aprender

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

aprender

Aprender é um modo do apreender e do apropriar-se. Mas nem todo o tomar é um aprender. Podemos tomar uma coisa, por exemplo, uma pedra, levá-la connosco e colocá-la num monte de minerais; e fazer o mesmo com plantas; num livro de cozinha lê-se: «tome-se», quer dizer, utilize-se. «Tomam significa entrar na posse de uma coisa, de qualquer modo, e dispor dela. Que modo do «tomar» o aprender nos indica? mathemata — coisas, na medida em que as aprendemos. Mas não podemos, rigorosamente, aprender uma coisa, por exemplo, uma arma; apenas podemos aprender o uso de uma coisa. O aprender é, portanto, um tomar e um apropriar-se, pelo qual o uso se torna objeto de apropriação. Uma tal apropriação acontece através do próprio uso. Chamamos-lhe exercício. Mas o exercitar-se, novamente, é apenas um modo de aprender. Nem todo o aprender é um exercitar-se. Mas qual é, então, a essência do aprender, no sentido próprio de mathesis? Por que motivo o aprender é um tomar? O que é que é tomado nas coisas e de que modo é isso tomado?
Observemos, mais uma vez, o exercício, como um modo do aprender. No exercitar-se, tomamos posse do uso da arma, quer dizer, do modo e do processo de a utilizar. Dominamos o modo de utilização da arma. Quer isto dizer que o nosso modo de proceder e de nos relacionarmos se ajusta àquilo que a própria arma exige; «arma» não significa esta espingarda particular, com este número determinado, mas, por exemplo, o modelo 98. No treino, não aprendemos apenas a carregar a arma, a pressionar o gatilho e a visar o alvo, não aprendemos apenas a prática manual, mas em tudo isso, aprendemos, ao mesmo tempo e em primeiro lugar, a conhecer a coisa. O aprender é também, sempre, um aprender a conhecer. No aprender, há sempre uma direção do aprender, aprender a utilizar, aprender a conhecer. Por sua vez, o aprender a conhecer tem diferentes graus. Aprendemos a conhecer esta espingarda determinada, aprendemos o que é uma espingarda deste modelo, o que é, em geral, uma espingarda. Mas no exercício, que é uma aprendizagem da utilização, o aprender a conhecer que lhe é próprio permanece no interior de determinados limites. A coisa torna-se, em geral, conhecida até ao ponto em que aquele que aprende se torna num verdadeiro atirador. Mas, no que diz respeito à coisa, a saber, a arma, há ainda mais para aprender a conhecer, portanto, em geral, para aprender, como, por exemplo, as leis da balística, da mecânica, da ação química de determinado material. Há ainda que aprender, disto tudo, o que é uma arma, o que é este objeto-de-uso determinado. Mas, com isto, o que há ainda mais para aprender? Isto: que utilidade tem, em geral, uma coisa deste gênero. Porém, não conseguimos aprender isso com o disparo, com a utilização da coisa. Certamente que não. Mas isso não exclui que tudo isso pertença à coisa. Quando se trata, por exemplo, de tornar, em geral, disponível uma coisa cujo uso estudamos, portanto, quando se trata de produzi-Ia, o que a produz deve já ter aprendido, antecipadamente, qual a utilidade que essa coisa, em geral, tem. Há ainda em relação à coisa um aprender a conhecer mais originário, que deve ser conhecido antecipadamente, para que haja, em geral, tais modelos e peças correspondentes; um aprender a conhecer aquilo que, em geral, pertence a uma arma de tiro e o que é uma arma; isto deve, antecipadamente, ser conhecido, deve ser aprendido e ser possível de aprender. Este aprender a conhecer é o fundamento para produção da coisa e, pelo seu lado, a coisa produzida é o fundamento que possibilita o exercício e o uso.

O que aprendemos através do exercício é apenas uma parcela limitada do que há para aprender numa coisa. O aprender originário é aquele tomar em que tomamos conhecimento daquilo que, em geral, uma coisa é em cada caso, do que é uma arma, do que é um objeto de uso. Mas isso, no entanto, em sentido próprio já o sabemos. Quando aprendemos a conhecer o que é uma espingarda, ou um determinado modelo de espingarda, não começamos por aprender o que é uma arma, isto já nós o sabemos antecipadamente e devemos sabê-lo, para podermos, em geral, percepcionar a espingarda enquanto tal. Na medida em que sabemos antecipadamente o que é uma arma e somente nessa condição, o que nos foi apresentado à vista se nos torna, antes de tudo, visível naquilo que é. Certamente, sabemos apenas, em geral, o que é uma arma, de um modo indeterminado. Quando trazemos isto expressamente ao conhecimento e de um modo determinado, então tomamos conhecimento de qualquer coisa que, em sentido próprio, já possuíamos. Na verdade, este «tomar conhecimento» é a essência autêntica do conhecer, a mathesis. As mathemata são as coisas, na medida em que as tomamos no conhecimento, enquanto tomamos conhecimento delas, como aquilo que, verdadeiramente, já sabemos de modo antecipado: o corpo como corporeidade; na planta, a vegetalidade; no animal, a animalidade; na coisa, a coisalidade, etc. Este verdadeiro aprender é, por consequência, um tomar muito peculiar, um tomar no qual aquele que toma, toma, no fundo, aquilo que já tem. A este aprender corresponde, também, o ensinar. [GA41]

Submitted on:  Mon, 18-Oct-2010, 23:18