apropriados

Category: Heidegger em português
Submitter: Murilo Cardoso de Castro

apropriados

A este modo de Kant proceder deve se adaptar a exposição que segue. Orienta-a a intenção de mostrar como, através de todas as elucidações de Kant, isto é, através de sua postura filosófica fundamental, em qualquer parte de sua obra, se filtra o pensamento axial de sua tese, isto acontece, apesar de ela não formar o arcabouço propriamente construído da arquitetônica de sua obra. Por isso, o procedimento aqui seguido visa a contrapor de tal maneira os textos apropriados que estes se eliminem reciprocamente e que através disto chegue a manifestar-se aquilo que não pode ser expresso de maneira imediata. MHeidegger: A TESE DE KANT SOBRE O SER

Agora finalmente mostra-se: O que vincula ambas as questões mutuamente, aquilo que conduz ambas as questões não apenas para o interior daquilo que lhes é próprio, mas que as conserva em sua comum-unidade e ali as sustenta, a relação de ambas as questões, o estado de coisas, é o Ereignis. O estado de coisas não se vem juntar posteriormente, como uma relação construída, a ser e tempo. O estado de coisas faz com que primeiramente ser e tempo aconteçam a partir de sua relação e no íntimo do que lhes é próprio; e isto através do acontecer apropriados que se oculta no destino e no alcançar iluminados. De acordo com isto, manifesta-se o "Se" que dá, no "dá-Se ser", "dá-Se tempo", como o Ereignis. A afirmação é certa, e, contudo, inveridica, isto é, nos esconde o estado de coisas; pois, inadvertidamente, representamo-lo como algo que se presença, enquanto precisamente procuramos pensar a presença como tal. Mas talvez fiquemos de uma só vez libertos de todas as dificuldades, de todas as análises importunas e aparentemente estéreis, se levantarmos a simples questão, já por demais madura, e a respondermos: Que é o Ereignis? MHeidegger: TEMPO E SER

"Ser enquanto o Ereignis" - outrora pensou a Filosofia o ser enquanto idéa, enquanto enérgeia, enquanto actualitas, enquanto vontade, sempre a partir do ente, e agora-poder-seria dizer-pensa o ser enquanto Ereignis. Assim compreendido, Ereignis significa uma explicação derivada do ser, a qual, caso apresente foros de legitimidade, representa a continuação da metafísica. O "enquanto" significa neste caso: Ereignis como uma espécie de ser, subordinado ao ser, que constitui o conceito central ainda retido. Pensemos, contudo, como foi tentado, ser no sentido de presentar e presentificar, que se dão no destino, o qual, por sua vez, repousa no iluminados-velador alcançar do tempo autêntico, então o ser faz parte do acontecer apropriados. É dele que o dar e o seu dom recebem sua determinação. Nesse caso o ser seria uma espécie de Ereignis e não o Ereignis uma espécie de ser. MHeidegger: TEMPO E SER

Mas o refúgio numa tal inversão seria pouco séria. Esta falseia o verdadeiro estado de coisas. Ereignis não é conceito supremo abarcador, sob o qual seria possível inserir ser e tempo. Relações lógicas de ordem não dizem nada aqui. Pois, ao meditarmos sobre o próprio ser e perseguirmos o que lhe é próprio, mostra-se ele como o dom do destino de presença garantido pelo alcançar do tempo. O dom do presentar é propriedade do acontecer-apropriando. Ser desaparece no Ereignis. Na expressão: "Ser enquanto o Ereignis", o "enquanto" quer agora dizer: Ser, presentificar destinado no acontecer que apropria, tempo alcançado no acontecer que apropria. Tempo e ser acontecem apropriados no Ereignis. E quanto a este mesmo? Pode-se dizer mais do Ereignis? MHeidegger: TEMPO E SER

Durante a exposição já foi pensado mais, mas não foi propriamente dito, a saber, o seguinte: que ao dar como destinar pertence a suspensão, isto é, no alcançar do passado e do porvir acontece o jogo da recusa do presente e da retenção de presente. O agora nomeado: suspensão, recusa, retenção, mostra algo como subtrair-se, em resumo: a retração. Mas na medida em que os modos de dar por ele determinados, o destinar e o alcançar, residem no acontecer apropriados, deve a retração fazer parte do que é específico do Ereignis. Analisá-lo não é mais tarefa desta conferência. MHeidegger: TEMPO E SER

Na medida em que agora destino do ser reside no alcançar do tempo e este com aquele residem no Ereignis, manifesta-se, no acontecimento-apropriador, o elemento específico: ele subtrai o que lhe é mais próprio ao desvelamento sem limites. Pensando a partir do acontecer apropriados, isto quer dizer: Ele se des-apropria, no sentido mencionado de si mesmo. Do Ereignis enquanto tal faz parte a Enteignis, o não-acontecer desapropriados. Através deste último o Ereignis não se abandona, mas guarda sua propriedade. MHeidegger: TEMPO E SER

Na medida em que ser e tempo só se dão no acontecer apropriados, deste faz parte o elemento característico que consiste em levar o homem, como aquele que percebe ser, in-sistindo no tempo autêntico, ao interior do que lhe é próprio. Assim apropriado, o homem pertence ao Ereignis. MHeidegger: TEMPO E SER

Na medida em que tempo, tanto quanto ser, enquanto dons do acontecer apropriados, somente podem ser pensados a partir deste, deve também ser pensada, de maneira correspondente, a relação do espaço com o Ereignis. Isto naturalmente só pode ter sucesso se antes tivermos visto claramente a origem do espaço, a partir do que é específico do lugar suficientemente pensado (cf. "Construir, Morar, Pensar", 1951, em Ensaios e Conferências, 1954, p. 145 ss.). MHeidegger: TEMPO E SER

Assim diz-se na conferência sobre a identidade, caso for pensada partindo de seu final, o que o Ereignis acontece e apropria, isto é, o que conduz para o interior do que é próprio e mantém no Ereignis: a saber, o comum-pertencer de ser e homem. Neste comum-pertencer não são mais então ser e homem os que pertencem a uma comum-unidade, mas - enquanto acontecidos e apropriados - os mortais na quaternidade do mundo. Do acontecido e apropriado, da quaternidade, falam, cada uma a seu modo, a conferência Terra e Céu de Hölderlin (Anuário de Höderlin, 1960, pp. 17 ss.) e a conferência A Coisa. Também tudo que foi dito sobre a linguagem como dizer, como "saga", refere-se a isto (A Caminho da Linguagem, 1959). MHeidegger: PROTOCOLO DO SEMINÁRIO SOBRE A CONFERÊNCIA "TEMPO E SER"

Submitted on:  Mon, 28-May-2007, 12:46