angústia

Category: Heidegger - Ser e Tempo etc.
Submitter: mccastro

angústia

Angst Acontece no ser-aí do homem semelhante disposição de humor na qual ele seja levado à presença do próprio nada? Este acontecer é possível e também real - ainda que bastante raro - apenas por instantes, na disposição de humor fundamental da angústia. Por esta angústia não entendemos a assaz frequente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram. A angústia é radicalmente diferente do temor. Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça. O temor de... sempre teme por algo determinado. Pelo fato de o temor ter como propriedade a limitação de seu "de" (Wovor) e de seu "por" (Worum), o temeroso e o medroso são retidos por aquilo que nos amedronta. Ao esforçar-se por se libertar disto - de algo determinado -, torna-se, quem sente o temor, inseguro com relação às outras coisas, isto é, perde literalmente a cabeça. A angústia não deixa mais surgir uma tal confusão. Muito antes, perpassa-a uma estranha tranquilidade. Sem dúvida, a angústia é sempre angústia diante de..., mas não angústia diante disto ou daquilo. A angústia diante de... é sempre angústia por..., mas não por isto ou aquilo. O caráter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de determinação. Um exemplo conhecido nos pode revelar esta impossibilidade. Na angústia - dizemos nós - "a gente sente-se estranho". O que suscita tal estranheza e quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém - na fuga do ente - este "nenhum". A angústia manifesta o nada. "Estamos suspensos" na angústia. Melhor dito: a angústia nos suspende porque ela põe em fuga o ente em sua totalidade. Nisto consiste o fato de nós próprios - os homens que somos - refugiarmo-nos no seio dos entes. E por isso que, em última análise, não sou "eu" ou não és "tu" que te sentes estranho, mas a gente se sente assim. Somente continua presente o puro ser-aí no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se. A angústia nos corta a palavra. Pelo fato de o ente em sua totalidade fugir, e assim, justamente, nos acossa o nada, em sua presença, emudece qualquer dicção do "é". O fato de nós procurarmos muitas vezes, na estranheza da angústia, romper o vazio silêncio com palavras sem nexo é apenas o testemunho da presença do nada. Que a angústia revela o nada é confirmado imediatamente pelo próprio homem quando a angústia se afastou. Na posse da claridade do olhar, a lembrança recente nos leva a dizer: Diante de que e por que nós nos angustiávamos era "propriamente" - nada. Efetivamente: o nada mesmo - enquanto tal - estava aí. Com a determinação da disposição de humor fundamental da angústia atingimos o acontecer do ser-aí no qual o nada está manifesto e a partir do qual deve ser questionado. Que acontece com o nada? [MHeidegger O QUE É METAFÍSICA?]


A angústia dá-nos uma experiência de ser [Erfahrung des Seins] como o outro com relação a todo ente, suposto que - por causa da "angústia" diante da angústia, quer dizer, na pura atitude medrosa do temor - nós não nos esquivemos, fugindo da voz silenciosa que nos dispõe para o espanto do abismo. Se abandonarmos arbitrariamente o curso do pensamento desta preleção, ao nos referirmos a esta angústia fundamental, se despojarmos a angústia, enquanto disposição de humor instaurada por aquela voz, da referência ao nada, então nos resta apenas a angústia como "sentimento" isolado que podemos distinguir e separar de outros sentimentos, no conhecido sortimento de estados de ânimo vistos psicologicamente. [MHeidegger POSFACIO]
O fenômeno da disposição, no modo determinado do medo, será demonstrado agora de modo ainda mais concreto numa relação com uma disposição fundamental da presença [Dasein], a ANGÚSTIA, que será interpretada posteriormente (cf §40). STMSC: §29 O fenômeno da ANGÚSTIA foi colocado à base da análise como uma disposição suficiente que aguarda tais exigências metodológicas. STMSC: §39 A elaboração dessa disposição fundamental e a caracterização ontológica do que nela se abre como tal retira seu ponto de partida do fenômeno da decadência e delimita a ANGÚSTIA frente ao fenômeno que lhe é próximo, a saber, o fenômeno do medo, anteriormente analisado. STMSC: §39 Enquanto possibilidade de ser da presença [Dasein], a ANGÚSTIA, junto com a própria presença [Dasein] que nela se abre, oferece o solo fenomenal para a apreensão explícita da totalidade originária da presença [Dasein]. STMSC: §39 É uma possibilidade ontológica da presença [Dasein] que deverá “descortinar o horizonte” ôntico e explicar a própria presença [Dasein] como ente. Todo descortinar só é possível dentro da abertura constitutiva da presença [Dasein]. E esta se baseia na disposição e no compreender. Em que medida a ANGÚSTIA é uma disposição privilegiada? Será de fato que, na ANGÚSTIA, a presença [Dasein] se coloca diante de si mesma a partir de seu próprio ser, a ponto de, numa perspectiva fenomenológica, o ente revelado na ANGÚSTIA chegar a se determinar em seu ser ou, ao menos, poder preparar adequadamente uma tal determinação? STMSC: §40 Nessas condições, orientar a análise pelo fenômeno da decadência não exclui, em princípio, a possibilidade de se fazer uma experiência ontológica da presença [Dasein] que se abre nesse fenômeno. Ao contrário, nesse caso, a interpretação não se expõe a uma auto-apreensão artificial da presença [Dasein]. Ela realiza apenas a explicação daquilo que a própria presença [Dasein] abre onticamente. A possibilidade de se chegar ao ser da presença [Dasein], interpretando-se numa repetição e num acompanhamento o compreender dado na disposição, cresce ainda mais quanto mais originário for o fenômeno que funciona metodologicamente como disposição de abertura. De início, dizer que a ANGÚSTIA fornece uma condição desse tipo não passa de mera afirmação. STMSC: §40 Não estamos totalmente despreparados para analisar a ANGÚSTIA. Não há dúvida de que o nexo ontológico entre ANGÚSTIA e medo é ainda obscuro. Mas é claro que, entre ambos, existe um parentesco fenomenal. O indício de parentesco reside em ambos os fenômenos permanecerem, na maior parte das vezes, inseparáveis um do outro, e isso a tal ponto que se chama de ANGÚSTIA o que é medo, e se fala de medo quando o fenômeno possui o caráter de ANGÚSTIA. Vamos então nos aproximar, passo a passo, do fenômeno da ANGÚSTIA. STMSC: §40 O desvio da decadência não é, por conseguinte, um fugir que se fundasse num medo de algo intramundano. Nesse sentido, o desviar-se não possuiria o caráter de fuga, sobretudo quando se aviasse para o ente intramundano no sentido de nele empenhar-se. Ao contrário, o desvio da decadência funda-se na ANGÚSTIA que, por sua vez, torna possível o medo. STMSC: §40 Para se compreender o que se quer dizer com fuga decadente de si mesma, inerente à presença [Dasein], é preciso lembrar que a constituição fundamental da presença [Dasein] é ser-no-mundo. Aquilo com que a ANGÚSTIA se angustia é o ser-no-mundo como tal. Como se distingue fenomenalmente o com quê a ANGÚSTIA se angustia daquilo que o medo teme? O com quê da ANGÚSTIA não é, de modo algum, um ente intramundano. Por isso, com ele não se pode estabelecer nenhuma conjuntura essencial. A ameaça não possui o caráter de algo prejudicial que diria respeito ao ameaçado na perspectiva determinada de um específico poder-ser fático. O com quê da ANGÚSTIA é inteiramente indeterminado. Essa indeterminação não apenas deixa faticamente indefinido que ente intramundano “ameaça” como também diz que o ente intramundano é “irrelevante”. Nada do que é simplesmente dado ou que se acha à mão no interior do mundo serve para a ANGÚSTIA com ele angustiar-se. A totalidade conjuntural do manual e do ser simplesmente dado que se descobre no mundo não tem nenhuma importância, ela se perde em si. O mundo possui o caráter de total insignificância. Na ANGÚSTIA, não se dá o encontro disso ou daquilo com o qual se pudesse estabelecer uma conjuntura ameaçadora. STMSC: §40 Por isso, a ANGÚSTIA também não “vê” um “aqui” e um “ali” determinados, de onde o ameaçador se aproximasse. Que o ameaçador não se encontre em lugar nenhum, isso é o que caracteriza o referente da ANGÚSTIA. Ela não sabe o que é aquilo com que se angustia. “Em lugar nenhum”, porém, não significa um nada meramente negativo. Justamente aí situa-se a região, a abertura do mundo em geral para o ser-em essencialmente espacial. Em consequência, o ameaçador dispõe da possibilidade de não se aproximar a partir de uma direção determinada, situada na proximidade, e isso porque ele já está sempre “por aí” [»da«], embora em lugar nenhum. Está tão próximo que sufoca a respiração e, no entanto, encontra-se em lugar nenhum. STMSC: §40 Naquilo com que a ANGÚSTIA se angustia revela-se o “é nada e não está em lugar nenhum”. Fenomenalmente, a impertinência do nada e do em lugar nenhum intramundanos significa que a angustia se angustia com o mundo como tal. A total insignificância que se anuncia no nada e no em lugar nenhum não significa ausência de mundo. Significa que o ente intramundano em si mesmo tem tão pouca importância que, em razão dessa insignificância do intramundano, somente o mundo se impõe em sua mundanidade. STMSC: §40 O que se estreita não é isso ou aquilo, também não é a totalidade do que é simplesmente dado no sentido de uma soma, e sim a possibilidade de tudo que está à mão, isto é, do próprio mundo. Quando a ANGÚSTIA passa, diz-se costumeiramente: “propriamente não foi nada”. De fato, essa fala refere-se onticamente ao que foi. A fala cotidiana empenha-se em ocupar e discutir o que está à mão. O com quê a ANGÚSTIA se angustia nada tem a ver com o manual intramundano. Mesmo esse nada ter a ver, o único que a fala cotidiana da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo. O nada da manualidade funda-se em “algo” {CH: portanto, aqui nada há que ver com “niilismo”} mais originário, isto é, a no mundo. Do ponto de vista ontológico, porém, ele pertence essencialmente ao ser da presença [Dasein] como ser-no-mundo. Se, portanto, o nada, ou seja, o mundo como tal, se apresenta como aquilo com que a ANGÚSTIA se angustia, isso significa que a ANGÚSTIA se angustia com o ser-no-mundo ele mesmo {CH: enquanto determinante do ser como tal; o que é absolutamente inesperado e insuportável – estranho}. STMSC: §40 O angustiar-se abre, de maneira originária e direta, o mundo como mundo. Não é primeiro a reflexão que abstrai do ente intramundano para então só pensar o mundo e, em consequência, surgir a ANGÚSTIA nesse confronto. Ao contrário, enquanto modo da disposição, é a ANGÚSTIA que pela primeira vez abre o mundo como mundo. Isso, porém, não significa que, na ANGÚSTIA, se conceba a mundanidade do mundo. STMSC: §40 A ANGÚSTIA não é somente ANGÚSTIA com… mas, enquanto disposição, é também ANGÚSTIA por… O por quê a ANGÚSTIA se angustia não é um modo determinado de ser e de possibilidade da presença [Dasein]. A própria ameaça é indeterminada, não chegando, portanto, a penetrar como ameaça nesse ou naquele poder-ser faticamente concreto. A ANGÚSTIA se angustia pelo próprio ser-no-mundo. Na ANGÚSTIA perde-se o que se encontra à mão no mundo circundante, ou seja, o ente intramundano em geral. O “mundo” não é mais capaz de oferecer alguma coisa, nem sequer a co-presença [Dasein] dos outros. A ANGÚSTIA retira, pois, da presença [Dasein] a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesma a partir do “mundo” e da interpretação pública. Ela remete a presença [Dasein] para aquilo por que a ANGÚSTIA se angustia, para o seu próprio poder-ser-no-mundo. A ANGÚSTIA singulariza a presença [Dasein] em seu próprio ser-no-mundo que, em compreendendo, se projeta essencialmente para possibilidades. Naquilo por que se angustia, a ANGÚSTIA abre a presença [Dasein] como ser-possível e, na verdade, como aquilo que, somente a partir de si mesmo, pode singularizar-se na singularidade. STMSC: §40 Na presença [Dasein], a ANGÚSTIA revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de escolher e acolher a si mesma. A ANGÚSTIA arrasta a presença [Dasein] para o ser-livre para… (propensio in…), para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade de ser aquilo que já sempre é. A presença [Dasein] como ser-no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsabilidade desse ser. STMSC: §40 O por quê a ANGÚSTIA se angustia desvela-se como o com quê ela se angustia: o ser-no-mundo. A mesmidade do com quê e do pelo quê a ANGÚSTIA se angustia se estende até ao próprio angustiar-se. Pois, enquanto disposição, esse constitui um modo fundamental de ser-no-mundo. A mesmidade existencial do abrir e do aberto em que se abre o mundo como mundo, o ser-em como poder-ser singularizado, puro e lançado, evidencia que, com o fenômeno da ANGÚSTIA, se fez tema de interpretação uma disposição privilegiada. A ANGÚSTIA singulariza e abre a presença [Dasein] como “solus ipse”. Esse “solipsismo” existencial, porém, não dá lugar a uma coisa-sujeito isolada no vazio inofensivo de uma ocorrência desprovida de mundo. Ao contrário, confere à presença [Dasein] justamente um sentido extremo em que ela é trazida como mundo para o seu mundo e, assim, como ser-no-mundo para si mesma. STMSC: §40 Mais uma vez, a interpretação e a fala cotidianas constituem a prova mais imparcial de que, enquanto disposição fundamental, a ANGÚSTIA constitui uma abertura. Como dissemos anteriormente, a disposição revela “como se está”. Na ANGÚSTIA, se está “estranho”. Com isso se exprime, antes de qualquer coisa, a indeterminação característica em que se encontra a presença [Dasein] na ANGÚSTIA: o nada e o “em lugar nenhum”. Estranheza significa, porém, igualmente “não se sentir em casa”. Na primeira indicação fenomenal da constituição fundamental da presença [Dasein] e no esclarecimento do sentido existencial do ser-em, por oposição ao significado categorial da “interioridade”, determinou-se o ser-em como habitar em…, “estar familiarizado com…” (§12). Esse caráter do ser-em tornou-se a seguir visível, de modo ainda mais concreto, através do público na sua impessoalidade cotidiana, que instala na cotidianidade mediana da presença [Dasein] a certeza tranquila de si mesma e o “sentir-se em casa”. A ANGÚSTIA, ao contrário, retira a presença [Dasein] de seu empenho decadente no “mundo”. Rompe-se a familiaridade cotidiana. A presença [Dasein] se singulariza, mas como ser-no-mundo. O ser-em aparece no “modo” existencial de não sentir-se em casa. É isso o que diz a fala sobre a “estranheza”. STMSC: §40 Doravante, torna-se fenomenalmente visível do que foge a decadência como fuga. Não foge de um ente intramundano mas justamente para esse ente, a fim de que a ocupação perdida no impessoal possa deter-se na familiaridade tranquila. A fuga decadente para o sentir-se em casa do que é público foge de não sentir-se em casa, isto é, da estranheza inerente à presença [Dasein] enquanto ser-no-mundo lançado para si mesmo em seu ser. Essa estranheza persegue constantemente a presença [Dasein] e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal. Essa ameaça pode, faticamente, acompanhar uma certeza total e uma não necessidade das ocupações cotidianas. A ANGÚSTIA pode surgir nas situações mais inofensivas. Também não necessita da escuridão onde alguma coisa comum facilmente se torna estranha. Na escuridão não há “nada” para se ver especialmente, embora o mundo esteja ainda e de maneira mais importuna “por aí” [»da«]. STMSC: §40 Ao interpretarmos, de modo ontológico-existencial, a estranheza da presença [Dasein] como ameaça que a própria presença [Dasein] experimenta em relação a si mesma, não se afirma, contudo, que na ANGÚSTIA fática a estranheza já se compreenda nesse sentido. O modo cotidiano em que a presença [Dasein] compreende a estranheza é o desvio para a decadência que esconde o não sentir-se em casa. Do ponto de vista fenomenal, porém, a cotidianidade dessa fuga mostra que, enquanto disposição fundamental, a ANGÚSTIA pertence à constituição essencial da presença [Dasein] como ser-no-mundo. E que, como existencial, jamais é algo simplesmente dado e sim um modo próprio da presença [Dasein] fática, ou seja, é uma disposição. O ser-no-mundo tranquilizado e familiarizado é um modo da estranheza da presença [Dasein] e não o a contrário. O não sentir-se em casa {CH: (desapropriação)} deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário. STMSC: §40 Como a ANGÚSTIA já sempre determina, de forma latente, o ser-no-mundo, este, enquanto ser que vem ao encontro na ocupação junto ao “mundo”, pode sentir medo. Medo é ANGÚSTIA imprópria, entregue à decadência do “mundo” e, como tal, ANGÚSTIA nela mesma velada. STMSC: §40 De fato, na maior parte das vezes, a disposição da estranheza também permanece incompreendida do ponto de vista existenciário. Em vista do predomínio da decadência e do público, é rara a ANGÚSTIA “propriamente dita”. Com frequência, a ANGÚSTIA é condicionada “fisiologicamente”. Em sua facticidade, esse fato é um problema ontológico e não apenas no que respeita à sua causalidade e processamento ônticos. O irromper fisiológico da ANGÚSTIA só é possível porque a presença [Dasein], no fundo de seu ser, se angustia. STMSC: §40 Ainda mais raras do que o fato existenciário da ANGÚSTIA propriamente dita são as tentativas de interpretação desse fenômeno em sua constituição e função ontológico-existencial. As razões disso residem, em parte, no desprezo pela análise existencial da presença [Dasein] em geral e, em particular, na desconsideração do fenômeno da disposição. No entanto, que o fenômeno da ANGÚSTIA mostre-se raro, isso não é capaz de retirar a inclinação de assumir uma função metodológica de princípio para a analítica existencial. Ao contrário, a raridade do fenômeno é um indício de que, em sua propriedade, a presença [Dasein] permanece encoberta para si mesma em vista da interpretação pública do impessoal e que, nessa disposição fundamental, abre-se para um sentido originário. STMSC: §40 Pertence, na verdade, à essência de toda disposição abrir, cada vez, todo o ser-no-mundo, segundo todos os seus momentos constitutivos (mundo, ser-em, ser-próprio). Só na ANGÚSTIA subsiste a possibilidade de uma abertura privilegiada uma vez que ela singulariza. Essa singularização retira a presença [Dasein] de sua decadência, revelando-lhe a propriedade e impropriedade como possibilidades de seu ser. Na ANGÚSTIA, essas possibilidades fundamentais da presença [Dasein], que é sempre minha {CH: não egoisticamente, mas lançado para assumir}, mostram-se como elas são em si mesmas, « sem se deixar desfigurar pelo ente intramundano a que, numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a presença [Dasein] se atém. STMSC: §40 Em que medida, com essa interpretação existencial da ANGÚSTIA, conquistou-se um solo fenomenal capaz de responder à questão diretriz sobre o ser da totalidade do todo estrutural da presença [Dasein]? STMSC: §40 A fim de se apreender ontologicamente a totalidade do todo estrutural, deve-se questionar, em primeiro lugar, se o fenômeno da ANGÚSTIA e o que nela se abre podem propiciar fenomenalmente, de maneira igualmente originária, o todo da presença [Dasein], de modo a satisfazer com esses dados a visão indagadora da totalidade. Todo o seu acervo pode ser registrado através de uma enumeração formal: enquanto disposição, o angustiar-se é um modo de ser-no-mundo; a ANGÚSTIA se angustia com o ser-no-mundo lançado; a ANGÚSTIA se angustia por poder ser-no-mundo. Em sua completude, o fenômeno da ANGÚSTIA mostra, portanto, a presença [Dasein] como ser-no-mundo que existe faticamente. Os caracteres ontológicos fundamentais desse ente são existencialidade, facticidade e decadência. Essas determinações existenciais, no entanto, não são partes integrantes de um composto em que se pudesse ou não prescindir de alguma. Ao contrário, nelas se tece um nexo originário que constitui a totalidade procurada do todo estrutural. Na unidade dessas determinações ontológicas da presença [Dasein] é que se poderá apreender ontologicamente o seu ser como tal. Como se deve caracterizar essa unidade em si mesma? STMSC: §41 A presença [Dasein] é um ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser. Na constituição de ser do compreender, o “estar em jogo” evidenciou-se como o ser que se projeta para o poder-ser mais próprio. Esse poder-ser é o em virtude de, onde a presença [Dasein] é sempre como ela é. Em seu ser, a presença [Dasein] já sempre se conjugou com uma possibilidade de si mesma. É na ANGÚSTIA que a liberdade de ser para o poder-ser mais próprio e, com isso, para a possibilidade de propriedade e impropriedade mostra-se numa concreção originária e elementar. Do ponto de vista ontológico, porém, ser para o poder-ser mais próprio significa: em seu ser, a presença [Dasein] já sempre antecedeu a si mesma. A presença [Dasein] já está sempre “além de si mesma”, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser para o poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica essencial do “estar em jogo” como o anteceder-a-si-mesmo da presença [Dasein]. STMSC: §41 Essa estrutura, porém, diz respeito ao todo da constituição da presença [Dasein]. Esse anteceder-a-si-mesma não significa uma espécie de tendência isolada num “sujeito” sem mundo, mas caracteriza o ser-no-mundo. Pertence a esse ser-no-mundo, contudo, que, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se tenha lançado em um mundo. É na ANGÚSTIA que o abandono da presença [Dasein] a si mesma se mostra em sua concreção originária. Apreendido em sua plenitude, o anteceder-a-si-mesma da presença [Dasein] diz: anteceder-a-si-mesma-no-já-ser-em-um-mundo. Vendo-se fenomenalmente essa estrutura em sua unidade de essência, evidencia-se também o que foi anteriormente exposto na análise da mundanidade. Lá se obteve que a totalidade referencial da significância que, como tal, constitui a mundanidade, ancora-se num em-virtude-de (Worum-willen). O acoplamento da totalidade referencial, das múltiplas remissões do “para-quê” ao que está em jogo na presença [Dasein] não significa a fusão de um “mundo” simplesmente dado de objetos com um sujeito. Ao contrário, é a expressão fenomenal da constituição da presença [Dasein] em seu todo originário, cuja totalidade foi agora explicitada como um anteceder-a-si-mesma no já ser em… Em outras palavras: existir é sempre fático. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade. STMSC: §41 E, por conseguinte, o existir fático da presença [Dasein] não está apenas lançado indiferentemente num poder-ser-no-mundo, mas já está sempre empenhado no mundo das ocupações. Nesse ser junto a…, que constitui a decadência, anuncia-se, explicitamente ou não, compreendida ou não, uma fuga da estranheza que, na maior parte das vezes, permanece encoberta pela ANGÚSTIA latente, uma vez que o caráter público do impessoal reprime toda e qualquer não familiaridade. Na decadência, o ser junto ao manual intramundano da ocupação acha-se essencialmente incluído no anteceder-a-si-mesma-no-já-ser-em-um-mundo. STMSC: §41 É na disposição da ANGÚSTIA que o estar-lançado na morte se desvela para a presença [Dasein] de modo mais originário e penetrante. STMSC: §50 A ANGÚSTIA com a morte é ANGÚSTIA “com” o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. STMSC: §50 O porquê dessa ANGÚSTIA é o puro e simples poder-ser da presença [Dasein]. STMSC: §50 Não se deve confundir a ANGÚSTIA com a morte e o medo de deixar de viver. STMSC: §50 Enquanto disposição fundamental da presença [Dasein], a ANGÚSTIA não é um humor “fraco”, arbitrário e casual de um indivíduo singular e sim a abertura de que, como ser-lançado, a presença [Dasein] existe para seu fim. STMSC: §50 O impessoal não permite a coragem de se assumir a ANGÚSTIA com a morte. STMSC: §51 O impessoal ocupa-se em reverter essa ANGÚSTIA num medo frente a um acontecimento que advém. STMSC: §51 Ademais, considera-se a ANGÚSTIA, que no medo se torna ambígua, uma fraqueza que a presença [Dasein] segura de si mesma deve desconhecer. STMSC: §51 Com a disposição cotidiana caracterizada por um empenho “angustiado” nas ocupações e aparentemente sem ANGÚSTIA frente ao “fato” certo da morte, a cotidianidade admite uma certeza “superior” àquela meramente empírica. STMSC: §52 A ANGÚSTIA, porém, é a disposição que permite que se mantenha aberta a ameaça absoluta e insistente de si mesmo, que emerge do ser mais próprio e singular da presença [Dasein]. STMSC: §53 Na ANGÚSTIA, a presença [Dasein] dispõe-se frente ao nada da possível impossibilidade de sua existência. STMSC: §53 A ANGÚSTIA se angustia pelo poder-ser daquele ente assim determinado, abrindo-lhe a possibilidade mais extrema. STMSC: §53 Porque o antecipar simplesmente singulariza a presença [Dasein] e, nessa singularização, torna certa a totalidade de seu poder-ser, a disposição fundamental da ANGÚSTIA pertence ao compreender de si mesma, própria da presença [Dasein]. STMSC: §53 O ser-para-a-morte é, essencialmente, ANGÚSTIA {CH: mas não apenas ANGÚSTIA e muito menos ANGÚSTIA como mera emoção}. STMSC: §53 Isso é testemunhado, de modo indubitável, embora “apenas” indireto, pelo ser-para-a-morte já caracterizado, quando a ANGÚSTIA se faz medo covarde e, superando, denuncia a covardia à ANGÚSTIA. STMSC: §53 A estranheza desvela-se propriamente na disposição fundamental da ANGÚSTIA e, enquanto abertura mais elementar da presença [Dasein] lançada, coloca o seu ser-no-mundo diante do nada do mundo com o qual ela se angustia na ANGÚSTIA por seu poder-ser mais próprio. STMSC: §57 O que ainda lhe resta senão o poder-ser de si mesma, desvelado na ANGÚSTIA? STMSC: §57 Só o apelo sintonizado pela ANGÚSTIA possibilita que a presença [Dasein] se projete para o seu poder-ser mais próprio. STMSC: §57 A estranheza também desvelada no compreender abre-se, de modo genuíno, pela disposição da ANGÚSTIA que lhe pertence. STMSC: §60 Em seu fato, a ANGÚSTIA da consciência é uma confirmação fenomenal de que, no compreender do apelo, a presença [Dasein] é colocada diante da estranheza de si mesma. STMSC: §60 O querer-ter-consciência transforma-se na prontidão para a ANGÚSTIA. STMSC: §60 A abertura da presença [Dasein] subsistente no querer-ter-consciência é constituída, portanto, pela disposição da ANGÚSTIA, pela compreensão enquanto projetar-se para o ser e estar em dívida mais próprio e pela fala enquanto silenciosidade. STMSC: §60 A indeterminação da morte entreabre-se, originariamente, na ANGÚSTIA. STMSC: §62 Essa ANGÚSTIA originária, porém, aspira a dispor-se à decisão. STMSC: §62 O nada trazido pela ANGÚSTIA desvela a nulidade que determina o fundamento da presença [Dasein] que, por sua vez, é enquanto estar-lançado na morte. STMSC: §62 Junto com a ANGÚSTIA sóbria que leva para a singularidade do poder-ser, está a alegria mobilizada dessa possibilidade. STMSC: §62 Já salientamos que os humores, não obstante conhecidos do ponto de vista ôntico, não são reconhecidos em sua função existencial originária. São considerados vivências fugazes que “dão cor” a todo o “estado d’alma”. O que, para uma simples observação, não passa de um aparecer e desaparecer fugaz pertence, no entanto, à consistência originária da existência. Mas o que pode haver de comum entre os humores e o “tempo”? Que estas “vivências” vêm e vão, que elas transcorrem “no tempo”, é uma constatação trivial; sem dúvida, e, na verdade, uma constatação ôntico-psicológica. A tarefa consiste, porém, em demonstrar a estrutura ontológica da afinação do humor em sua concreção existencial e temporal. Numa primeira aproximação, isso pode apenas significar: tornar visível, ao menos uma vez, a temporalidade do humor. A tese segundo a qual “disposição funda-se, primariamente, no vigor de ter sido” diz que o caráter existencial básico do humor é uma recolocação em… A recolocação não produz o vigor de ter sido, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigor de ter sido. A interpretação temporal da disposição não pode, portanto, pretender deduzir os humores da temporalidade e dissolvê-los em puros fenômenos de temporalização. Trata-se apenas de comprovar que os humores, no que e no modo em que “significam” existenciariamente, só são possíveis com base na temporalidade. A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do medo e da ANGÚSTIA. STMSC: §68 Como a temporalidade da ANGÚSTIA se comporta frente à temporalidade do medo? Chamamos este fenômeno de disposição fundamental. Ela coloca a presença [Dasein] diante de seu estar-lançado mais próprio, desvelando a estranheza do ser-no-mundo cotidiano e familiar. Assim como o medo, a ANGÚSTIA também se determina formalmente por um com quê e um pelo quê a ANGÚSTIA se angustia. A análise mostrou, no entanto, que estes dois fenômenos coincidem. Isto não significa, porém, que os caracteres estruturais do com quê e pelo quê se confundem no sentido de que a ANGÚSTIA não se angustiaria nem com e nem por alguma coisa. A coincidência entre o com quê e o pelo quê deve significar que é um e o mesmo o ente que os realiza, ou seja, a presença [Dasein]. Especificamente, o com quê a ANGÚSTIA se angustia vem ao encontro não como algo determinado numa ocupação. A ameaça não provém do que está à mão e do que é simplesmente dado mas, sobretudo e justamente, de que tudo que está à mão e é simplesmente dado já não “diz” absolutamente nada. Não estabelece mais nenhuma conjuntura com o ente do mundo circundante. O mundo, no contexto do qual eu existo, afundou na insignificância, e o mundo que, dessa forma, se abre só é capaz de liberar entes sem conjuntura. O nada do mundo, com o que a ANGÚSTIA se angustia, não significa que, na ANGÚSTIA, se faça a experiência de uma ausência de seres simplesmente dados dentro do mundo. É preciso que eles venham ao encontro para que não estabeleçam nenhuma conjuntura e possam, assim, mostrar-se numa impiedade vazia. Isso significa, porém, que o aguardar da ocupação não encontra mais nada a partir do qual possa compreender-se. Ele agarra o nada do mundo; deparando-se com o mundo, porém, o compreender é trazido pela ANGÚSTIA para o ser-no-mundo como tal, de maneira que esse com quê a ANGÚSTIA se angustia é, também, o seu por quê. O angustiar-se com alguma coisa não possui nem o caráter de espera, nem de aguardar. O com quê a ANGÚSTIA se angustia já está “pre-sente” [»da«], é a própria presença [Dasein]. Será que a ANGÚSTIA não se constitui pelo porvir? Sem dúvida, mas não pelo porvir impróprio do aguardar. STMSC: §68 A insignificância do mundo, aberta na ANGÚSTIA, desvela a nulidade das ocupações, a impossibilidade de projetar-se um poder-ser da existência primariamente fundado na ocupação. Desvelar essa impossibilidade significa, porém, deixar vir à luz a possibilidade de um poder-ser próprio. Que sentido temporal possui esse desvelar? A ANGÚSTIA angustia-se pela presença [Dasein] nua e crua, enquanto lançada na estranheza. Ela recoloca o puro que (se é) do estar-lançado mais próprio e singular. Esse recolocar não tem o caráter de um esquecer que se esquiva e nem tampouco de uma recordação. A ANGÚSTIA, porém, também não implica um assumir que retoma a existência na decisão. A ANGÚSTIA, bem ao contrário, recoloca o estar-lançado enquanto possível de ser retomado. E isso a tal ponto que ela também desvela a possibilidade de um poder-ser próprio que, entendido como porvindouro, deve retornar, na retomada, para o “pre” [das Da] que está lançado. Colocar-se diante da possibilidade de retomada é o modo ekstático específico do vigor de ter sido, constitutivo da disposição da ANGÚSTIA. STMSC: §68 O esquecer, inerente ao medo, conturba, deixando a presença [Dasein] perdida em meio a possibilidades “mundanas” não apreendidas. Diante desta atualização que não se sustenta, a atualização da ANGÚSTIA se mantém na recolocação do estar-lançado mais próprio. De acordo com seu sentido existencial, a ANGÚSTIA não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, trata-se então do medo que o entendimento cotidiano confunde com a ANGÚSTIA. Embora a atualidade da ANGÚSTIA se mantenha, ela ainda não possui o caráter do instante, que se temporaliza na decisão. A ANGÚSTIA só conduz para o humor de uma decisão possível. Sua atualidade mantém o instante, em que ela mesma e somente ela é possível, num salto. STMSC: §68 A possibilidade de apoderar-se, que distingue o humor da ANGÚSTIA, comprova-se na temporalidade específica da ANGÚSTIA por ela fundar-se, originariamente, no vigor de ter sido e porque somente a partir dele é que se temporalizam porvir e atualidade. Nele, a presença [Dasein] retoma inteiramente a nudez de sua estranheza e é por ela possuída. Esta possessão não só toma de volta a presença [Dasein] das possibilidades “mundanas”, mas também lhe dá a possibilidade de um poder-ser próprio. STMSC: §68 Ambos os humores do medo e da ANGÚSTIA, no entanto, nunca “ocorrem” apenas isoladamente no “fluxo das vivências”, mas sempre de-terminam o humor de um compreender ou de-terminam para si o humor a partir de um compreender. O medo encontra seu ensejo nos entes que vêm ao encontro no mundo circundante. A ANGÚSTIA, ao contrário, surge da própria presença [Dasein]. O medo sobrevêm a partir do intramundano. A ANGÚSTIA cresce a partir do ser-no-mundo enquanto ser-lançado-para-a-morte. Em seu sentido temporal, este “crescer” da ANGÚSTIA, a partir da própria presença [Dasein], significa que o porvir e a atualidade da ANGÚSTIA se temporalizam a partir de um vigor de ter sido originário, entendido como recolocar a possibilidade de retomada. A ANGÚSTIA, no entanto, só pode “crescer” propriamente numa presença [Dasein] decidida. Embora o decidido desconheça o medo, ele compreende precisamente a possibilidade de ANGÚSTIA como possibilidade do humor que nem inibe e nem conturba. Ao contrário, libera de possibilidades “nulas”, tornando-o livre para as possibilidades próprias. STMSC: §68 Embora ambos os modos da disposição, medo e ANGÚSTIA, estejam fundidos primariamente num vigor de ter sido, na totalidade da cura, a sua temporalização própria tem, cada vez, uma origem diferente. A ANGÚSTIA surge do porvir da decisão. O medo surge da atualidade perdida que, medrosamente, tem medo do medo, para então nele decair. STMSC: §68 Mas será que, talvez, a tese da temporalidade dos humores não valha apenas no caso dos fenômenos escolhidos para a análise? Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o “cotidiano cinzento”? E o que dizer da temporalidade dos humores e afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade? Que não apenas o medo e a ANGÚSTIA mas também outros fenômenos estão existencialmente fundados num vigor de ter sido, isso se mostra, claramente, quando nomeamos fenômenos tais que tédio, tristeza, melancolia e desespero. Sem dúvida, sua interpretação deve fazer-se com base numa analítica mais ampla da presença [Dasein], elaborada existencialmente. Mas também um fenômeno como a esperança, que parece totalmente fundada no porvir, deve ser analisado de forma correspondente à análise do medo. Em oposição ao medo, que se relaciona a um malum futurum, costuma-se caracterizar a esperança como espera de um bonum futurum. Para a estrutura do fenômeno, porém, o decisivo não é tanto o caráter “futuro” daquilo a que a esperança está relacionada mas, sobretudo, o sentido existencial do próprio ter esperança. Também aqui o caráter de humor reside, primariamente, em ter esperança enquanto ter esperança-para-si. Aquele que tem esperança carrega, por assim dizer, a si mesmo para dentro da esperança, contrapondo-se ao que é esperado. Isso pressupõe, no entanto, um ter-se-conquistado. Que a esperança, em oposição ao medo que abate, alivia diz apenas que também essa disposição permanece referida ao peso de uma carga, no modo de ser o ter sido. Do ponto de vista ontológico, o humor exaltado, ou melhor, exaltante só é possível numa remissão ekstático-temporal da presença [Dasein] ao fundamento-lançado de si mesma. STMSC: §68

Submitted on:  Fri, 03-Sep-2021, 05:03