
(in. Communication; fr. Communication; al. Kommunikation; it. Comunicazioné). Filósofos e sociólogos utilizam hoje esse termo para designar o caráter específico das relações humanas que são ou podem ser relações de participação recíproca ou de compreensão. Portanto, esse termo vem a ser sinônimo de "coexistência" ou de "vida com os outros" e indica o conjunto dos modos específicos que a coexistência humana pode assumir, contanto que se trate de modos "humanos", isto é, nos quais reste certa possibilidade de participação e de compreensão. Nesse sentido, a comunicação nada tem em comum com a coordenação e com a unidade. As peças de uma máquina, observou Dewey, estão estreitamente coordenadas e formam uma unidade, mas não formam uma comunidade. Os homens formam uma comunidade porque se comunicam, isto é, porque podem participar reciprocamente dos seus modos de ser, que assim adquirem novos e imprevisíveis significados. Essa participação diz que uma relaçãp de comunicação não é um simples contato físico ou um embate de forças. A relação entre o predador e sua presa, p. ex., não é uma relação de comunicação, ainda que às vezes isso possa ocorrer entre os homens. A comunicação enquanto característica específica das relações humanas delimita a esfera dessas relações àquelas em que pode estar presente certo grau de livre participação. O destaque do conceito de comunicação na filosofia contemporânea deve-se: 1) ao abandono da noção de Autoconsciência infinita, Espírito Absoluto ou Superalma: noção que, implicando a identidade de todos os homens, torna, obviamente, inútil o próprio conceito de comunicação inter-humana; 2) ao reconhecimento de que as relações inter-humanas implicam a alteridade entre os homens e são relações possíveis; 3) ao reconhecimento de que tais relações não se acrescentam, num segundo momento, à realidade já constituída das pessoas, mas entram a constituí-la como tal. Nesses termos, o conceito de comunicação faz parte de filosofias díspares. Segundo Heidegger, o conceito de comunicação deve ser entendido "em sentido ontologicamente lato", isto é, como "comunicação existencial". "Nessa última constitui-se a articulação do ser-com que compreende. Ela realiza a partilha da situação emotiva comum e da compreensão do ser-com. comunicação não é a transferência de experiências vividas (não importa quais, p. ex., opiniões e desejos) do interior de um sujeito para o interior de outro sujeito. A co-presença está já essencialmente revelada na situação emotiva comum e na compreensão comum" (Sein und Zeit, § 34). Em outros termos, para Heidegger, comunicação é já coexistência porque a co-participação emotiva e a compreensão dos homens entre si fazem parte da própria realidade do homem, o ser do ser-aí. Jaspers, que está substancialmente de acordo com Heidegger, a partir daí passa a opor-se às ciências empíricas (psicologia, antropologia, sociologia) que pretendem analisar as relações de comunicação. Segundo Jaspers, o defeito delas é que devem limitar-se à consideração das relações humanas e não das possíveis, ao passo que a comunicação é, precisamente, possibilidade de relações. Nesse sentido, só pode ser esclarecida pela filosofia (Phil, II, cap. III). Dewey, ao contrário, que compartilha com Heidegger e Jaspers o ponto de vista de que a comunicação constitui essencialmente a realidade humana, considera-a como uma forma especial de ação recíproca da natureza e acredita, portanto, que pode e deve ser estudada pela pesquisa empírica (Experience and Nature, cap. V). Se na filosofia oitocentista, com o predomínio das concepções absolutistas (o próprio positivismo falava da Humanidade como de um todo), eliminava-se a noção de comunicação, na filosofia dos sécs. XVII e XVIII essa noção fora elaborada, mas para responder a um problema diferente: o da "comunicação das substâncias", isto é, da substância alma com a substância corpo, e reciprocamente, problema este nascido com o cartesianismo, que distinguira pela primeira vez, de modo nítido, as duas espécies de substância. O próprio Descartes admitira como válida a noção corrente de ação recíproca entre as duas substâncias, que, na sua opinião, tocavam-se na glândula pineal (Pass. de Vâme, I, 32). Por outro lado, os ocasionalistas consideraram impossível a ação de uma substância finita sobre a outra, porque nenhuma substância finita pode agir, isto é, ser causa; e assim julgaram que Deus mesmo intervém para estabelecer a relação entre a alma e o corpo, entre os vários corpos ou entre as várias almas, aproveitando a ocasião que se oferece com a mudança ocorrida numa substância para produzir mudanças nas outras substâncias. Era essa a teoria das causas ocasionais, sustentada, entre outros, por Malebranche (Recherche de la vérité, III, II, 3). Leibniz considerou a primeira teoria impossível e a segunda, miraculosa; entendeu a comunicação como harmonia preestabelecida, estendendo-a até entender a relação entre todas as partes do universo, isto é, entre todas as mônadas que o compõem: a harmonia é preestabelecida por Deus de tal modo que a cada estado de uma mônada corresponde um estado das outras mônadas (Op., ed. Gerhardt, IV, pp. 500-501). Obviamente, a teoria de Leibniz não é a solução do problema da comunicação; tem, de resto, o objetivo de tornar inútil a própria comunicação, assegurando a relação preordenada das mônadas entre si. O próprio Leibniz nota que sua doutrina faz da alma uma espécie de máquina imaterial (Ibid., p. 548). Esse traço revela quanto essa doutrina está distante da noção contemporânea de comunicação, que, como dissemos, nunca é automática e não pode subsistir entre os autômatos ou entre as peças de um autômato. [Abbagnano]