abismo

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

abismo

Ab-grund

Mas o ser-aí deve, na ultrapassagem do ente que projeta mundo, ultrapassar-se a si mesmo, para apenas então poder compreender-se como abismo a partir de sua elevação. E esta abissalidade do ser-aí não é, por sua vez, nada do que se abriria para uma dialética ou uma análise psicológica. A abertura do abismo na transcendência fundante é muito antes um movimento primordial, que a liberdade realiza conosco mesmo, "dando-nos a entender" com isto, isto é, antecipando-nos como originário conteúdo de mundo, de que este, quanto mais originariamente é fundado, com tanto mais simplicidade atinge o coração do ser-aí, sua mesmidade no agir. A não-essência (o elemento perturbador) do fundamento é, por conseguinte, unicamente "superada" no existir fático, mas nunca afastada.
Se, entretanto, a transcendência, no sentido da liberdade para o fundamento, é, em primeira e última análise, compreendida como abismo, então se agudiza, por conseguinte, também a essência daquilo que foi denominado a ocupação do ser-aí no e pelo ente. O ser-aí - ainda que situado em meio ao ente e por ele perpassado pela disposição - está jogado como livre poder-ser entre os entes. O fato de ser, segundo a possibilidade, um mesmo e sê-lo em correspondência fática com sua liberdade; o fato de a transcendência se temporalizar como acontecer originário, não está no poder desta liberdade mesma. Tal impotência (derelicção), porém, não é primeiro o resultado da invasão do ser-aí pelo ente, mas ela determina o ser do ser-aí como tal. Todo projeto de mundo é, por isso, jogado. A explicitação da essência da finitude do ser-aí a partir de sua constituição ontológica deve preceder a toda base "óbvia" da "natureza" finita do homem, a toda descrição de qualidades que somente são consequências da finitude, e, por último, a todos os "esclarecimentos" sobre a origem ôntica da mesma.

A essência da finitude do ser-aí se desvela, porém, na transcendência como liberdade para o fundamento.

E assim é o homem, enquanto transcendência existente excedendo-se em possibilidades, um ser da distância. Somente através de distâncias originárias, que em sua transcendência ele se forja para com todo o ente, começa a ascender dentro dele a verdadeira proximidade para com as coisas. E só o ser capaz de abrir os ouvidos para a distância temporaliza para o ser-aí como mesmo o despertar da resposta da co-existência (Mitdasein) no ser-com (Mitsein) com o qual ele pode sacrificar a egoidade para se conquistar como o autêntico mesmo. [MHeidegger SOBRE A ESSÊNCIA DO FUNDAMENTO]

Submitted on:  Sat, 23-Oct-2010, 18:21