
(gr. episteme; lat. Scientia; in. Science; fr. Science; al. Wissenschaft; it. Scienza). Conhecimento que inclua, em qualquer forma ou medida, uma garantia da própria validade. A limitação expressa pelas palavras "em qualquer forma ou medida" é aqui incluída para tornar a definição aplicável à ciência moderna, que não tem pretensões de absoluto. Mas, segundo o conceito tradicional, a ciência inclui garantia absoluta de validade, sendo, portanto, como conhecimento, o grau máximo da certeza. O oposto da ciência é a opinião, caracterizada pela falta de garantia acerca de sua validade. As diferentes concepções de ciência podem ser distinguidas conforme a garantia de validade que se lhes atribui. Essa garantia pode consistir: 1) na demonstração; 2) na descrição; 3) na corrigibilidade. 1) A doutrina segundo a qual a ciência prove a garantia de sua validade demonstrando suas afirmações, isto é, interligando-as num sistema ou num organismo unitário no qual cada uma delas seja necessária e nenhuma possa ser retirada, anexada ou mudada, é o ideal clássico da ciência. Platão comparava a opinião às estátuas de Dédalo, que estão sempre em atitude de fuga: as opiniões "desertam da alma humana, de modo que não terão grande valor enquanto alguém não conseguir atá-las com um raciocínio causal". Mas, "uma vez atadas, tornam-se ciência e permanecem fixas. Eis por que a ciência", conclui Platão, "é mais válida do que a opinião legítima e difere desta pela seus nexos" (Men., 98 a). A doutrina da ciência de Aristóteles é muito mais rica e circunstanciada, mas obedece ao mesmo conceito. A ciência é "conhecimento demonstrativo". Por conhecimento demonstrativo entende-se o conhecimento "da causa de um objeto, isto é, conhece-se por que o objeto não pode ser diferente do que é" (An. pr., I, 2, 71 b 9 ss.). Em consequência, o objeto da ciência é o necessário; por isso a ciência se distingue da opinião e não coincide com ela; se coincidisse, "estaríamos convencidos de que um mesmo objeto pode comportar-se diferentemente de como se comporta e estaríamos, ao mesmo tempo, convencidos de que não pode comportar-se diferentemente" (An. post, I, 33, 89 a 38). Por isso, Aristóteles exclui que possa haver ciência do não necessário, ou seja da sensação (Ibid, 31, 87 b 27) e do acidental (Mel, VI, 2, 1027, 20), ao mesmo tempo em que identifica o conhecimento científico com o conhecimento da essência necessária ou substância (Ibid, VIII, 6, 1031 b 5). A mais perfeita realização desse ideal da ciência está em Elementos, de Euclides (séc. III a.C). Essa obra, que quis realizar a matemática como ciência perfeitamente dedutiva, sem nenhum recurso à experiência ou à indução, permaneceu por muitos séculos (e sob certos aspectos permanece até hoje) como o próprio modelo da ciência. Através de Elementos, de Euclides, a concepção da ciência de Platão e Aristóteles foi transmitida com mais eficácia do que através da descrição teórica de Aristóteles, da qual os antigos nunca se afastaram. Os estoicos repetiram-na, afirmando que "a ciência é a compreensão segura, certa e imutável fundada na razão" (Sexto Empírico, Adv. math., VII, 151), ou que ela "é uma compreensão segura ou um hábito imutável de acolher representações, com base na razão" (Dióg. L., VII, 47). Tomás de Aquino repetia as ideias de Aristóteles (S. Th., II, 1, q. 57, a. 2) e Duns Scot acentuava o caráter demonstrativo e necessário da ciência, excluindo dela qualquer conhecimento desprovido desses caracteres, portanto, todo o domínio da fé (Op. Ox., Prol., q. 1, m. 8). Mesmo a última escolástica, com Ockham, mantinha em pé o ideal aristotélico da ciência (In Sent, III, q. 8). O surgimento da ciência moderna não pôs em crise esse ideal. De um lado, o necessitarismo dos aristotélicos é compartilhado até por seus adversários; de outro, persiste a sugestão da matemática como ciência perfeita pela sua organização demonstrativa; e o próprio Galileu colocava as "demonstrações necessárias" ao lado da "experiência sensata" como fundamento da ciência (Opere, V, p. 316). O ideal geométrico da ciência também domina as filosofias de Descartes e Spinoza. Descartes queria organizar todo o saber humano pelo modelo da aritmética e da geometria: as únicas ciências que ele considerava "desprovidas de falsidade e de incerteza", porque fundadas inteiramente na dedução (Regulae ad directionem ingenii, II). E Spinoza chamava de ciência intuitiva a extensão do método geométrico a todo o universo, extensão pela qual, "da ideia adequada da essência formal de alguns atributos de Deus, procede-se ao conhecimento adequado da essência das coisas" (Et., II, 40, scol. 2e). Kant rotulava esse velho ideal com um novo termo, sistema. "A unidade sistemática", dizia ele, "é o que antes de tudo faz de um conhecimento comum uma ciência, isto é, de um simples agregado, um sistema"; e acrescentava que por sistema é preciso entender "a unidade de conhecimentos múltiplos reunidos sob uma única ideia" (Crít. R. Pura, Doutrina do método, cap. III; cf. Methaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft, Prefácio). Esse conceito da ciência como sistema, introduzido por Kant, tornou-se lugar comum da filosofia do séc. XIX e a ele ainda recorrem as filosofias de caráter teológico ou metafísico. Isso aconteceu sobretudo por ter sido adotado pelo Romantismo, que o repetiu à saciedade. Fichte dizia: "Uma ciência deve ser uma unidade, um todo... As proporções isoladas geralmente não são ciências, mas tornam-se ciência só no todo, graças a seu lugar no todo, à sua relação com o todo" (Ueber den Begriff der Wissenschaftslehre, 1794, § 1). Schelling repetia: "Admite-se, geralmente, que à filosofia convém uma forma peculiar dela, que se chama sistemática. Pressupor tal forma não deduzida compete a outras ciências que já pressupõem a ciência da ciência, mas não esta, que se propõe por objeto a possibilidade de semelhante ciência" (System des transzendentalen Idealismus, 1800, I, cap. I; trad. it., p. 27). E Hegel afirmava peremptoriamente: "A verdadeira forma na qual a verdade existe só pode ser o sistema científico dela. Colaborar para que a filosofia se aproxime da forma da ciência — isto é, da meta que, uma vez alcançada, permitir-lhe-á abandonar o nome de amor ao saber para ser verdadeiro saber — eis o que me propus" (Phänomen des Geistes, Prefácio, I, 1). Fichte, Schelling e Hegel consideravam que o único saber sistemático, portanto a única ciência, era a filosofia. Mas, para muitos filósofos do séc. XIX, o conceito de sistema continuou caracterizando a ciência em geral, portanto também a ciência da natureza. H. Cohen via no sistema a mais alta categoria da natureza e da ciência (Logik, 1902, p. 339). Husserl via o caráter essencial da ciência na "unidade sistemática" que nela encontram os conhecimentos isolados e os seus fundamentos (Logische Untersuchugen, 1900,1, p. 15); e indicava no sistema o próprio ideal da filosofia, se esta quisesse organizar-se como "ciência rigorosa" (Philosophie ais strenge Wissenschaft, 1910-11; trad. it., p. 5). O ideal de ciência como sistema continuou vivo ainda muito tempo depois que as ciências naturais dele se afastaram e começaram a polemizar contra "o espírito de sistema". Se hoje é possível considerar superado o ideal clássico de ciência como sistema acabado de verdades necessárias por evidência ou por demonstração, o mesmo não se pode dizer de todas as suas características. Que a ciência seja, ou tende a ser, um sistema, uma unidade, uma totalidade organizada, é pretensão que as outras concepções da própria ciência também têm. O que essa pretensão tem, em todos os casos, de válido é a exigência de que as proposições que constituem o corpo linguístico de uma ciência sejam compatíveis entre si, isto é, não contraditórias. Essa exigência, sem dúvida, é muito menos rigorosa do que aquela para a qual tais proposições deveriam constituir uma unidade ou um sistema; aliás, a rigor, é uma exigência totalmente diferente, pois a não-contradição não implica, em absoluto, a unidade sistemática. Todavia, na linguagem científica ou filosófica corrente, muitas vezes a exigência sistemática é reduzida à de compatibilidade. 2) A concepção descritiva da ciência começou a formar-se com Bacon, Newton e os filósofos iluministas. Seu fundamento é a distinção baconiana entre antecipação e interpretação da natureza: a interpretação consiste em "conduzir os homens diante dos fatos particulares e das suas ordens" (Nov. Org., I, 26, 36). Newton estabelecia o conceito descritivo da ciência, contrapondo o método da análise ao método da síntese. Este último consiste "em assumir que as causas foram descobertas, em pô-las como princípios e em explicar os fenômenos partindo de tais princípios e considerando como prova essa explicação". A análise, ao contrário, consiste "em fazer experimentos e observações, em deles tirar conclusões gerais por meio da indução e em não admitir, contra as conclusões, objeções que não derivem dos experimentos ou de outras verdades seguras" (Opticks, III, 1, q. 31) A filosofia do iluminis-mo exaltou e difundiu o ideal científico de Newton. "Esse grande gênio", dizia D’Alembert, "viu que era tempo de banir da física as conjecturas e as hipóteses vagas, ou pelo menos de tê-las apenas pelo que valem e de submeter essa ciência somente às experiências e à geometria" (Discours préliminaire de l’Encyclopédie, em OEuvres, ed. Condorcet, p. 143). Ao mesmo tempo, D’Alembert declarava já ser inútil para a ciência e para a filosofia o espírito de sistema. "As ciências todas, fechadas, o máximo possível, nos fatos e nas consequências que delas podem ser deduzidos, não fazem concessões à opinião, a não ser quando a isso são obrigadas". A ciência reduz-se, assim, à observação dos fatos e às inferências ou aos cálculos fundados nos fatos. O positivismo oitocentista não fazia mais do que recorrer ao mesmo conceito de ciência. Dizia Comte: "O caráter fundamental da filosofia positiva é considerar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços, ao mesmo tempo em que julgamos absolutamente inacessível e sem sentido a busca daquilo que se chama de causas, tanto primeiras como finais" (Cours de phil. positive, I, § 4; vol. I, pp. 26-27). Mas o positivismo também insistiu no caráter da ciência que Bacon já evidenciara: o caráter ativo ou operacional, graças ao qual ela permite que o homem aja sobre a natureza, e a domine através da previsão dos fatos, possibilitada por leis (Ibid., II, § 2; p. 100). O ideal descritivo da ciência não implica, portanto, que a ciência consiste no espelhamento ou na reprodução fotográfica dos fatos. De um lado, o caráter antecipado do conhecimento científico, graças ao qual ela se concretiza em previsões baseadas em relações verificadas entre os fatos, elimina o seu caráter fotográfico: realmente, não se pode fotografar o futuro. Por outro lado, a mesma ciência positivista evidenciou a orientação ativa da descrição científica. As considerações de Claude Bernard a respeito são muito importantes: "A simples constatação dos fatos", diz ele, "nunca chegará a constituir uma ciência. Podem-se multiplicar fatos e observações, mas isso não levará à compreensão de nada. Para aprender, é preciso, necessariamente, raciocinar sobre o que se observou, comparar os fatos e julgá-los com outros fatos que servem de controle" (Intr. à l’étude de la médecine expérimentale, 1865, I, 1, § 4). Desse ponto de vista, uma ciência de observação será uma ciência que raciocina sobre os fatos da observação natural, isto é, sobre os fatos pura e simplesmente constatados, ao passo que uma ciência experimental ou de experimento raciocinará sobre os fatos obtidos nas condições que o experimentador criou e determinou (Ibid., 1865, I, 1, § 4). A doutrina de Mach sobre a ciência não poderia ser chamada de descritiva, se por descrição se entender a reprodução fotográfica dos objetos, mas pode ser chamada de descritiva no sentido já esclarecido. Diz Mach: "Se excluirmos aquilo que não tem sentido pesquisar, veremos aparecer mais nitidamente o que podemos realmente atingir por meio de cada ciência: todas as relações e os diferentes modos de relação entre os elementos" (Erkenntniss und Irrtum, cap. I; trad. fr., p. 25). A inovação de Mach consiste no seu conceito dos elementos, já que para ele estes são comuns tanto às coisas como à consciência, diferindo na consciência e na coisa só na medida em que pertençam a conjuntos diferentes (Ibid., cap. I; trad. fr., p. 25; cf. Die Analyse der Empfindungen, 9a ed., 1922, p. 14). A função econômica que Mach atribuiu à ciência, ou, mais precisamente, aos conceitos científicos, não suprime portanto o caráter descritivo da ciência, reconhecível na tese de que a ciência tem por objeto as relações entre os elementos. Justamente por considerar as relações entre os fatos, a ciência é uma descrição abreviadora e econômica dos próprios fatos (Die Mechanik, trad. in., 1902, pp. 481 ss.). Do mesmo modo, Bergson reconhece o caráter convencional e econômico da ciência pelo fato de que ela, que tem como órgão a inteligência, não se detém nas coisas, mas nas relações entre as coisas ou situações (Évol. créatr., 8a ed., 1911, pp. 161, 356). O ideal descritivo da ciência reaparece também em escritores recentes. Dewey afirma: "Como na ciência os significados são determinados com base em sua relação recíproca como significados, as relações tornam-se os objetos da indagação e diminui bastante a importância das qualidades, que só têm função na medida em que ajudem a estabelecer relações" (Logik, VI, § 6; trad. it., p. 171). Ora, "relações" nada mais são do que o outro nome de leis, já que a lei nada mais é do que a expressão de uma relação: de modo que o mesmo conceito da ciência pode ser encontrado em todos os escritores que reconhecem na formulação da lei a tarefa da ciência. H. Dingler dizia: "A principal tarefa da ciência consiste em chegar ao maior número possível de leis" (Die Methode der Physik, 1937, I, § 9). E, mais recentemente, R. B. Braithwaite afirmou: "O conceito fundamental da ciência é o da lei científica e o objetivo fundamental de uma ciência é estabelecer leis. Para compreender o modo como uma ciência opera e o modo como qual ela fornece explicações dos fatos que investiga, é necessário compreender a natureza das leis científicas e o modo de estabelecê-las" (Scientific Explanation, Cambridge, 1953, p. 2). 3) Uma terceira concepção é a que reconhece, como garantia única da validade da ciência, a sua autocorrigibilidade. Trata-se de uma concepção das vanguardas mais críticas ou menos dogmáticas da metodologia contemporânea e ainda não alcançou o desenvolvimento das outras duas concepções acima; apesar disso, é significativa, seja por partir da desistência de qualquer pretensão à garantia absoluta, seja por abrir novas perspectivas ao estudo analítico dos instrumentos de pesquisa de que as ciências dispõem. O pressuposto dessa concepção é o falibilismo, que Peirce atribuía a qualquer conhecimento humano (Coll. Pap., I, 13, 141-52). Mas essa tese foi expressa pela primeira vez por Morris R. Cohen: "Podemos definir a ciência como um Sistema autocorretivo. A ciência convida à dúvida. Pode desenvolver-se ou progredir não só porque é fragmentária, mas também porque nenhuma proposição sua é, em si mesma, absolutamente certa, e assim o processo de correção pode atuar quando encontramos provas mais adequadas. Mas é preciso notar que a dúvida e a correção são compatíveis com os cânones do método científico, de tal modo que a correção é o seu elo de continuidade" (Studies in Philosophy and Science, 1949, p. 50). M. Black, mais recentemente, adotou ponto de vista análogo: "Os princípios do método científico devem, por sua vez, ser considerados provisórios e sujeitos a correções ulteriores, de tal modo que uma definição de ‘método científico’ seria verificável em qualquer sentido do termo" (Problems of Analysis, 1954; p. 23). Em termos aparentemente paradoxais, mas equivalentes, K. Popper afirmara, em Lógica da descoberta científica (1935), que o instrumental da ciência não está voltado para a verificação, mas para a falsificação das proposições científicas. "Nosso método de pesquisa", dizia ele, "não visa defender as nossas antecipações para provar que temos razão, mas, ao contrário, visa destruí-las. Usando todas as armas do nosso arsenal lógico, matemático e técnico, tentamos provar que nossas antecipações são falsas, para apresentar, no lugar delas, novas antecipações não justificadas e injustificáveis, novos ‘preconceitos apressados e prematuros’ como escarnecia Bacon" (The Logic of Scientific Discovery, 2a ed., 1958, § 85, p. 279). Com isso, Popper pretendeu assinalar o abandono do ideal clássico da ciência: "O velho ideal científico da episteme, do conhecimento absolutamente certo e demonstrável, revelou-se um mito. A exigência de objetividade científica torna inevitável que qualquer asserção científica seja sempre provisória". O homem não pode conhecer, mas só conjecturar (Ibid, pp. 278, 280). Afirmar que os instrumentos de que a ciência dispõe se destinam a demonstrar a falsidade da ciência é um outro modo de exprimir o conceito da autocorrigibilidade da ciência: provar a falsidade de uma asserção significa, de fato, substituí-la por outra asserção, cuja falsidade ainda não foi provada, corrigindo portanto a primeira. A noção da autocorrigibilidade sem dúvida constitui a garantia menos dogmática que a ciência pode exigir da sua própria validade. Permite uma análise menos preconceituosa dos instrumentos de verificação e controle de que cada ciência dispõe. [Abbagnano]