à sua perfeição originária (In Johann., XX, 7). Mas o primeiro a formular claramente o conceito de plano providencial foi S. Agostinho, que viu na história a luta entre a cidade celeste e a cidade terrena-, luta destinada a acabar com o triunfo da cidade celeste. Para esse triunfo, segundo S. Agostinho, Deus faz que também contribuam o mal e a má vontade (De civ. Dei, XI, 17). Os três períodos em que, para S. Agostinho, a história se divide não são mais que o desenvolvimento do plano providencial. No primeiro, os homens vivem sem leis e ainda não há luta contra os bens do mundo. No segundo, os homens vivem sob a lei e por isso combatem contra o mundo, mas são vencidos. O terceiro período é o tempo da graça, em que os homens combatem e vencem (Ibid., XIX, 15-26). No séc. XII, a profecia de Gioacchino da Fiore parte do mesmo conceito de história e tem como modelo a divisão das idades feita por S. Agostinho. Gioacchino acredita que, depois da idade do Pai, que é a da lei, e da idade do Filho, que é a do Evangelho, virá a idade do Espírito, que é a da Graça, da inteligência plena da verdade divina (Concordia novi et veteris testamento, V, 84, 112).

Todavia, o plano providencial da história, embora infalível e necessário, é, do ponto de vista religioso, imperscrutável em seus detalhes. O homem religioso crê nele e na sua perfeição, mas sabe que não pode compreender os caminhos pelos quais se vai realizando. Posto diante do mal, confia em que o mal, em última instância, não triunfará, mas sabe que não pode dizer como isso acontecerá. Quando, no Romantismo, a doutrina do plano providencial da história se transforma em doutrina filosófica, o não-saber religioso transforma-se em certeza racional. Hegel afirmou muitas vezes que a diferença entre religião e filosofia é que a segunda demonstra, na sua determinação, essa relação entre Deus e o mundo, esse plano providencial, e a primeira se limita a reconhecê-los (Enc., § 573; Philosophie der Geschichte, ed. Lasson, I, p. 55). Entretanto, o ingresso dessa noção em filosofia deve-se sobretudo a Fichte. Em Caracteres da Idade Contemporânea (1806), Fichte afirmava energicamente a necessidade da história e a sua redução a um plano providencial: "Qualquer coisa que realmente exista existe por absoluta necessidade: e existe necessariamente na forma precisa em que existe" (Ibid., EX). E distinguia dois elementos no processo de civilização da espécie humana: um elemento a priori, que é o plano do mundo ou ordem providencial, e um elemento a posteriori, temporal ou empírico, constituído pelos fatos. A resultante dessa concepção é que "Nada é como é porque Deus queira arbitrariamente assim, mas porque Deus não pode manifestar-se de outro modo. Reconhecer isso, submeter-se humildemente e ser feliz, na consciência da nossa identidade com a força divina, é tarefa de todo homem" (Ibid., IX; trad. it. Cantoni, p. 67). Com essa distinção, Fichte parece atribuir certa autonomia (embora fictícia) aos "fatos"da história, em face do plano providencial de que devem participar. Mas mesmo essa autonomia fictícia dos fatos desaparece na doutrina de Hegel: "Deus prevalece, e a história do mundo não representa nada além do plano da providência. Deus governa o mundo: o conteúdo do seu governo, a execução do seu plano é a história universal... A filosofia quer conhecer o conteúdo, a realidade da ideia divina e justificar a realidade vilipendiada. Com efeito, a razão é a percepção da obra de Deus" (Philosophie der Geschichte, ed. Lasson, I, p. 55). Foi esse conceito de história que Croce retomou e defendeu nos primeiros decênios do séc. XX. Para ele, o sujeito da história é o Espírito do Mundo ou a Razão, não o homem (Teoria e storia della storiografia, 1917, p. 87). A história é uma ordem progressiva que não conhece decadência, interrupção ou morte (La storia come pensiero e come azione, 1938, p. 38). Ela é sempre justificadora, nunca justiceira; e "só poderia tornar-se justiceira tornando-se injusta, ou seja, confundindo o pensamento com a vida" (Teoria estória della storiografia, p. 77). Para Hegel e para Croce o caráter necessário e providencial da história deriva da crença de que a história é obra de uma Razão Absoluta cuja perfeição e cuja potência não conhecem limites.

Uma forma levemente atenuada dessa concepção é a que considera a história como revelação de Deus. Esse conceito não é estranho ao próprio Hegel, para quem revelação de Deus no mundo e realização de Deus coincidem. Mas ele assinala a atenuação da relação entre os dois conceitos de revelação e realização. Essa atenuação já estava em Schelling, que definia a história como "a revelação do Absoluto que se desenrola contínua e gradualmente", distinguindo três períodos: o primeiro, em que a providência aparece como destino ou força cega-, o segundo, em que ela aparece como natureza; o terceiro, em que ela aparece como providência (System des transzendentalen Idealismus, seç. IV, Adendos, III, C.; trad. it., p. 283 ss.). O conceito de revelação foi usado frequentemente no fim do Romantismo do séc. XIX, bem no Espiritualismo e Idealismo do séc. XX. Nessas suas manifestações, conservou a conexão da ideia de progresso que Schelling lhe atribuíra. Tal conexão, porém, não é indispensável. A revelação de Deus na história pode não ser gradual, mas total e completa em cada ponto da história Cada época, cada momento seu é, nesse caso, uma revelação completa de Deus, segundo as palavras de Goethe: "O instante é a eternidade" e, segundo a frase do historiador Ranke, "Cada época está em relação imediata com Deus". Nesta forma, o conceito romântico da história como ordem providencial também foi aceito por alguns historicistas alemães como E. Troeltsch (Der Historismus und seine Probleme, 1922) e F. Meinecke (Die Entstehung der Historismus, 1936; Vom geschichtlichen Sinn und vom Sinn der Geschichte, 1939), preocupados em salvar da mobilidade e da relatividade da história o caráter absoluto dos valores e o caráter divino do cristianismo (cf. Pietro Rossi, Lo storicismo tedesco contemporâneo, 1956, parte VI).

Por outro lado, não é indispensável que o conceito da história como ordem providencial se baseie na crença de uma providência de natureza divina, imanente ou transcendente. "Ordem providencial" significa "ordem necessária e perfeita": e uma ordem semelhante também é atribuída à história por doutrinas que negam o conceito religioso de providência, como o positivismo social e o marxismo. Comte considerava a história como o desenvolvimento progressivo da Humanidade ou Grande Ser, que é "o conjunto dos seres passados, futuros e presentes que concorrem livremente para aperfeiçoar a ordem universal" (Politique positive, 1854. IV, p. 30), e reconhecia que De Maistre tivera o mérito de contribuir para preparar a verdadeira teoria do progresso com a sua revalorização da Idade Média, já que só depois dessa revalorização a continuidade da tradição providencial foi restabelecida (Ibid., I, p. 64). Por outro lado, o marxismo considera a história como um processo unilinear e progressivo que, por meio da luta de classes, necessariamente desembocará na sociedade sem classes, que é a sociedade perfeita. Marx diz, a propósito, que a passagem para a nova sociedade ocorrerá "com a mesma fatalidade que preside aos fenômenos da natureza" (Das Kapital, I, 24, § 7). Mas fatalidade significa necessidade e trata-se de uma necessidade providencial porque dela advirá o modo de vida definitivo e perfeito do gênero humano.

4) As interpretações filosóficas da história gravitam quase todas em torno da noção da história como totalidade ou mundo histórico. Na verdade, só essa noção permite falar da história como objeto único e simples, avaliável em seu conjunto uma vez por todas. A noção de mundo histórico, como todas as noções totalitárias e a própria noção de mundo , está além das capacidades efetivas de investigação e compreensão de que o homem dispõe. A história como objeto da historiografia nunca é um mundo nesse sentido, isto é, a totalidade absoluta dos acontecimentos humanos. Por vezes, um período histórico ou um conjunto de instituições é chamado de mundo (p. ex., "mundo antigo", "mundo oriental", etc.) apenas no sentido de totalidade relativamente homogênea de culturas, e não em sentido absoluto. A própria expressão "mundo histórico", se tiver o significado de "objeto geral das disciplinas historio-gráficas", não designa uma totalidade absoluta, mas o campo relativamente homogêneo no qual atuam e se encontram as técnicas das disciplinas historiográficas. Por isso, quando se entender por "realidade histórica" simplesmente o objeto do conhecimento histórico, estar-se-á renunciando ipso facto ao conceito de mundo histórico como totalidade absoluta e a qualquer juízo sobre essa totalidade. Estar-se-á renunciando, também, a considerar todos os fatos como fatos históricos, visto que a afirmação de que todos os fatos são históricos (presente, p. ex., em Croce, La storia comepensiero e come azione, 1938, p. 19) é apenas outro modo de expressar a noção de história como totalidade absoluta. Por outro lado, se a história não é o mundo histórico, não existe a história. Toda história, desse ponto de vista, é a história de alguma coisa (um período, uma instituição, uma personalidade), mas não é um processo ou uma substância única ou universal que compreenda tudo dentro de si (cf. J. história Randal Jr., Nature and Historical Experience, 1958, p. 28). Desse ponto de vista, as expressões "objeto histórico" ou "realidade histórica" são apenas nomes comuns para indicar qualquer tema de investigação historiográfica. A metodologia historio-gráfica contemporânea, que historiadores e filósofos (em acordo fundamental) fizeram avançar notavelmente nestes últimos tempos, permite atribuir no objeto histórico os seguintes caracteres:

1) A individualidade ou unicidade, em virtude da qual o fato histórico se apresenta como algo único e não repetível. O reconhecimento explícito deste caráter deve-se ao historicismo alemão. Já afirmado por Dilthey (Gesammelte Schriften, V, p. 236), foi ressaltado por Windelband (Präludien, IP, p. 145) e por Rickert (Die Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung, 1896-1902, pp. 251,420, etc.) como consequência da distinção entre o procedimento generalizador das ciências da natureza e o procedimento individualizador das ciências do espírito. Este caráter da história às vezes suscitou desconfiança nos metodizadores porque pareceu um caráter "metafísico" (cf., p. ex., C. G. Hempel, em Readings in Philosophical Analysis, ed. Feigl e Sellars, 1949, p. 461; Gardiner, The Nature of Historical Explanation, 1952, p. 43). Por outro lado, ninguém nega que um acontecimento histórico seja único no sentido de estar individualizado pelos dois parâmetros fundamentais, a cronologia e a geografia (cf. o mesmo Gardiner, loc. cit), e além disso muitos reconhecem unicidade no acontecimento histórico, no sentido "de ser diferente dos outros, com os quais seria naturalmente agrupado sob um termo classificador, sendo também diferente quanto aos modos pelos quais desperta o interesse dos historiadores que procuram explicá-lo" (W. Dray, Laws and Explanation in History, 1956, p. 46). O caráter de unicidade do acontecimento provém das próprias técnicas historio-gráficas que servem para verificá-lo e ilustrá-lo, sendo reflexo dessas técnicas. O acontecimento histórico só se mostra único e não repetível quando sua abordagem historiográfica é conduzida a bom termo, de tal modo que o ditado "a história não se repete" exprime mais o ideal historiográfico (aliás, difícil de ser alcançado) do que um suposto caráter do processo histórico.

2) A correlação do fato com os outros fatos, graças à qual o fato é "explicado" ou "compreendido". Também quanto a este segundo caráter, a metodologia histórica contemporânea chegou a um ponto de concordância satisfatória. Ainda que não falte quem queira interpretar a conexão entre os fatos históricos como conexão causal (cf., p. ex., Hempel, loc. cit., p. 462 ss.) no intuito de mostrar que tanto a história quanto as ciências naturais fazem uso de um único tipo de explicação, hoje já está bem claro que os historiadores rejeitaram a explicação causal tanto quanto os estudiosos da Física (cf., sobre este ponto, historiografia, e também causalidade; condição; explicação). Com a recusa do esquema causal elimina-se também da história a noção de lei que está ligada a ele, já que uma lei só faz expressar uma sucessão causal de fatos. E com a eliminação do conceito de lei também se eliminou o conceito de necessidade az história. Nesse aspecto, é preciso lembrar que Kierkegaard foi o primeiro a reconhecer na história a categoria da possibilidade: "O passado não é necessário ao momento em que vem a ser; não veio a ser necessário vindo a ser (o que seria uma contradição); e vem a sê-lo ainda menos por meio da compreensão que se tem dele (...) Se o passado viesse a ser necessário por meio da compreensão, ganharia aquilo que a compreensão perderia, pois então esta última compreenderia uma coisa diferente e seria uma incompreensão" (Philosophische Brocken, 1844, IV, § 4).

3) O significado ou a importância que o acontecimento possui como opção historiográfica. Também este caráter é quase universalmente reconhecido na metodologia contemporânea. Pode ser considerado consequência do caráter precedente, visto que a importância de um acontecimento consiste na capacidade por ele demonstrada de condicionar de um modo qualquer os outros acontecimentos, isto é, de produzir, no seu decorrer, variações que podem ser atribuídas ao acontecimento em questão. Fica suficientemente claro, porém, que o significado de um acontecimento (no sentido agora esclarecido) não é uma qualidade que lhe seja inerente de modo absoluto e que o acompanhe em qualquer contexto historiográfico, mas pode variar segundo os contextos ou as escolhas que os regem: de tal modo que um acontecimento importante em um deles terá menos ou nenhuma importância em outro.

O primeiro dos caracteres acima arrolados, a individualidade, pode ser utilizado para distinguir o objeto historiográfico do objeto sociológico ou, em geral, do objeto das ciências sociais, que possui o caráter oposto de repetibilidade (cf. Abbagnano, Problemi di sociologia, 1959, II, 5). E o conjunto dos três caracteres serve para distinguir o fato histórico do fato jornalístico comum, que não é individualizado, não tem conexões suficientes com outros fatos e não é significativo. [Abbagnano]

Submitted on 25.06.2010 16:30
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