
(gr. axia; lat. aestimabile; in. Value; fr. Valeur; al. Wert; it. Valore). Em geral, o que deve ser objeto de preferência ou de escolha. Desde a Antiguidade essa palavra foi usada para indicar a utilidade ou o preço dos bens materiais e a dignidade ou o mérito das pessoas. Contudo, esse uso não tem significado filosófico porque não deu origem a problemas filosóficos. O uso filosófico do termo só começa quando seu significado é generalizado para indicar qualquer objeto de preferência ou de escolha, o que acontece pela primeira vez com os estoicos, que introduziram o termo no domínio da ética e chamaram de valor os objetos de escolha moral. Isso porque eles entendiam o bem em sentido subjetivo (v. Bem, 2), podendo assim considerar os bens e suas relações hierárquicas como objetos de preferência ou de escolha. Por valor, em geral, entenderam "qualquer contribuição para uma vida segundo a razão" (Diógenes Laércio, VII, 105), ou, como diz Cícero, "o que está em conformidade com a natureza ou é digno de escolha (selectione dignurri): (De finibus, III, 6, 20). Por "estar em conformidade com a natureza", entendiam o que deve ser escolhido em todos os casos, ou seja, a virtude; como "digno de escolha", entendiam os bens a que se deve dar preferência, como talento, arte, progresso, entre as coisas do espírito; saúde, força, beleza entre as do corpo; riqueza, fama, nobreza, entre as coisas externas (Dióg. L, VII, 105-06). A divisão entre valor obrigatórios e valor preferenciais será mais tarde expressa como divisão entre valor intrínsecos ou finais e valores extrínsecos ou instrumentais. A retomada dessa noção no mundo moderno só ocorre com a retomada da noção subjetiva de bem: isso acontece com Hobbes: "O valor de um homem, como o de todas as outras coisas, é seu preço, o que poderia ser pago pelo uso de suas faculdades: portanto, não é absoluto, mas depende da necessidade e do juízo de outro. O preço de um hábil comandante militar é alto em tempo de guerra, presente ou iminente, mas não em tempos de paz" (Leviath., I, § 10). Todavia, a noção de valor só suplantou a de bem nas discussões morais do séc. XIX, e mesmo nessa época isso aconteceu porque foi estendido o significado do termo que fundamentava então as ciências econômicas (v. economia política). Kant identificara o bem com o valor em geral: "Cada um chama de bem aquilo que aprecia e aprova, isto é, aquilo em que há um valor objetivo"; e acrescentava que nesse sentido o bem é bem para todos os seres racionais (Crít. do Juízo, § 5). No entanto, limitava-se a designar com a palavra valor o bem objetivo, excluindo o agradável e o belo. A extensão do termo para indicar não só o bem, mas também o verdadeiro e o belo, se deve aos Kantianos, principalmente à corrente psicologista do Kantismo. Polemizando contra o próprio Kant, Beneke afirmava que a moralidade não pode determinar uma lei universal da conduta, mas pode e deve determinar a ordem dos valores que devem ser preferidos nas escolhas individuais; os próprios valores são determinados pelo sentimento (Grundlinien der Sittenlehre, 1837, I, pp. 231 ss; Grundlinien des Naturrechtes, 1838, I, pp. 41 ss.). Essa orientação da ética para os valores, em filósofos que se inspiravam em Kant, sem dúvida é devida à tendência psicologizante, que tem como corolário a noção subjetivista do bem. Mas foi principalmente Windelband quem falou, nos ensaios depois reunidos em Prelúdios (1884), de um "valor de verdade" e de um "valor de beleza", além de um "valor de bem". Para a difusão desse conceito e do termo valor, Nietzsche contribuiu muito com suas obras fundamentais Jenseits von Gut und Böse(1886) e Zur Genealogie der Moral (1887). Foi mais ou menos a partir dessa época que o conceito de valor passa a ser fundamental em filosofia, e as discussões em torno dele esgotam quase totalmente o campo dos problemas morais. É também a partir da mesma época que tende a reproduzir-se, no campo da teoria dos valores, uma divisão análoga à que caracterizara a teoria do bem: entre um conceito metafísico ou absolutista e um conceito empirista ou subjetivista do valor O primeiro atribui ao valor um status metafísico, que independe completamente das suas relações com o homem. O segundo considera o modo de ser do valor em estreita relação com o homem ou com as atividades humanas. A primeira concepção é motivada pela intenção de subtrair o valor, ou melhor, determinados valores e modos de vida neles fundados, à dúvida, à crítica e à negação: essa intenção parece pueril, se pensarmos que o v. mais solidamente ancorado na consciência dos homens e que mais paixões provoca também é o v. mais mutável e relativo, a tal ponto que às vezes os filósofos se recusam pudicamente a considerá-lo autêntico: o valor-dinheiro. 1) A primeira concepção deve, por um lado, insistir na ligação do valor com o homem e por outro na independência do valor A primeira determinação é, de fato, constitutiva do valor e marca a característica que o distingue do bem, como é tradicionalmente entendido. A segunda determinação visa a conferir caráter absoluto ao valor O conceito Kantiano do a priori parecia conter ambas as determinações; por isso, com Windelband e Rickent o conceito de valor foi elaborado em relação com o de a priori. Para Windelband, o valor é o dever-ser de uma norma que também pode não se realizar de fato, mas que é a única capaz de conferir verdade, bondade e beleza às coisas julgáveis (Praludien, 4.a ed., 1911, II, pp. 69 ss.). Nesse sentido, os valores não são coisas ou supra-coisas, não têm realidade ou ser, mas seu modo de ser é o dever-ser(solleri). Rickert repete esse ponto de vista e reitera que o ser dos valores não consiste na sua realidade, mas em seu dever-ser. Contudo, em Rickert os valores se transformam em realidades transcendentes. Rickert distingue seis domínios do valor: lógica, estética, mística (que é o domínio da santidade impessoal), ética, erótica (que é o domínio da felicidade) e filosofia religiosa. A cada um desses domínios corresponde um bem (ciência, arte, uno-todo, comunidade livre, comunidade de amor, mundo divino); uma relação com o sujeito (juízo, intuição, adoração, ação autônoma, unificação, devoção); e determinada intuição do mundo (intelectualismo, esteticismo, misticismo, moralismo, eudemonismo, teísmo ou politeísmo) (System der Philosophie, 1921). A mediação entre a realidade e os valores é esclarecida por Rickert com o conceito de sentido (Sinrí): sentido é a referência da realidade, ou de parte dela, ao mundo dos valores, por meio da qual os valores ingressam na história e são realizados pelo homem (System der Philosophie, I, pp. 319 ss.). Teorias dos valores muito semelhantes a esta foram elaboradas pelo teuto-americano Ugo Munsterberg em Philosophie der Werte, de 1908, pelo americano W. M. Urban (Valuations; its Nature and Laws, 1919; The Intellegible World, 1920), pelo italiano Guido della Valle (Teoria generale e formale dei valor, 1916) e por numerosos outros escritores. Todas essas teorias omitem o problema que está por trás de sua formulação ou lhe dão soluções ilusórias. Por um lado, reconhecem que o valor está de algum modo presente no homem, nas atividades humanas ou no mundo humano cuja norma ou dever-ser constitui; por outro, exigem que ele seja independente do reconhecimento ou dos feitos humanos e que possua um status indiferente em relação ao mundo humano. Nessas teorias, tende-se a atribuir aos valores as características do ser perfeito: unidade, universalidade e eternidade, em contraposição à multiplicidade, à particularidade e à mutabilidade das manifestações empíricas cuja regra eles deveriam constituir. Por outro lado, como regras dessas manifestações, os valores devem ter com elas uma relação essencial, sem a qual não poderiam servir nem para julgá-las nem para dirigi-las. O conceito Kantiano do a priori transcendental não se revelara eficaz como modelo para uma solução desse problema. Procurou-se outro tipo de solução, atribuindo-se a intuição do valor a uma experiência sui generis, de natureza sentimental. Segundo Scheler, o sentimento é "uma forma de experiência cujos objetos são completamente inacessíveis ao intelecto, que é cego para eles assim como a orelha e o ouvido são insensíveis às cores"; essa forma de experiência nos apresenta autênticos objetos dispostos numa ordem hierárquica eterna, que são os valores (Der Formalismus in der Ethik, 3a ed., 1927, p. 262). Em outros termos, o valor é o objeto intencional do sentimento, assim como a realidade é o objeto intencional do conhecimento; e esse objeto é apreendido em sua relação hierárquica com os outros objetos da mesma espécie. A intuição sentimental do valor é também um ato de escolha preferencial que segue a hierarquia objetiva dos valores, constituída por quatro grupos fundamentais: valor do agradável e do desagradável, correspondentes à função do gozo e do sofrimento; valor vitais, correspondentes aos modos do sentimento vital (saúde, doença, etc); valor espirituais, ou seja, estéticos e cognitivos; e valor religiosos (Op. cit., pp. 103 ss.). Esta solução de Scheler, porém, trazia de novo à tona, no domínio da intuição fundamental, a mesma antinomia que caracteriza a interpretação neocriticista ou transcendental do valor, E essa antinomia era justamente tomada como caracterização do valor por Hartmann; este por um lado afirma que os valores são valor só em relação ao ser do sujeito, reconhecendo portanto a relacionabilidade (e não relatividade) deles (Ethik, 3a ed., 1949, p. 141). Por outro lado, afirma que os valores têm um "ser em si" independente das opiniões do sujeito e que constituem autênticos objetos; estes, embora não sejam reais como os objetos das ciências naturais, têm um modo de ser igualmente imutável e absoluto (Ibid., p. 153). Com terminologia diferente porque de natureza teológica, mas análoga, os mesmos dois aspectos antônimos do valor foram expressos por R. Le Senne, para quem o valor é um Deus-conosco, Deus, que é único e transcendente; como conosco está em relação com o homem e é capaz de guiá-lo (Obstacle et valeur, 1934, pp. 220 ss.). 2) O sucesso do termo valor no mundo moderno se deve em grande parte à obra de Nietzsche e ao escândalo que provocou com a pretensão de inverter os valores tradicionais. Nietzsche declarava depositar suas esperanças "em espíritos fortes e suficientemente independentes para dar impulso a juízos de valor opostos, para reformar e inverter os valores eternos, em precursores ou homens do futuro, que no presente constituam a semente que obrigará a vontade dos milênios a abrir novos caminhos, etc. (Jenseits von Gut und Böse, § 203). Nietzsche considerou que a missão de sua filosofia era a inversão dos valores tradicionais, ironizados como "valor eternos" (Ecce homo, § 4). Essa inversão consistia substancialmente em substituir os valores da moral cristã, fundada no ressentimento, portanto na renúncia e o ascetismo, pelos valores vitais, que nascem da afirmação da vida, de sua aceitação dionisíaca (Genealogie der Moral, I, §10). Essa concepção de Nietzsche foi considerada uma espécie de relativismo dos valores, e como tal serviu de alvo para a polêmica de todas as doutrinas absolutistas. Na realidade, em Nietzsche, são poucos os indícios de uma relatividade dos valores: sua intenção é, antes, restabelecer uma tábua autêntica de valor, que é a dos valores vitais, em lugar dos valores fictícios, adotados pela moral do ressentimento. A tese autêntica de Nietzsche é de intrínseca relação entre o ser do valor e o homem, de tal maneira que não há valor que não seja uma possibilidade ou um modo de ser do homem. É esta a tese característica da interpretação do valor que chamamos de empirista ou subjetivista. Meinong foi o primeiro a reapresentar explicitamente essa tese, ao reduzir o valor de um objeto à sua "força de motivação" ("Über Werthaltung und Wert" em Archiv fur systematische Philosophie, 1895, p. 341). Ehrenfels, observando que, com base nessa definição, só teriam valor os objetos existentes, definiu o valor como simples "desejabilidade" (System der Wertheorie, I, 1897, p. 53). Essa definição de Ehrenfels é importante porque introduz pela primeira vez e de modo explícito a conotação da possibilidade na noção de valor valor não é a coisa desejada, mas o objeto desejável: não é coisa no sentido de não ser necessariamente um objeto real: não é desejado porque simplesmente pode sê-lo. Não tem significado diferente a definição de valor apresentada alguns anos mais tarde por R. B. Perry, para quem "todo objeto, qualquer que seja, adquire valor quando é investido por um interesse qualquer" (General Theory of Value, 1926, 2a ed., 1950, p. 116): de fato, o interesse, diferentemente do desejo, é apenas uma possibilidade. Foi exatamente no âmbito dessa concepção de valor que nasceu o relativismo dos valores; isso aconteceu no coração do historicismo, da consideração da relação entre os valores e a história. O primeiro a defender o relativismo dos valores foi Dilthey: "A própria história é a força que produz as determinações de valor, ideias e metas, com base nos quais se determina o significado de homens e acontecimentos" (Gesammelte Schriften, VII, p. 290). Portanto, os valores e as normas nascem e morrem na história e não subsistem fora dela nem acima de seu curso (Ibid., p. 290). O relativismo dos valores em relação à história foi afirmado ainda mais explicitamente por Simmel. Partindo do reconhecimento da relatividade do valor econômico, Simmel chegou ao reconhecimento da relatividade de todos os valores: o valor nunca é uma entidade objetiva, mas sua objetividade deriva apenas da correlação entre sujeito e objeto. Portanto, não existem valor absolutos, e são valor só aqueles que, em determinadas condições, os homens reconhecem como tais. A esfera dos valores distingue-se da esfera da realidade, não com base num status ontológico próprio, mas por uma qualificação categorial, que pode ser aplicada a qualquer objeto (Philosophie des Geldes, 1900, I, § I). O historicismo alemão, todavia, não foi unânime em reconhecer essa relatividade; considerou-a sempre como um perigo, mas às vezes quis evitá-la. Foi Troeltsch o primeiro a formular claramente a antítese entre relatividade histórica e absolutismo dos valores, ao mesmo tempo em que procurava recuperar esse absolutismo no próprio âmbito do historicismo. A solução que ele deu à antítese é a coincidência entre os dois termos antinômicos: cada ponto da história está em relação direta com a esfera dos valores absolutos e contém em si tais valores sem relativizá-los à sua mutabilidade (Der Historismus und seine Probleme, 1922, Gesammelte Schriften, III, p. 211). Do mesmo modo, Meinecke afirmava que a relação com o Absoluto é constitutiva da história, mas que essa relação vai do infinito para o finito, e não o inverso: de sorte que, enquanto a história encontra fundamento nos valores que realiza, o modo de ser destes valores é irredutível à relatividade histórica e conserva validade incondicional (Die Entstehung des Historismus, 1936, II, p. 645). Como se vê, no interior desta segunda interpretação fundamental do valor, reproduz-se uma situação análoga à que se verificou na primeira: a atribuição de duas características opostas ao valor, absolutidade e relatividade: a primeira constituiria o modo de ser do valor em si, o segundo o seu modo de ser na história. O pressuposto dessa oposição é o caráter de relatividade atribuído à história e em geral a tudo o que encontra lugar na história, entendida segundo o esquema de Bergson como uma criação contínua, em que tudo se cria e se destrói a cada instante. Portanto, não há vestígio de relativismo dos valores onde não há vestígio de relativismo histórico e onde há um conceito menos superficial e diletante de história. Mesmo insistindo na pluralidade dos valores e das esferas de valor, Max Weber não via na história uma incessante criação de valor, cada um deles relativo a um momento da história, nem uma relação fugaz com valor Absolutos, mas uma luta entre diferentes valores à escolha do homem (Gesammelte Politische Schriften, p. 63; v. Pietro Rossi, Lo storicismo tedesco contemporâneo, pp. 367 ss.). O mesmo reconhecimento da multiplicidade dos valores e da importância da escolha que essa multiplicidade está sempre a exigir do homem encontra-se em Dewey, que, exatamente por isso, definiu a filosofia como "crítica dos valores".- "A confusão em que todas as teorias do valor incidiram, entre determinada posição na relação causal ou sucessiva e o valor propriamente dito, é uma prova indireta de que toda valoração inteligente é também crítica, isto é, juízo da coisa que tem valor imediato. Toda teoria do valor é necessariamente um ingresso no campo da crítica" (Experience and Nature, 1926, p. 397). Mas a crítica dos valores nesse sentido nada mais é que a disciplina inteligente das escolhas humanas. Tal disciplina implica em primeiro lugar a consideração da relação existente entre meios e fins, de tal modo que não se pode julgar dos fins a não ser julgando ao mesmo tempo dos meios que servem para alcançá-los (Theory of Valuation, 1939, p- 53)- Por outro lado, a crítica dos valores não poderia ser eficazmente instituída sem levar em conta outro aspecto dos valores em que R. Frondizi insistiu muito: a conexão entre valor e situação: "A organização econômica e jurídica, os hábitos, a tradição, as crenças religiosas e muitas outras formas de vida que transcendem a ética contribuem para configurar determinados valores que, ao contrário, são considerados existentes num mundo estranho à vida do homem. Embora o valor não possa derivar exclusivamente de elementos de fato, tampouco pode prescindir de conexão com a realidade. Uma separação dessas condena quem a executa a manter-se no plano desencarnado das essências" (Qué son los valores?, 1958, p. 127). Os estudos contemporâneos, elaborados com base nesse pressuposto negativo, evidenciaram os seguintes aspectos: 1) O valor não é somente a preferência ou o objeto da preferência, mas é o preferível, o desejável, o objeto de uma antecipação ou de uma expectativa normativa (v. Dewey, The Field of Value: a Cooperative Inquiry, ed. Ray Lepley, 1949, p. 68; Clyde Kluckohn e outros, em Toward a General Theory of Action, ed. Parsons e Schils, 1951, p. 422). 2) Por outro lado, não é um mero ideal que possa ser total ou parcialmente posto de lado pelas preferências ou escolhas efetivas, mas é guia ou norma (nem sempre seguida) das escolhas e, em todo caso, seu critério de juízo (v. C. Morris, Varieties of Human Value, 1956, cap. I). 3) Consequentemente, a melhor definição de valor é a que o considera como possibilidade de escolha, isto é, como uma disciplina inteligente das escolhas, que pode conduzir a eliminar algumas delas ou a declará-las irracionais ou nocivas, e pode conduzir (e conduz) a privilegiar outras, ditando a sua repetição sempre que determinadas condições se verifiquem. Em outros termos, uma teoria do valor, como crítica dos valores, tende a determinar as autênticas possibilidades de escolha, ou seja, as escolhas que, podendo aparecer como possíveis sempre nas mesmas circunstâncias, constituem pretensão do valor à universalidade e à permanência. [Abbagnano]