
(gr. bebaiotes; lat. certitudo; in. Certitude, Certainty; fr. Certitude; al. Gewissheit; it. Certezzà). Essa palavra tem dois significados fundamentais: 1) segurança subjetiva da verdade de um conhecimento; 2) garantia que um conhecimento oferece da sua verdade. Esses dois significados ainda se mantêm e para eles o inglês tem duas palavras diferentes: certitude, que se refere ao primeiro, e certainty, ao segundo. Os dois significados nem sempre constituem alternativas excludentes, mas frequentemente são complementares. Todavia, no pensamento clássico prevalece o segundo significado, o objetivo, e a garantia a que se faz alusão é a solidez ou a estabilidade do conhecimento verdadeiro. Segundo esse conceito, que Platão expressou do modo mais claro, a estabilidade do conhecimento depende da estabilidade do seu objeto, de sorte que só podem ser estavelmente conhecidas (isto é, com certeza) as coisas estáveis, ao passo que as coisas instáveis, isto é, mutáveis, só podem ser objeto de conhecimento provável (Tim., 29 b-c; Fil, 59 b). Nesse sentido, a certeza é apenas um atributo da verdade: é o caráter estável, ou seja, não sujeito a desmentidos, da própria verdade. No mesmo sentido a certeza foi entendida por Aristóteles (Mel, IV, 1008 a 16; 1011 b 13; etc.) e por Sexto Empírico: este último associa a certeza à verdade e à ciência (Pirr. hyp., I, 191; II. 214; Adv. math., VII, 151, etc). A noção subjetiva da certeza e os problemas a ela inerentes nasceram com a importância atribuída pelo Cristianismo à fé, quando foi reconhecida a possibilidade da segurança subjetiva do saber, não garantida por um critério objetivo de verdade. Mas, obviamente, o reconhecimento dessa possibilidade não levava a negar, mas a reconhecer a outra possibilidade, de garantia objetiva. Por isso, os dois conceitos de certeza são sempre esclarecidos juntos e de modo complementar, na tradição filosófica. Tomás de Aquino distingue dois modos de considerar a certeza. O primeiro consiste em considerar a causa dela e, sob esse aspecto, a fé é mais certa do que a sabedoria, do que a ciência e do que o intelecto, porque se fundamenta na verdade divina, ao passo que essas três coisas se baseiam na razão humana. No segundo modo, a certeza pode ser considerada sob o aspecto do objeto (subiectum) e, assim sendo, é mais certo o objeto que mais se adapta ao intelecto humano e é menos certa a fé (S. Th., II, 2, q. 4, a. 8). Obviamente, a certeza considerada na sua causa é a certeza subjetiva, isto é, a segurança subjetiva da verdade da crença, enquanto a certeza considerada no seu objeto é a certeza objetiva; e, de fato, Tomás de Aquino atribui a primeira certeza à ação da vontade, não à da razão ilbid, II, 2, q. 2, a. 1, ad 3S). Com Descartes, a filosofia moderna identificou verdade com certeza: a primeira regra cartesiana, "só aceitar por verdadeiro o que se reconhece evidentemente como tal", estabelece essa identidade, cujo ato ou manifestação é o próprio cogito, na medida em que faz da certeza que o eu tem da própria existência o próprio princípio da verdade. Essa identidade também é evidente em Locke, que faz a distinção entre a "certeza da verdade", que existe quando as palavras são unidas de tal modo que representem exatamente a concordância ou a discordância das ideias que exprimem, e a "certeza do conhecimento", que consiste em procurar essa concordância ou discordância na proposição que a exprime (Ensaio, IV, 6, 3 ) Aqui, como elemento da verdade, inclui-se a relação com a expressão linguística, mas a certeza é identificada com a verdade. "Chamamos de conhecer", diz Locke "o estar certo da verdade de uma proposição" (ibid., IV, 6, 3). Esses reparos foram aceitos por Leibniz (Nouv. ess., IV, 3), que, no entanto, ainda distinguia da "certeza absoluta", que provavelmente compreende as duas espécies de certeza reconhecidas por Locke, a certeza moral, à qual se pode chegar pelas provas da verdade da religião (Théod., Discours, § 5). Contra a identidade entre verdadeiro e certo, estabelecida por Descartes (que Spinoza ratificava com o seu teorema "quem tem uma ideia verdadeira sabe pelo mesmo de tê-la" (Et., II, 43), e analogamente à distinção feita por Leibniz entre certeza absoluta e certeza moral, ergue-se a doutrina de Vico, que faz a distinção entre o verdadeiro, identificado com o fato (porquanto se pode conhecer de verdade só o que se faz e cuja causa, portanto, se conhece), e o certo, fundado na tradição e na autoridade e que, não sendo susceptível de demonstração necessária, está no nível do provável. "Os homens que não sabem a verdade das coisas esforçam-se por ater-se ao certo, porque, se não podem satisfazer o intelecto com a ciência, pelo menos que a vontade repouse na consciência." (Scienza nuova, 1744, dign. 9). Segundo Vico, a filosofia não pode fundar-se, como pretendem os cartesianos, tão-somente no verdadeiro, mas também deve utilizar o certo, que é constituído pelo conjunto dos conhecimentos fornecidos por aqueles que Vico chama de "filólogos", isto é, historiadores, críticos e gramáticos que se ocuparam dos costumes, das leis e das línguas dos povos (Ibid., dig. 10). Mas, em geral, a identificação entre certeza e verdade firmou-se na filosofia moderna. Kant chamou de certeza a crença objetivamente suficiente, isto é, suficientemente garantida como verdadeira (Crít. R. Pura, Canôn da razão pura, seç. 3). Distinguiu, além disso, a certeza empírica, que pode ser originária, isto é, vinculada à própria experiência histórica, ou derivada de uma experiência alheia; e a certeza racional, que se distingue da empírica pela "consciência da necessidade" e, portanto, pode ser chamada de apodítica (Logik, Intr., § IX) . O próprio Hegel aceitou a identificação de certeza e conhecimento e ilustrou os dois aspectos, subjetivo e objetivo, da certeza sensível da seguinte maneira: "Na certeza sensível, um momento é posto como aquilo que, simples e imediatamente, é, assim como a essência: esse é o objeto. O outro momento é posto como o inessencial e mediato, que não é em si, mas mediante outra coisa: esse é o eu, um saber que sabe o objeto só porque o objeto é um saber que pode ser ou também não ser" (Phänomen. des Geistes, I, A, I). Analogamente, os dois significados foram distinguidos e aceitos por Husserl, que considerou o fenômeno da certeza como originário, vinculado à própria atitude da crença, e por isso chamou-o Urdoxa ou Urglaube (Ideen, I, § 104). A exemplo de Leibniz, falou-se também em "certeza moral" (Olle-Laprune, La certitude morale, 1880), para indicar uma certeza não garantida por um critério objetivo ou racional, como é a certeza da fé: mas a identificação estabelecida pela filosofia cartesiana entre certeza e verdade não foi mais abandonada. Heidegger reafirmou-a dizendo: "A certeza se funda na verdade, ou seja, pertencendo-lhe cooriginariamente". E distinguiu os dois significados que correspondem ao significado e ao objetivo de certeza: "o estar certo como modo de ser do ser-aí" (isto é, do homem) e a certeza do "ente do qual ser-aí está certo", que é derivada da primeira (Sein und Zeit, § 52). [Abbagnano]