
O que é que acontece com o «matemático», dado que ele não deve ser compreendido a partir da matemática? Quando se trata de questões deste gênero, fazemos bem em deter-nos nas palavras. Na verdade, nem sempre a coisa se encontra aí onde está a palavra. Mas, no que diz respeito aos Gregos, dos quais a palavra deriva, devemos estabelecer, sem perigo, o pressuposto de que é o contrário que acontece. O «matemático», segundo a origem etimológica, resulta do grego ta mathemata, o que se pode aprender e, ao mesmo tempo, em consequência, o que se pode ensinar; manthanein significa aprender. mathesis significa lição e, na verdade, num duplo sentido: lição no sentido de «ir a uma lição e aprender» e lição como «aquilo que é ensinado». Ensinar e aprender são aqui tomados num sentido lato e, ao mesmo tempo, essencial, não no sentido restrito tardio, utilizado na escola e pelos doutos. Realçar isto não é ainda suficiente para conceber o sentido próprio do «matemático». Além disso, é necessário examinar em que contexto amplo os gregos inseriam o matemático e de que é que o distinguiam. O que é, em sentido próprio, o «matemático», experimentamo-lo quando temos em atenção onde os Gregos o registavam e, no interior desse registo, em relação a que é que o delimitavam. Eles atribuíam ao matemático, ta mathemata, todas as seguintes determinações. 1) ta physika, as coisas, na medida em que elas se abrem e se produzem por si mesmas; 2) ta poioumena, as coisas, na medida em que são produzidas pela mão do homem, pelo seu trabalho, e, deste modo, estão diante de nós; 3) ta chremata, as coisas, na medida em que estão a uso e se encontram permanentemente disponíveis; podendo ser, ou physika, pedras ou coisas semelhantes, ou poioumena, as que são expressamente produzidas; 4) ta pragmata, as coisas, na medida em que são, em geral, aquelas com que estabelecemos um comércio, seja porque trabalhamos com elas, as utilizamos, as transformamos, ou, apenas, as observamos e investigamos — pragmata, relacionado com praxis; tomada aqui em sentido lato, não no sentido restrito de aplicação prática (cf. kresthai), nem no sentido de praxis como ação, entendida como ação moral; praxis é todo o fazer, exercitar e suportar, o que inclui também a poiesis; e, finalmente, 5) ta mathemata. De acordo com as quatro já mencionadas caracterizações que até agora percorremos, devemos também, a propósito de mathemata, dizer; as coisas, na medida em que...; a questão é: em que medida? Em qualquer caso, observamos o seguinte: o matemático diz respeito às coisas, numa determinada perspectiva. Movemo-nos, com a questão acerca do matemático, no interior da nossa questão diretriz: «que é uma coisa?» Em que perspectiva se tomam as coisas, quando elas são vistas e abordadas matematicamente? Estamos há muito habituados a pensar nos números, a propósito do matemático. O matemático e os números estão, manifestamente, em conexão. Permanece a questão de sabe se essa conexão reside no fato de o matemático ser qualquer coisa de numérico ou, pelo contrário, se o que diz respeito aos números é qualquer coisa de matemático. Passa-se o segundo caso. Mas, na medida em que os números estão, deste modo, em conexão com o matemático, deve perguntar-se por que motivo valem os números, justamente, como qualquer coisa de matemático. Que é o próprio matemático de modo a que uma coisa do gênero dos números deva ser concebida como o matemático e apresentada predominantemente como o matemático? mathesis significa aprender; mathemata, o que se pode aprender. De acordo com o que foi dito, as coisas são visadas com esta designação, na medida em que se podem aprender. [GA41]