
reflexão
Category: Heidegger - Ser e Tempo etc.
Submitter: mccastro
reflexão
reflexio, Überlegung
Subjetividade, objeto e reflexão pertencem entre si. Somente quando se faz a experiência da reflexão como tal, ou seja, como a referência que carrega para o ente, pode-se determinar ser como objetividade.
Enquanto essa referência, a experiência da reflexão traz, porém, a suposição de que a referência (Bezug) é experienciada como repraesentatio: como re-apresentação (vor-stellen).
Isso, no entanto, só se torna destinal quando idea se transforma em perceptio. Esse tornar-se repousa na transformação da verdade entendida como adequação em verdade entendida como certeza, na qual mantém sempre a adequatio. Como auto-asseguramento (querer a si mesmo), a certeza é iustitia, é justificação da referência ao ente e sua causa primeira e, assim, da copertinência ao ente. Na acepção conferida pela Reforma, a iustificatio e o conceito nietzscheano de justiça como verdade são o mesmo.
Em sua essência, a repraesentatio fundamenta-se na reflexio. Por isso, a essência da objetividade como tal só se abre manifestativamente se reconhece a essência e dá um acabamento próprio ao pensamento como o "eu penso alguma coisa", isto é, como reflexão. [GA7]
No que concerne àquilo com que se lida, a análise do modo de lidar recebe a indicação de que o ser existente junto a entes de ocupação não se orienta por um instrumento isolado à mão, mas sim pelo todo instrumental. Também a
REFLEXÃO sobre o caráter ontológico privilegiado do instrumento à mão, isto é, a conjuntura, obrigou a esta apreensão daquilo com que se lida, inerente a todo modo de lidar. O termo conjuntura é compreendido ontologicamente. Quando se diz: seu conjunto se deixa e se faz junto com alguma coisa, o que se pretende não é constatar onticamente uma conjuntura de fatos mas acenar para o modo de ser do que está à mão. O caráter remissivo da conjuntura, do “com… junto…”, indica que, do ponto de vista ontológico, um instrumento isolado é impossível. Sem dúvida, pode acontecer que um único instrumento esteja à mão e “falte” o outro. Mas o que isso anuncia é a pertinência deste manual a um outro. O modo de lidar da ocupação só pode deixar que um manual venha ao encontro numa circunvisão, caso já se compreenda a conjuntura, isto é, que sempre algo está junto com algo. O ser junto a… da ocupação, que descobre numa circunvisão, é um deixar e fazer em conjunto, ou seja, um projeto que compreende a conjuntura. Se o deixar e fazer em conjunto constitui a estrutura existencial da ocupação e esta, enquanto ser junto a…, pertence à constituição essencial da cura que, por sua vez, se funda na temporalidade, então se deve buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade. STMSC: §69
A circunvisão movimenta-se nas remissões conjunturais de um nexo instrumental à mão. Ela própria, por sua vez, é submetida à direção de uma supervisão, mais ou menos explícita, do todo instrumental de cada mundo de instrumentos e de seu correspondente mundo circundante público. A supervisão não é apenas um ajuntamento posterior de seres simplesmente dados. O essencial da supervisão é a compreensão primária da totalidade conjuntural, dentro da qual a ocupação de fato sempre se coloca. A supervisão, que ilumina a ocupação, recebe sua “luz” do poder-ser da presença [Dasein], em virtude do qual a ocupação existe como cura. Através de uma interpretação do que se vê, a circunvisão “supervisora”, própria da ocupação, coloca mais perto da presença [Dasein] aquilo que, em cada uso e manejo, está à mão. Chamamos de
REFLEXÃO a aproximação específica que interpreta, numa circunvisão, aquilo de que se ocupa. O seu esquema característico é: “se-então”, se isto ou aquilo, por exemplo, deve-se produzir, deve ser retirado do uso ou guardado, então se faz necessário este ou aquele meio, caminho, circunstância e ocasião. A
REFLEXÃO guiada pela circunvisão ilumina cada posição fática da presença [Dasein] em seu mundo circundante de ocupações. Ela nunca é, portanto, mera “constatação” do ser simplesmente dado de um ente ou de suas propriedades. A
REFLEXÃO também pode realizar-se sem que aquilo mesmo que se aproxima numa circunvisão esteja ao alcance da mão ou vigente no campo mais próximo da visão. Este colocar mais perto o mundo circundante, na
REFLEXÃO guiada pela circunvisão, tem o sentido existencial de uma atualização. Pois o tornar atual é somente um modo daquela. Nela, a
REFLEXÃO visa diretamente às necessidades que não estão à mão. A circunvisão que torna atual não se refere a “meras representações”. STMSC: §69
A atualização, guiada pela circunvisão, é, no entanto, um fenômeno de múltiplos fundamentos. De início, ela sempre pertence a uma unidade ekstática plena da temporalidade. Seu fundamento é reter o nexo instrumental. Ocupando-se deste, a presença [Dasein] aguarda uma possibilidade. O que já se abriu, nesse reter que aguarda, coloca mais perto a atualização ou o tornar atual reflexivos. No entanto, para que a
REFLEXÃO possa mover-se no esquema do “se-então”, é preciso que a ocupação já compreenda, “numa supervisão”, o nexo da conjuntura. Aquilo que é interpelado como o “se” já deve ser compreendido como isto ou aquilo. Para tanto, é necessário que a compreensão do instrumento se exprima numa predicação. O esquema “algo como algo” já está prelineado na estrutura do compreender pré-predicativo. A estrutura-como funda-se, ontologicamente, na temporalidade do compreender. Aguardando uma possibilidade, ou seja, aqui, aguardando um para quê, a presença [Dasein] volta a um ser para isso, o que significa: a presença [Dasein] retém um manual. Somente por isso é que, a partir do que foi retido, a atualização inerente a esse reter que aguarda pode, inversamente, colocá-lo, de modo explícito, mais perto em sua referencialidade ao para quê. No esquema da atualização, a
REFLEXÃO aproximadora deve adequar-se ao modo de ser daquilo que deve ser aproximado. Pela
REFLEXÃO, o caráter de conjuntura do que está à mão não é descoberto mas apenas aproximado, de tal maneira que a
REFLEXÃO faz ver como tal, numa circunvisão, aquilo junto com o que algo está em conjunto. STMSC: §69
Mas em que a caracterização temporal da
REFLEXÃO, guiada pela circunvisão, e de seus esquemas contribui para responder à questão em suspenso sobre a gênese da atitude teórica? Contribui apenas para esclarecer a situação, dotada do caráter de presença [Dasein], em que a ocupação, guiada pela circunvisão, transforma-se em descoberta teórica. A própria análise da transformação deve ser investigada sob o fio condutor de um enunciado elementar característico da
REFLEXÃO, guiada pela circunvisão, e de suas possíveis modificações. STMSC: §69
No uso de uma ferramenta, guiado por uma circunvisão, podemos dizer: o martelo é muito pesado ou muito leve. Também a frase: o martelo é pesado, pode exprimir uma
REFLEXÃO da ocupação e significar: ele não é leve, ou seja, exige força para o seu manejo ou ainda que ele dificulta o manejo. Mas a frase também pode dizer: o ente que aqui se encontra e que, numa circunvisão, já conhecemos como martelo, tem um peso, isto é, a “propriedade” de ser pesado; ele exerce uma pressão sobre o seu suporte; afastando-se do apoio, ele cai. Assim compreendida, esta fala não mais se pronuncia no horizonte do reter que aguarda, inerente a um todo instrumental e a suas remissões de conjuntura. O que se disse foi retirado, com vistas ao que é próprio de um ente “maciço” como tal. O que agora se vê já não é próprio do martelo como ferramenta de trabalho e sim do martelo como coisa corpórea, subordinada à lei da gravidade. A fala de “muito pesado” ou “muito leve”, guiada por uma circunvisão, não possui agora mais nenhum sentido, ou seja, o ente que agora vem ao encontro não oferece, nele mesmo, nada mais com referência a que algo possa ser “considerado” muito pesado ou muito leve. STMSC: §69
Por que, na fala modificada, aquilo sobre o que se fala, no caso o martelo pesado, se mostra diferentemente? Isto não se deve nem a um afastamento do manuseio e nem a uma mera desconsideração do caráter instrumental deste ente, mas sim a uma “nova” reconsideração do manual que vem ao encontro como algo simplesmente dado. A compreensão de ser, que orienta o modo de lidar na ocupação com o ente intramundano, transformou-se. Mas será que uma atitude científica já se constitui por se “conceber” como simplesmente dado algo que, numa
REFLEXÃO guiada pela circunvisão, está à mão? Ademais, um manual pode também converter-se em tema de investigação e determinação científicas como, por exemplo, a pesquisa de um mundo circundante, do ambiente dentro de uma biografia histórica. O nexo instrumental à mão todos os dias, sua origem histórica, sua valorização e seu papel fático na presença [Dasein], faz-se objeto da economia como ciência. Para poder tornar-se “objeto” de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão de ser não parece ser um constitutivo necessário da gênese da atitude teórica “frente às coisas”. Certamente, caso modificação signifique: troca do modo de ser deste ente que aí se encontra tal como o compreender o compreende. STMSC: §69
E uma
REFLEXÃO sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. STMSC: §77
Submitted on: Thu, 02-Sep-2021, 19:26