linguagem e silêncio

Category: Heidegger - Ser e Tempo etc.
Submitter: mccastro

linguagem e silêncio

A linguagem pertence, em todo caso, à vizinhança mais próxima do humano. A linguagem encontra-se por toda parte. Não é, portanto, de admirar que, tão logo o homem faça uma ideia do que se acha ao seu redor, ele encontre imediatamente também a linguagem, de maneira a determiná-la numa perspectiva condizente com o que a partir dela se mostra. O pensamento busca elaborar uma representação universal da linguagem. O universal, o que vale para toda e qualquer coisa, chama-se essência. Prevalece a opinião de que o traço fundamental do pensamento é representar de maneira universal o que possui validade universal. Lidar, de maneira pensante, com a linguagem significaria, nesse sentido: fornecer uma representação da essência da linguagem, distinguindo-a com pertinência de outras representações. A presente conferência parece pretender a mesma coisa. O título da conferência não é, porém, “sobre a essência da linguagem”. É simplesmente - “a linguagem”. [8] Dizemos “simplesmente” e, com isso, acabamos apresentando um título ainda mais pretensioso do que dizer com simplicidade que se trata de discutir alguns aspectos da linguagem. Pois falar da linguagem talvez seja ainda pior do que escrever sobre o silêncio. Não queremos assaltar a linguagem para obrigá-la a cair nas presas de representações já prontas e acabadas. Não queremos alcançar um conceito da essência da linguagem capaz de propiciar uma concepção da linguagem a ser usada por toda parte e, assim, satisfazer todo esforço de representação. [GA12MSC:7-8]


A linguagem: referimo-nos à fala, que conhecemos como uma atividade e capacidade nossas. Mesmo assim falar não é nenhuma propriedade assegurada. Diante da admiração profunda e do terror atroz, o homem perde a fala. Enche-se de admiração, sente-se tocado e só isso. Ele não fala mais: fica em silêncio. Alguém pode num acidente perder a capacidade de falar. Ele não fala mais. Só que também não silencia. Ele fica mudo apenas. Falar implica em articular sons, seja falando ou calando, e mesmo na mudez, quando não podemos falar. Falar implica a verbalização articuladora de sons. Na fala, a linguagem se apresenta como atividade dos órgãos da fala: a boca, os lábios, o “ranger dos dentes”, a língua, a garganta. Os nomes usados pelas línguas ocidentais para dizer linguagem testemunham como, de há muito, a linguagem é representada a partir desses fenômenos. Linguagem é glossa, língua, langue, language. Linguagem é língua, é “modo da boca”. [GA12MSC:193-194]
A linguagem, que fala à medida que diz, cuida para que nossa fala, escutando o não dito, corresponda ao seu dito. Assim também o silêncio, que se costuma considerar como origem da fala, é prontamente um corresponder [Cf Ser e Tempo, 1927, § 34]. O silêncio corresponde à consonância do quieto, ela mesma sem som, inerente à saga do dizer, essa que mostra e apropria. Mostrando, a saga do dizer, que repousa no acontecimento apropriador, é o modo mais próprio de tornar próprio. O acontecimento apropria em dizendo. De modo correspondente, a linguagem diz sempre de acordo com a maneira em que o acontecimento apropriador como tal se encobre ou se retrai. Mesmo para o pensamento que segue pensando o acontecimento apropriador, este é algo que apenas se deixa presumir, não obstante já se possa fazer a sua experiência na essência da técnica moderna, que recebeu o estranho nome de Ge-stell, armação, essa que tudo com-põe e dis-põe [Ensaios e conferências, 1954, p. 31]. Dispondo, ou seja, provocando o homem, a encomendar tudo o que vige para a disponibilidade técnica, a armação vigora no modo do acontecimento apropriador. E isso de tal forma que imediatamente perverte o acontecimento apropriador, porque todo encomendar se vê inserido no pensamento calculador, falando assim a linguagem da armação. O falar se vê provocado a corresponder à encomenda de submeter tudo que vigora a essa direção. [GA12MSC:211-212]

Submitted on:  Sat, 28-Aug-2021, 07:13