essenciação

Category: Heidegger - Ser e Tempo etc.
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essenciação

Wesung Mesmo aqui, porém, como em um exercício preparatório, precisamos tentar aquele dizer pensante da filosofia que advém de um outro início. Quanto a ele vale o seguinte: esse dizer nem descreve nem explica, nem anuncia nem instrui; não se tem aqui o dizer ante o que tem para ser dito, mas o dizer é ele mesmo como a ESSENCIAÇÃO do seer. Esse dizer reúne o seer em uma primeira ressonância de sua essência e só soa mesmo a partir dessa essência. [tr. Casanova; GA65: 1] O outro início do pensamento é assim denominado não porque possua uma forma diversa da que possuia qualquer outra filosofia até aqui, mas porque precisa ser o unicamente outro a partir da ligação com o início unicamente uno e primeiro. A partir dessa articulação mútua de um início com o outro já está também determinado o modo da meditação pensante característico da transição. O pensamento inserido na transição empreende o projeto fundante da verdade do seer como uma meditação histórica. A história não é aí o objeto e a circunscrição de uma consideração, mas aquilo que o questionar pensante primeiramente desperta e obtém como o sítio de suas decisões. O pensamento no interior da transição coloca o primeiro movimento de ESSENCIAÇÃO do seer da verdade e o porvir mais extremo da verdade do seer em discussão e dá voz, em meio a essa discussão, à essência até aqui inquestionada do seer. No saber do pensamento inserido na transição, o primeiro início permanece decisivo como primeiro e é, entretanto, superado como início. Para esse pensamento, a reverência mais clara em relação ao primeiro início, que abre, além disso, pela primeira vez, o seu caráter único, precisa caminhar lado a lado com a ausência de um olhar para trás – uma ausência inerente à virada de outro questionar e dizer. [tr. Casanova; GA65: 1] Por vezes, aqueles fundadores do abismo precisam ser consumidos no fogo do que se guarda, para que o ser-aí venha a ser possível para o homem e, assim, seja salva a constância em meio ao ente, para que o ente mesmo experimente a restauração no aberto da contenda entre terra e mundo. Consequentemente, o ente é voltado para o interior de sua constância por meio do ocaso dos fundadores da verdade do seer. Tal movimento é exigido pelo próprio seer mesmo. Ele precisa dos que experimentam o ocaso; e, onde quer que um ente apareça, o seer já sempre se a-propriou desses fundadores que perecem em meio ao acontecimento, já sempre os atribuiu a si mesmo. Essa é a ESSENCIAÇÃO do seer mesmo: nós a denominamos o acontecimento apropriador. A riqueza da ligação volteante do seer com o ser-aí que lhe é entregue apropriadoramente é imensurável. A plenitude do acontecimento da apropriação é incalculável. E somente algo muito diminuto pode ser dito aqui “sobre o acontecimento apropriador” nesse pensar inicial. O que é dito é questionado e pensado em uma “conexão de jogo” do primeiro e do outro início a partir da “ressonância” do seer; ele é questionado e pensado em meio à indigência do abandono do ser para o “salto” em direção ao interior do seer. Esse “salto” tem por fim promover a “fundação” da verdade do seer como a preparação dos “que estão por vir” e “do último deus”. Esse dizer pensante é uma diretiva. Essa diretiva indica o livre abrigo da verdade do seer em meio ao ente como algo necessário, sem ser, contudo, uma ordem. Tal pensamento jamais pode ser transformado em uma doutrina: ele se subtrai completamente ao acaso da opinião. Além do mais, ele só dá uma diretiva aos poucos e ao seu saber, quando o que importa é o resgate dos homens da barafunda do não-ente, lançando-os para o interior da maleabilidade à junção característica de uma criação reservada dos sítios que são determinados para o passar ao largo do último deus. Mas se o acontecimento apropriador perfaz a ESSENCIAÇÃO do seer, o quão perto está, então, o perigo de que ele recuse e precise recusar o acontecimento da apropriação porque o homem perdeu a força para o ser-aí, uma vez que a violência desencadeada do desvario em meio ao gigantesco o dominou sob a aparência da “magnitude”. No entanto, se o acontecimento apropriador se tornar recusa e denegação, isso significa apenas a retração do seer e o abandono do ente ao não-ente? Ou será que a denegação (o caráter de não do seer) pode se tornar no mais extremo o mais distante acontecimento da apropriação, posto que o homem conceba esse acontecimento apropriador e o horror do pudor o recoloque na tonalidade afetiva fundamental da retenção e, com isto, já o exponha para o ser-aí? [tr. Casanova; GA65: 2] Ninguém compreende o que “eu” penso aqui: deixar o ser-aí eclodir a partir da verdade do seer (e isso significa a partir da ESSENCIAÇÃO da verdade), para fundar aí o ente na totalidade e enquanto tal; e, em meio à sua fundação, o homem. [tr. Casanova; GA65: 2] Para os poucos que de tempos em tempos perguntam uma vez mais, isto é, que colocam em decisão de maneira renovada a essência da verdade. Para os raros, que trazem consigo a mais elevada coragem para a solidão, a fim de pensar a nobreza do seer e falar de sua unicidade. O pensar no outro início é originariamente histórico de uma maneira única: o dispor autoconjuntivo sobre a ESSENCIAÇÃO do seer. Um projeto da ESSENCIAÇÃO do seer como o acontecimento apropriador precisa ser ousado porque não conhecemos a missão de nossa história. Que possamos experimentar de um modo fundamental a ESSENCIAÇÃO desse desconhecido em seu ocultar-se. Precisamos querer, porém, desdobrar esse saber, segundo o qual o desconhecido que nos é dado como tarefa deixa a vontade na solidão e, assim, obriga a existência do ser-aí à mais elevada retenção em relação ao que se oculta. [tr. Casanova; GA65: 5] A verdade do seer só se torna necessidade por meio daqueles que perguntam. Eles são os crentes propriamente ditos, porque eles se mantêm – abrindo a essência da verdade – sobre o solo. Os que perguntam – solitários e sem os artifícios de um encantamento – estabelecem a nova e suprema posição hierárquica da insistência no meio do seer, na ESSENCIAÇÃO do ser (acontecimento apropriador) como o meio. Os que questionam rejeitaram toda curiosidade, toda avidez pelo novo; sua busca ama o abismo, no qual eles sabem o mais antigo fundamento. [tr. Casanova; GA65: 5] Se algum dia uma história nos for ainda uma vez comunicada, a exposição criadora ao ente a partir do pertencimento ao ser, então é indispensável a determinação: preparar o tempo-espaço da última decisão – se e como nós experimentamos e fundamos esse pertencimento. Nisso reside: de maneira pensante fundar o saber do acontecimento apropriador, por meio da fundação da essência da verdade enquanto ser-aí. Como quer que a decisão sobre a historicidade e a falta de historicidade possa vir a ser tomada, os questionadores, que preparam de maneira pensante a decisão, precisam ser, cada um porta a solidão para o interior de sua maior hora. Que dizer realiza o mais elevado silenciamento pensante? Que procedimento efetua mais prontamente a meditação sobre o seer? O dizer da verdade; pois ele é o entre para a ESSENCIAÇÃO do seer e a entidade do ente. Esse entre funda a entidade do ente no seer. O seer, porém, não é algo “anterior” – subsistindo por si, em si –, mas o acontecimento apropriador é a coetaneidade tempo-espacial para o seer e o ente. [tr. Casanova; GA65: 5] A tonalidade afetiva fundamental do pensar no outro início oscila nas tonalidades afetivas, que à distância só se deixam nomear como o espanto – a retenção – o pressentimento – o pudor. A ligação interna entre elas só é experimentada em meio ao pensar integral das junções particulares, nas quais a fundação da verdade do seer e da ESSENCIAÇÃO da verdade precisa juntar. Para a unidade dessas tonalidades afetivas falta a palavra, e, contudo, seria necessário encontrar a palavra, a fim de evitar a fácil incompreensão em jogo em se supor que tudo estivesse colocado aqui em função de uma fraqueza covarde. É assim que o “heroísmo” barulhento deve julgar. [tr. Casanova; GA65: 5] A retenção, a tonalidade afetiva prévia da prontidão para a recusa como doação. Na retenção vigora, sem afastar nenhuma viagem de volta, o dirigir-se para o privar-se hesitante como a ESSENCIAÇÃO do seer. A retenção é o meio para o espanto e o pudor. Esses caracterizam apenas de maneira mais expressa aquilo que onginariamente lhe pertence. Ela determina o estilo do pensar inicial no outro início. [tr. Casanova; GA65: 5] Até que ponto o deus se encontra afastado de nós, aquele que nos nomeia fundadores e criadores, porque sua essência precisa de tais homens? Ele está tão afastado que nós não conseguimos decidir, se ele se movimenta em nossa direção ou se ele está se distanciando de nós. E repensar plenamente essa distância mesma em sua ESSENCIAÇÃO como o tempo-espaço da suprema decisão significa questionar acerca da verdade do seer, acerca do próprio acontecimento apropriador, do qual toda história futura provém, se é que ainda haverá história. Essa distância da indecidibilidade do mais externo e do primeiro é o iluminado para o encobrir-se, é a ESSENCIAÇÃO da própria verdade como a verdade do seer. Pois o que se encobre dessa clareira, a distância da indecidibilidade, não é nenhum mero vazio presente à vista e indiferente, mas a ESSENCIAÇÃO mesma do acontecimento apropriador como essência do acontecimento apropriador, como essência da renúncia hesitante, que se apropria do ser-aí em meio ao acontecimento como já copertinente, o deter-se do instante e dos sítios da primeira decisão. [tr. Casanova; GA65: 7] Na essência da verdade do acontecimento apropriador decide-se e funda-se ao mesmo tempo todo verdadeiro, o ente se faz ente, o não ente desliza para o interior da aparência do seer. Essa distância é, sobretudo: a mais ampla e para nós primeira proximidade com deus, mas também a indigência do abandono do ser, encoberto pela ausência de indigência, que se atesta por meio do desvio em relação à meditação. Na ESSENCIAÇÃO da verdade do seer, no acontecimento apropriador e como acontecimento apropriador, encobre-se o último deus. [tr. Casanova; GA65: 7] A longa cristianização de deus e a crescente publicização de toda e qualquer ligação afinada com o ente soterraram de maneira igualmente tenaz e velada as condições prévias, graças às quais algo se encontra na distância da indecidibilidade sobre a fuga ou a chegada do deus, indecidibilidade essa cuja ESSENCIAÇÃO, todavia, é experimentada da maneira mais íntima possível; e isso por um saber, naturalmente, que só se encontra na verdade como algo criador. Criar – no sentido mais amplo aqui visado – significa todo abrigo da verdade no ente. [tr. Casanova; GA65: 7] A distância da indecidibilidade não é naturalmente algo “para além de”, mas o mais próximo do aí infundado do ser-aí, que se tornou insistente na prontidão para a recusa enquanto a ESSENCIAÇÃO do seer. Esse mais próximo é tão próximo que todo exercício inevitável da maquinação e do vivenciado precisa ter já necessariamente passado ao largo dele e, por isto, também nunca pode ser resgatado imediatamente para ele. O acontecimento apropriador permanece o que há de mais estranho. [tr. Casanova; GA65: 7] O seer se essencia como acontecimento apropriador. A ESSENCIAÇÃO tem o meio e a amplitude na viragem. A exportação resolutora de contenda e réplica. A ESSENCIAÇÃO é garantida e abrigada na verdade. A verdade acontece como o encobrimento clareador. A estrutura fundamental desse acontecimento é o tempo-espaço que emerge dele. O tempo-espaço é o que desponta para as mensurações da abertura do fosso abissal do seer. O tempo-espaço é, enquanto junção da verdade, originariamente o sítio instantâneo do acontecimento apropriador. O sítio instantâneo essencia-se a partir desse acontecimento como a contenda de terra e mundo. A contestação da contenda é o ser-aí. O ser-aí acontece nos modos do abrigo da verdade a partir da garantia do acontecimento apropriador clareado e velado. O abrigo da verdade deixa que o verdadeiro se abra e se dissimule como o ente. O ente se encontra pela primeira vez assim no seer. O ente é. O seer se essencia. O seer (como acontecimento apropriador) precisa do ente, para que ele, o seer, se essencie. O ente pode “ser” ainda no abandono do ser, sob cujo domínio a tangibilidade e a utilidade imediata, assim como a funcionalidade de todo e qualquer tipo (tudo precisa servir ao povo, por exemplo) constituem obviamente o que é sendo e o que não é. A autonomia aparente do ente em face do seer, como se este fosse apenas um suplemento do pensamento “abstrato” representacional, porém, não é nenhum primado, mas apenas o sinal do privilégio em relação à decadência que cega. Esse ente “real e efetivo” é concebido a partir da verdade do seer como o não-ente sob o domínio da inessência da aparência, cuja origem permanece aí encoberta. O ser-aí como a fundação da contestação da contenda em meio ao que é aberto por ela é cristalizado humanamente e sustentado na insistência que suporta o aí e que pertence ao acontecimento apropriador. O pensar do seer como acontecimento apropriador é o pensar inicial, que prepara como confrontação com o primeiro início o outro início. O primeiro início pensa o seer como presentidade a partir da presentação, que apresenta o primeiro reluzir de uma ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 10] 1) Acontecimento apropriador: a luz segura da ESSENCIAÇÃO do seer no campo de visão extremo da mais íntima indigência do homem histórico. 2) O ser-aí: o entre aberto no meio e, assim, velador, entre a chegada e a fuga dos deuses e o homem nele enraizado. 3) O ser-aí tem a origem no acontecimento apropriador e em sua viragem. 4) Por isto, ele só pode ser fundado como a verdade e na verdade do seer. 5) A fundação – não recriação – é um deixar-ser-fundamento por parte do homem, que chega, com isto, pela primeira vez, uma vez mais a si e reconquista o ser-si-mesmo. 6) O fundamento fundado é ao mesmo tempo abismo para a abertura do fosso abissal do seer e não fundamento para o abandono do ser do ente. 7) A tonalidade afetiva fundamental da fundação é a retenção. 8) A retenção é a referência insigne, instantânea ao acontecimento apropriador no ser chamado por meio de seu conclamar. 9) O ser-aí é o acontecimento fundamental da história por vir. Esse acontecimento emerge do acontecimento apropriador e se torna um sítio instantâneo possível para a decisão sobre o homem – sua história ou não história como sua transição para o ocaso. 10) O acontecimento apropriador e o ser-aí estão em sua essência, isto é, em sua pertinência enquanto fundamento da história, ainda completamente velados e permanecerão por um longo tempo causando estranhamento. Faltam as pontes; os saltos ainda não foram levados a termo. Ainda permanece de fora a profundidade da experiência da verdade que lhes satisfazem e a meditação sobre o seu sentido: a força da decisão elevada. Em contrapartida, numerosas no caminho são apenas as ocasiões e os meios da má interpretação, porque falta mesmo o saber daquilo que aconteceu no primeiro início. [tr. Casanova; GA65: 11] História aqui não concebida como um âmbito do ente entre outros, mas unicamente com vistas à ESSENCIAÇÃO do seer mesmo. Assim, já em Ser e tempo, a historicidade do ser-aí precisa ser compreendida a partir da intenção ontológico-fundamental e não como uma contribuição para a filosofia da história presente à vista. [tr. Casanova; GA65: 12] O acontecimento apropriador é a própria história originária, com o que poderia estar insinuado que aqui em geral a essência do seer é concebida “historicamente”. A questão é: historicamente com certeza, mas não se valendo de um conceito de história, senão historicamente porque agora a essência do seer não significa apenas a presentidade, mas a plena ESSENCIAÇÃO do a-bismo tempo-espacial e, com isto, da verdade. Juntamente com isto, vem à tona o saber em torno da unicidade do seer. Por meio daí, contudo, não é preterida, por exemplo, a natureza, mas essa é do mesmo modo originariamente transformada. Neste conceito originário de história, conquista-se pela primeira vez o âmbito, no qual se mostra por que e como a história é “mais” do que ação e vontade. Também o “destino” pertence à história e não esgota sua essência. [tr. Casanova; GA65: 12] O caminho para a essência da história, concebido a partir da ESSENCIAÇÃO do próprio seer, é preparado “ontológico-fundamentalmente” por meio da fundação da historicidade sobre a temporalidade. Quer dizer, no sentido da “questão do ser” que é a única a se mostrar como diretriz em Ser e tempo: o tempo como o tempo-espaço recolhe em si a essência da história; na medida, porém, em que o tempo-espaço é o abismo do fundamento, isto é, da verdade do ser, reside em sua interpretação da historicidade a referencialidade para a essência do próprio ser. Perguntar sobre essa essência é o único empenho e não é nem uma teoria da história, nem uma filosofia da história. [tr. Casanova; GA65: 12] O que é, portanto, o início, de tal modo que ele pode se tornar o mais elevado de todo ente? Ele é a ESSENCIAÇÃO do próprio ser. Mas esse início só é realizável como o outro na confrontação com o primeiro. O início – compreendido inicialmente – é o próprio seer. E, de acordo com ele, o pensar também é mais originário do que um re-presentar e um julgar. [tr. Casanova; GA65: 23] O outro início precisa ser provocado completamente a partir do seer como acontecimento apropriador e a partir da ESSENCIAÇÃO de sua verdade e de sua história. O pensar inicial desloca seu questionamento acerca da verdade do seer para um ponto muito lá atrás no primeiro início como a origem da filosofia. Com isto, ele cria para si a garantia para chegar em seu outro início vindo de muito longe e para encontrar na herança dominada a sua mais elevada constância futura e, com isto, para retornar a si mesmo em uma necessidade modificada (em face do primeiro início). [tr. Casanova; GA65: 23] Onde, em contrapartida, o seer é concebido como acontecimento apropriador, determina-se a essencialidade a partir da originariedade e unicidade do próprio seer. A essência não é o universal, mas a ESSENCIAÇÃO precisamente da respectiva unicidade e do nível hierárquico do ente. [tr. Casanova; GA65: 29] A questão da essência contém em si o decisivo, que domina agora fundamentalmente a questão do ser. Projeto é estabelecimento de um nível hierárquico e decisão. O princípio do pensar inicial é, por isto, duplicado: toda essência é ESSENCIAÇÃO. Toda ESSENCIAÇÃO determina-se a partir do essencial no sentido do originariamente único. [tr. Casanova; GA65: 29] Filosofia: encontrar e trazer à tona as faces simples e as figuras autóctones, nas quais a ESSENCIAÇÃO do seer é abrigada e elevada ao nível do coração. Quem conseguiria as duas coisas: a visão mais distante da essência velada do seer e o sucesso mais imediato da figura brilhante do ente que abriga. Como é que criamos, saltando de antemão para o interior da ESSENCIAÇÃO do seer, para o seer a afluência de seu ente, para que a verdade do seer retenha a força histórica duradoura enquanto impulso? Para o pensar resta apenas o dizer maximamente simples da imagem direta em meio ao mais puro silêncio. O primeiro pensador por vir precisa conseguir isso. [tr. Casanova; GA65: 32] O acontecimento apropriador é o meio que comunica a si mesmo e se intermedeia, o meio de volta ao qual toda ESSENCIAÇÃO da verdade do seer precisa ser de antemão pensada. Esse pensar de volta para lá é o re-pensar do seer. E todos os conceitos do seer precisam ser falados a partir daí. [tr. Casanova; GA65: 34] “Tempo” é em Ser e tempo a indicação e a ressonância daquilo que acontece como verdade da ESSENCIAÇÃO do seer na unicidade do acontecimento da apropriação. [tr. Casanova; GA65: 34] Aqui pela primeira vez, nessa interpretação originária do tempo, toca-se no âmbito no qual o tempo alcança com o espaço a mais extrema diversidade e, assim, precisamente a intimidade da ESSENCIAÇÃO. Essa ligação prepara na apresentação da espacialidade do ser-aí, e não, por exemplo, do “sujeito” e do “eu”. [tr. Casanova; GA65: 34] “O seer” não visa apenas à realidade efetiva do efetivamente real, nem tampouco apenas à possibilidade do possível, em geral não somente ao ser a partir do respectivo ente, mas ao seer a partir de sua ESSENCIAÇÃO originária na plena abertura do fosso abissal, à ESSENCIAÇÃO não restrita à “presentidade”. Naturalmente, a ESSENCIAÇÃO do seer mesmo e, com isto, o seer em sua unicidade mais única não se deixam experimentar de maneira arbitrária e direta como um ente, mas só se abrem na instantaneidade do salto prévio do ser-aí para o interior do acontecimento apropriador. Um caminho também nunca conduz imediatamente do ser do ente para o seer, porque a visão para o ser do ente já acontece fora da instantaneidade do ser-aí. A partir daqui, é possível trazer para o interior da questão do ser uma distinção e uma clarificação essenciais. Ela não é nunca a resposta da questão do ser, mas apenas a conformação do questionar, o despertar e a clarificação da força questionadora para essa questão, que só emerge sempre e a cada vez da indigência e do desenvolvimento do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 34] Em contrapartida, se perguntarmos sobre o seer, então o ponto de partida não se dará aqui a partir do ente, isto é, a partir a cada vez desse ou daquele ente, também não a partir do ente enquanto tal na totalidade, mas realizará o salto para o interior da verdade (clareira e encobrimento) do seer mesmo. Aqui se experimenta e se inquire ao mesmo tempo esse elemento que de antemão se essencia (e que reside abscondito mesmo na questão diretriz), a abertura para a ESSENCIAÇÃO enquanto tal, isto é, a verdade. Aqui se questiona concomitantemente a questão prévia acerca da verdade. E, na medida em que o seer é experimentado como o fundamento do ente, a questão assim formulada acerca da ESSENCIAÇÃO do seer é a questão fundamental. Da questão diretriz para a questão fundamental nunca há um caminho contínuo imediato, dotado de um mesmo sentido, que aplique uma vez mais ainda a questão diretriz (ao seer), mas apenas um salto, isto é, a necessidade de um outro início. Com certeza, em contrapartida, por meio da superação desdobradora da formulação da questão diretriz e de suas respostas enquanto tais, precisa ser criada uma transição, que prepara o outro início e o torna em geral visível e intuível. É a essa preparação da transição que serve Ser e tempo, isto é, a obra já se encontra propriamente na questão fundamental, sem desdobrar essa questão de maneira pura a partir de si inicialmente. [tr. Casanova; GA65: 34] Para a questão fundamental, em contrapartida, o ser não é a resposta e o âmbito da resposta, mas o que há de mais digno de questão. Para ele, vale a dignificação única e saliente, isto é, ele mesmo é aberto como domínio e, assim, elevado ao nível do aberto como o que nunca pode ser controlado. O seer como o fundamento, no qual todo ente primeiramente enquanto tal chega à sua verdade (abrigo, instituição e objetividade); o fundamento, no qual o ente mergulha (abismo), o fundamento, no qual ele também se atreve a se lançar em sua indiferença e obviedade (não fundamento). O fato de o seer se essenciar de maneira fundante em sua ESSENCIAÇÃO desse modo indica a sua unicidade e domínio. E esse domínio, por sua vez, é apenas o aceno para o acontecimento apropriador, no qual temos de buscar a ESSENCIAÇÃO do seer em seu mais extremo velamento. O seer enquanto o que há de mais digno de questão não conhece mesmo em si nenhuma questão. [tr. Casanova; GA65: 34] O silenciamento é a legalidade sensata do silenciar (sigan). O silenciamento é a “lógica” da filosofia, na medida em que ela questiona a partir do outro início a questão fundamental. Ela busca a verdade da ESSENCIAÇÃO do seer e essa verdade é o velamento que ressoa e nos fornece um aceno (o mistério) para o acontecimento apropriador (a renúncia hesitante). [tr. Casanova; GA65: 37] O discurso marcado pelo termo estrangeiro “sigética” na correspondência com a “lógica” (onto-logia) só é visado transitória e retrospectivamente e não aponta de maneira alguma para a busca por substituir a “lógica”. Pois uma vez que a questão acerca do seer e acerca da ESSENCIAÇÃO do seer se encontra presente, o questionamento mesmo ainda é mais originário e, por isso, não pode senão menos ainda ser enclausurado e sufocado em uma disciplina escolar. Nunca podemos dizer imediatamente o seer (acontecimento apropriador), e, desse modo, também não podemos dizê-lo mediatamente no sentido da “lógica” intensificada da dialética. Todo e qualquer dizer já fala a partir da verdade do seer e nunca pode saltar por cima de si mesmo imediatamente e aceder ao seer ele mesmo. O silenciamento tem leis mais elevadas do que toda e qualquer lógica. [tr. Casanova; GA65: 38] Ressonância e conexão de jogo são o solo e o campo para o primeiro despontar do pensar inicial para o salto na ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 39] Ser usado pelos deuses, por meio de tal elevação ser esmagado, na direção desse velado precisamos inquirir a essência do seer enquanto tal. Nós não podemos, então, porém, explicar o seer como o aparentemente ulterior, mas precisamos concebê-lo como a origem, que de-cide e se apropria em meio ao acontecimento pela primeira vez dos deuses e do homem. Essa inquirição do seer leva a termo a abertura do campo de jogo temporal de sua ESSENCIAÇÃO: a fundação do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 43] A decisão já há muito tempo irrompida no velado e no dissimulado é a decisão pela história ou pela perda da história. História, porém, concebida como a contestação da contenda de terra e mundo, assumida e realizada a partir do pertencimento ao clamor do acontecimento apropriador como a ESSENCIAÇÃO da verdade do seer na figura do último deus. [tr. Casanova; GA65: 45] A essência da decisão só pode ser determinada a partir de sua ESSENCIAÇÃO essencial. Decisão é decisão entre ou-ou. Com isso, porém, o decisivo já é antecipado. De onde o ou-ou? De onde esse: somente esse ou apenas esse? De onde a incontornabilidade do de tal ou tal modo? Não resta o terceiro elemento, a indiferença? Mas aqui, porém, no extremo, ela não é possível. O que é aqui o extremo: ser ou não-ser e, em verdade, não o ser de um ente qualquer, por exemplo, do homem, mas ESSENCIAÇÃO do ser, ou? Por que se chega aqui ao ou-ou? A indiferença seria apenas o ser do não-ente, apenas o nada mais elevado. Pois “ser” não tem em vista aqui ao ser em si presente à vista, assim como o não-ser também não visa aqui: ao completo desaparecimento, mas não-ser como uma espécie do ser: sendo e, de qualquer modo, não como uma espécie de ser; e o mesmo vale para o ser: nulo e, de qualquer modo, precisamente sendo. Esse sendo retomado na ESSENCIAÇÃO do ser exige a intelecção do pertencimento do nada ao ser, e só assim alcança o ou-ou a sua agudeza e a sua origem. Como o seer é nulo, ele precisa para a consistência de sua verdade da subsistência do não e, com isso, ao mesmo tempo do contra tudo o que é nulo, o não-ente. A partir da nulidade essencial do ser (viragem) vem à tona o fato de que ele exige e necessita daquilo que se mostra a partir do ser-aí como ou-ou, o um ou o outro, e apenas deles. A ESSENCIAÇÃO essencial da decisão é um salto em direção à decisão ou a indiferença; ou seja, não a retração e não a destruição. A indiferença como o não-decidir. A decisão passa originariamente por saber se decisão ou não decisão. A decisão, porém, é um colocar-se diante do ou-ou, e, com isso, já é um ter sido decidido, porque aqui já se dá um pertencimento ao acontecimento apropriador. A decisão sobre a decisão (viragem). Nenhuma reflexão, mas o contrário disso: sobre a decisão, isto é, já saber o acontecimento apropriador. Decisão e questão; questão como mais originária: colocar a essência da verdade em decisão. A verdade mesma, contudo, já é o que precisa ser decidido enquanto tal. [tr. Casanova; GA65: 47] [Ressonância] da ESSENCIAÇÃO do seer a partir do abandono do ser por meio da indigência impositiva do esquecimento do seer. Trazer à aparição de seu poder velado esse esquecimento por meio de uma lembrança como esquecimento e ver aí a ressonância do seer. O reconhecimento da indigência. A tonalidade afetiva diretriz da ressonância: horror e pudor, mas emergindo a cada vez da tonalidade afetiva fundamental da retenção. A mais extrema indigência: a indigência da falta de indigência. Deixar primeiro constituir-se a ressonância, sendo que muitas coisas precisam permanecer aí necessariamente incompreensíveis e inquestionáveis e, contudo, um primeiro aceno se torna possível. Que traço de uma linha simples do dizer precisa ser escolhido aqui e estabelecido sem uma consideração secundária? A ressonância precisa abarcar o todo do rasgo e, antes de tudo, ser dividida como contrajogo em relação à conexão de jogo. A ressonância para quem? Para onde? A ressonância da ESSENCIAÇÃO do seer no abandono do ser. Como é que esse abandono do ser deve ser experimentado? O que ele é? Ele mesmo emergido da inessência do seer a partir da maquinação. De onde provém essa inessência? Não, por exemplo, a partir da nulidade do seer; ao contrário! [tr. Casanova; GA65: 50] A ressonância do seer como recusa no abandono do ser do ente – isso já diz que aqui não deve ser descrito, explicado ou colocado em ordem algo presente à vista. O peso do pensamento é diverso no outro início da filosofia: o re-pensar daquilo que acontece apropriadoramente como o próprio acontecimento apropriador, trazendo o seer para a verdade de sua ESSENCIAÇÃO. Como, porém, no outro início, o seer se torna acontecimento apropriador, a ressonância do seer também precisa ser história, atravessar a história em um abalo essencial e poder dizer e saber ao mesmo tempo o instante dessa história. (Não são uma caracterização e uma descrição histórico-filosófica que se tem em vista aqui, mas um saber sobre a história a partir do instante e como o instante da primeira ressonância da verdade do próprio seer). E, de qualquer modo, o discurso soa como se só vigorasse a denominação do atual. O que é dito seria sobre a era da completa inquestionabilidade, que estende seu espaço de tempo subtemporalmente para além do atual de volta e muito para a frente. Nessa era, nada essencial – caso essa determinação em geral ainda tenha um sentido – é mais impossível ou inacessível. Tudo “é feito” e “se deixa fazer”, contanto que se tenha a “vontade” para tanto. O fato, porém, de ser precisamente essa “vontade”, que já estabeleceu e degradou de antemão aquilo que pode ser possível e, antes de tudo, necessário, já é de antemão desconhecido e deixado fora de toda e qualquer questão. Pois essa vontade, que faz tudo, se prescreveu de antemão a maquinação, aquela interpretação do ente como o re-presentável e re-presentado. Re-presentável significa por um lado: acessível no visar e no calcular; e significa, então: passível de ser trazido à tona na pro-dução e na execução. Tudo isso, porém, pensado a partir do fundamento: o ente enquanto tal é o re-presentado, e apenas o representado é ente. O que estabelece aparentemente uma resistência e um limite para a maquinação é, para ela, apenas a matéria prima para o trabalho ulterior e o impulso para o progresso, a ocasião para a extensão e a ampliação. No interior da maquinação, não há nada digno de questão, algo tal que pudesse ser honrado enquanto tal e honrado sozinho, e, com isso, iluminado e elevado ao nível da verdade. [tr. Casanova; GA65: 51] A ressonância da verdade do seer e de sua ESSENCIAÇÃO mesma a partir da indigência do esquecimento do ser. O alçar essa indigência a partir de sua profundidade enquanto ausência de indigência. O esquecimento do ser não sabe nada sobre ela, ele pensa estar junto ao “ente”, junto ao “efetivamente real”, próximo da “vida” e seguro do “vivenciar”. Pois ele conhece apenas o ente. Todavia, desse modo, em tal presentação do ente, esse ente é abandonado pelo seer. O abandono do ser, porém, é o fundamento do esquecimento do ser. No entanto, o abandono do ser do ente traz para o ente a aparência de que esse ente mesmo seria, então, sem qualquer necessidade de um outro, apto para ser pego e utilizado. O abandono do seer, contudo, é o ser exposto e a proibição do acontecimento apropriador. É a partir do abandono do ser que a ressonância precisa soar e ter início com o desdobramento do esquecimento do ser, no qual o outro início ressoa e, assim, o seer. [tr. Casanova; GA65: 55] A ressonância do seer quer resgatar o seer em sua plena ESSENCIAÇÃO como acontecimento apropriador por meio do desentranhamento do abandono do ser, o que só acontece de tal modo que o ente é recolocado por meio da fundação do ser-aí no seer que se abre no salto. [tr. Casanova; GA65: 55] No nexo da questão do ser, não deve ser designado, com isso, um comportamento humano, mas um tipo de ESSENCIAÇÃO do ser. Mesmo o tom ressonante do desprezível precisa ser afastado, ainda que a maquinação favoreça a inessência do ser. Mas mesmo essa inessência nunca pode ser colocada em uma relação de depreciação, uma vez que ela é essencial para a essência. Ao contrário, o nome deve apontar imediatamente para o fazer (poiesis, techne), o que nós conhecemos, em verdade, como comportamento humano. A questão é que justamente isso só é possível com base em uma interpretação do ente, na qual a factibilidade do ente vem à tona, de tal modo, em verdade, que a entidade se determina precisamente na constância e na presentidade. O fato de algo se fazer por si mesmo e, consequentemente, também ser factível para um procedimento correspondente, o fazer-se-por-si-mesmo é a interpretação realizada a partir da techne e de seu círculo de visão da physis, de tal modo que, então, já se faz valer a preponderância no factível e no que se faz, o que em suma seria chamado de maquinação. A questão é que, no tempo do primeiro início, uma vez que se chega à despotencialização da physis, a maquinação ainda não vem à tona em sua plena essência. Ela permanece encoberta na presentidade constante, cuja determinação alcança na entelecheia o aguçamento máximo no interior do pensar grego inicial. O conceito medieval de actus encobre já a essência inicialmente grega da interpretação da entidade. Está em conexão com isso o fato de que, então, o elemento maquinal se impõe mais claramente e, por meio da inserção em jogo da ideia judaico-cristã da criação e da representação correspondente de Deus, o ens se transforma em ens creatum. Ainda que uma interpretação tosca da ideia de criação fracasse, permanece de qualquer modo essencialmente o ser causado do ente. O nexo de causa e efeito se transforma no nexo que a tudo domina (Deus como causa sui). Isso é um distanciamento essencial da physis e, ao mesmo tempo, a passagem para o vir à tona da maquinação como a essência da entidade no pensamento moderno. O modo de pensar mecanicista e o modo de pensar biológico são sempre apenas consequências da interpretação maquinal velada do ente. [tr. Casanova; GA65: 61] A maquinação como ESSENCIAÇÃO da entidade dá um primeiro aceno para o cerne da verdade do próprio seer. Nós sabemos muito pouco sobre ela. Apesar disso, ela impera inteiramente sobre a história do ser da filosofia ocidental até aqui, de Platão até Nietzsche. [tr. Casanova; GA65: 61] A maquinação mesma e, uma vez que ela é a ESSENCIAÇÃO do seer, o seer mesmo se subtraem. [tr. Casanova; GA65: 61] A entidade como: Maquinação e correção « (ESSENCIAÇÃO da entidade) « [Vivência (Abandono do ser: Ausência de indigência; Ressonância da ESSENCIAÇÃO do seer; No abandono do ser; Maquinação (« recusa) » vivência (« Solidificação; Encantamento) + Encantamento] [tr. Casanova; GA65: 65] 1) a entidade é presentidade. 2) o seer é um encobrir-se. 3) o ente tem o primado. 4) a entidade é o suplemento e, por isso, o “a priori”. Não conseguimos conceber o que se encontra aí resolvido, enquanto a verdade do seer não se transformar para nós na questão necessária, enquanto não fundarmos o campo de jogo temporal, em cujas extensões se pode mensurar pela primeira vez o que aconteceu apropriadoramente na história da metafísica: a preliminar do acontecimento apropriador ele mesmo como a ESSENCIAÇÃO do seer. Somente se tivermos sucesso em projetar a história da metafísica naquelas extensões (1-4), é que nós a conceberemos em seu fundamento não elevado. Todavia, enquanto continuarmos haurindo as perspectivas a partir daquilo que podia e precisava se tornar expressamente um saber da metafísica (doutrina das ideias e sua modulação), nós seremos impelidos para o elemento historiológico, a não ser que concebamos idea já a partir do 1-4. [tr. Casanova; GA65: 86] Esses são alguns caminhos, em si independentes e, entretanto, copertinentes, para jogar no saber sempre apenas uma única coisa: o fato de que a ESSENCIAÇÃO do seer carece da fundação da verdade do seer e de que essa fundação precisa se realizar como ser-aí, algo por meio do que todo idealismo e, com isso, a metafísica até aqui e a metafísica em geral são superadas como um desdobramento necessário do primeiro início, que ganha assim pela primeira vez de maneira nova a obscuridade, a fim de só ser concebido a partir do outro início enquanto tal. [tr. Casanova; GA65: 88] O outro início experimenta a verdade do seer e pergunta sobre o seer da verdade, a fim de, assim, fundar pela primeira vez a ESSENCIAÇÃO do seer e deixar o ente eclodir como o verdadeiro daquela verdade originária. [tr. Casanova; GA65: 91] A fixação significa: perguntar sobre o ser do ente. A superação, porém: perguntar antes de tudo sobre a verdade do seer, sobre aquilo que nunca se tornou questão e nunca pode se tornar questão na metafísica. Esse duplo caráter transitório, que toma a “metafísica” ao mesmo tempo de maneira mais originária e, com isso, a supera, é inteiramente a caracterização da “ontologia fundamental”, isto é, de Ser e tempo. Esse título é estabelecido a partir de um claro saber em torno da tarefa: não mais ente e entidade, mas ser; não mais “pensar”, mas “tempo”; não mais pensar antes de tudo, mas o seer. “Tempo” como a denominação da “verdade” do ser e tudo isso como tarefa, como “a caminho”; não como doutrina e dogmática. Agora, a posição fundamental diretriz da metafísica ocidental, entidade e pensamento, o “pensar” – ratio – razão como fio condutor e como antecipação da interpretação da entidade, é colocada em questão; mas de modo algum apenas de tal modo que o pensar seria substituído pelo “tempo” e tudo não seria visado senão “de maneira mais temporal” e existencial, e, com isso, permaneceria tudo como era. Ao contrário, o que se tornou questão foi aquilo que não podia se tornar questão no primeiro início, a verdade ela mesma. Agora, tudo é e tudo se torna diferente. A metafísica se tornou impossível. Pois a verdade do seer e a ESSENCIAÇÃO do seer são o primeiro, não aquilo em direção ao que a ultrapassagem deve acontecer. Agora, contudo, o que importa também não é apenas a inversão da metafísica até aqui, mas, com a ESSENCIAÇÃO mais originária da verdade do seer enquanto acontecimento apropriador, a ligação com o ente se tornou uma ligação diversa (não mais a ligação da hypothesis e da “condição de possibilidade” – do koinon e hypokeimenon) O seer se essencia como acontecimento apropriador da fundação do aí e determina ele mesmo a verdade da essência a partir da ESSENCIAÇÃO da verdade. [tr. Casanova; GA65: 91] A confrontação do outro início com o primeiro nunca tem o sentido de comprovar a história até aqui da questão diretriz e, com isso, a “metafísica” como um “erro”. Com isso, a essência da verdade seria tão desconhecida quanto a ESSENCIAÇÃO do seer, que permanecem inesgotáveis, porque elas são o que há de mais único para todo e qualquer saber. Com certeza, porém, a confrontação mostra que, para a interpretação do ente até aqui, se perdeu a necessidade, uma vez que não se pode experimentar mais nenhuma indigência e impeli-la para a sua “verdade”, nem tampouco o modo como até mesmo a verdade de si mesma é deixada inquestionada. Pois, desde Platão, nunca se perguntou sobre a verdade da interpretação do “ser”. Ao contrário, a correção da representação e seu alijamento por meio da intuição foram apenas retransportados da representação do ente para a representação da “essência”; e isso se deu, por fim, na “fenomenologia” pré-hermenêutica. [tr. Casanova; GA65: 94] O fato de, no primeiro início, o “tempo” como presentação tanto quanto como constância (em um duplo sentido tragado de “presente”) forjar o aberto, a partir do qual o ente enquanto ente (o ser) tem a verdade. À grandeza do início corresponde o fato de que “o tempo” mesmo e, ele enquanto a verdade do ser, não é de modo algum digno de questão e de experiência. E tampouco se pergunta por que o tempo enquanto presente e não enquanto passado e futuro entra em jogo para a verdade do ser. Esse não questionado encobre a si mesmo enquanto tal e deixa para o pensar inicial unicamente que o des-comunal do irromper, da presentação constante na abertura (aletheia) do ente mesmo constitua a verdade. ESSENCIAÇÃO, sem ser concebida enquanto tal, é presentação. [tr. Casanova; GA65: 95] A transição para o outro início tem de preparar o saber em torno dessa determinação histórica. Pertence a isso a confrontação com o primeiro início e com sua história. Essa história encontra-se sob o domínio do platonismo. E o modo determinado por meio daí de tratamento da questão diretriz pode ser indicado por meio do título: ser e pensar. No entanto, para a correta compreensão desse título é preciso atentar para o seguinte: 1) Ser tem em vista aqui a entidade e não, como em Ser e tempo, o ser mesmo inquirido originariamente com vistas à sua verdade; entidade como o “geral” para o ente. 2) Pensar no sentido do re-presentar de algo no geral e esse como presentificação e, com isso, como indicação prévia da região, na qual o ente é concebido com vistas à presentidade constante, sem que o caráter de tempo dessa interpretação jamais seja reconhecido. Isso acontece tão pouco que mesmo depois que, por meio de Ser e tempo, a ousia é interpretada pela primeiríssima vez como presentidade constante e essa é concebida como sua temporalidade, se continua falando de atemporalidade da “presença” e de “eternidade”, e, em verdade, porque se insiste no conceito comum de tempo, que só é válido como quadro para o mutável e, com isso, de qualquer modo, não pode fazer mal algum ao que constantemente se presenta! Como noein, logos, idein, pensar é aqui a razão enquanto o comportamento, a partir do qual e em cuja região, de maneira bastante infundada, a entidade é determinada. É preciso distinguir disso o “pensar” no sentido ulterior, que precisa ser ao mesmo tempo primeiro determinado, da realização do filosofar (cf o pensar inicial). Nesse aspecto, toda apreensão e determinação (conceito) da entidade e do seer é um pensar. Mas a questão decisiva continua sendo: em que âmbito da verdade se movimenta o desentranhamento da essência do ser? No fundo, mesmo aí onde, tal como na história da questão diretriz, a entidade é concebida a partir do noein, a verdade desse pensar não é o pensado enquanto tal, mas o tempo-espaço como ESSENCIAÇÃO da verdade, na qual todo re-presentar precisa se manter. [tr. Casanova; GA65: 100] A confusão se intensifica radicalmente, quando se busca chegar, com o auxílio da diferença “ontológica” que emergiu de modo ontológico-fundamental, a uma solução da questão. Pois essa “diferença” é, com efeito, apenas ponto de partida não na direção da questão diretriz, mas na direção do salto ao cerne da questão fundamental; não para jogar de maneira obscura com marcas desde então fixas (ente e ser), mas para retornar à questão acerca da verdade da ESSENCIAÇÃO do seer e, com isso, para apreender de maneira diversa a ligação entre seer e ente, sobretudo porque o ente enquanto tal experimenta uma interpretação transformada (guarda da verdade do acontecimento apropriador) e porque não subsiste mais nenhuma possibilidade de inopinadamente contrabandear para aí “o ente” enquanto “objeto representado” ou enquanto “algo presente à vista em si” e coisas do gênero. [tr. Casanova; GA65: 107] 25) De acordo com isso precisamos perguntar: a) Em que experiência e interpretação está fundado o estabelecimento do ente enquanto idea? Em que verdade (de que essência) se b) encontra a determinação da entidade (ousia) do ente, òn, como idea? c) Se essa verdade permaneceu indeterminada, e ela permaneceu, por que não se perguntou sobre ela? d) Se nenhuma necessidade em relação a tal questão se fez valer, em que esse questionamento tem o seu fundamento? Esse fundamento só pode residir no fato de que a interpretação da entidade enquanto idea era completamente suficiente para a questão acerca do ente e tragava de antemão todo e qualquer questionamento diverso. E isso, por sua vez, precisa estar fundamentado na unicidade da interpretação do ente. e) Essa interpretação projeta o ente com vistas à presentidade constante. A idea se essencia enquanto tal e torna todo e qualquer passo para além disso impossível; pois com tal projeção o ser passa a se dar na ESSENCIAÇÃO, de acordo com a qual o ente encontra tudo preenchido. A ESSENCIAÇÃO enquanto presentidade e constância não abre nenhum espaço para uma in-suficiência e, com isso, também não oferece nenhum motivo para a questão acerca da verdade dessa interpretação; ela ratifica a si mesma como aquilo que ratifica todo ente enquanto tal. A entidade enquanto idea é, com isso, por si mesma o verdadeiramente (alethos) ente, òn. f) Por meio dessa interpretação do ente é atribuída ao homem desde então e de acordo com o ser uma posição inequívoca: como constantemente presente, o verdadeiramente ente é sempre e a cada vez o contraposto, a vista que se encontra em face de; o homem, por sua vez, é aquilo que ocorre e que está ligado e por si mesmo vinculado a esse contraposto; ele pode ser ele mesmo ainda o contraposto em meio à reflexão; o desdobramento posterior de consciência, objeto e “auto”-consciência se acham preparados. g) Não obstante, resta o fato de que a aletheia tinha sido experimentada e vislumbrada com a interpretação inicial do òn como physis. E, de acordo com isso, há no primeiro início mais do que na interpretação platônica. E, por isso, em meio à confrontação, o primeiro início precisa ser recolocado em sua grandeza e unicidade incapazes de serem falsificadas; a confrontação não o suspende, mas funda pela primeira vez sua necessidade para o outro. [tr. Casanova; GA65: 110] [O “a priori” e a physis] Isto é, to proteron te physei. physis normativa e o “anterior” como proveniência, origem. O que há de mais primevo, o que primeiro se pre-senta, a presentação é a própria physis, mas logo encoberta juntamente com a aletheia por meio da idea. Como se chega a tal questão acerca do proteron? Com base na idea como ontos òn. O que há de mais primevo na ESSENCIAÇÃO é essa ESSENCIAÇÃO mesma como ESSENCIAÇÃO do seer. A priori – a partir do ante-cedente; a priori aí, onde a questão diretriz se faz presente, a metafísica. Na transição, porém, apenas aparentemente o “a priori” é ainda um “problema”: a relação entre seer e ente é concebida de maneira completamente diversa a partir do acontecimento apropriador. [tr. Casanova; GA65: 111] O que é estabelecido em Ser e tempo como “compreensão de ser” parecia ser apenas a ampliação dessa representação anterior, e, no entanto, (compreender como pro-jeto – ser-aí) é algo completamente diverso; como transição, porém, ele remete para a metafísica. A verdade do seer e a ESSENCIAÇÃO do seer não são nem o que há de mais primevo nem o que há de mais tardio. [tr. Casanova; GA65: 112] O salto, o que há de mais ousado no procedimento do pensar inicial, deixa e lança tudo o que é corrente para trás de si e não espera nada imediatamente do ente, mas ressalta antes de tudo o pertencimento ao seer em sua plena ESSENCIAÇÃO como acontecimento apropriador. O salto aparece assim sob a aparência do que não leva nada em consideração e, contudo, ele é precisamente afinado por aquele pudor, no qual a vontade da retenção ultrapassa a si mesma e se transforma na insistência do suportar da mais distante proximidade da renúncia hesitante. O salto é a ousadia de uma primeira penetração no âmbito da história do ser. [tr. Casanova; GA65: 115] Se soubéssemos a lei da chegada e fuga dos deuses, então conceberiamos algo primeiro em relação ao acometimento e à permanência de fora da verdade e, com isso, da ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 120] O seer se essencia como a verdade do ente. Sobre esse ente já sempre se decidiu com a ESSENCIAÇÃO do seer concebida ainda de maneira muito rudimentar e por meio de desvios. Com isso, a decisão sobre a verdade cai em todos os aspectos no salto para o interior da ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 120] O seer como a ESSENCIAÇÃO do acontecimento apropriador não é, por isso, um mar vazio, o mar indeterminado do determinável, para o interior do qual nós já saltamos de um lugar qualquer “sendo”, mas o salto faz com que o aí experimente pela primeira vez a emergência, como pertinente ao que acontece apropriadoramente no clamor, como os sítios instantâneos do em algum lugar e quando. [tr. Casanova; GA65: 120] Clareira e encobrimento, constituindo a ESSENCIAÇÃO da verdade, nunca podem, por isso, ser considerados como um transcurso vazio e como objeto do “conhecimento”, de uma representação. Clareira e encobrimento são arrebatadores de maneira extasiante e voltam para o interior do próprio acontecimento apropriador. E onde quer que e até o ponto em que a aparência persiste de que haveria uma abertura vazia, em si realizável de uma acessibilidade imediata ao ente, aí o homem se encontra, então, apenas no campo prévio não mais e ainda nunca concebido do abandono, campo esse que restou e, assim, ainda se encontra deixado e mantido como resto de uma fuga dos deuses. [tr. Casanova; GA65: 120] O pensar, como pensar inicial, funda o tempo-espaço em sua estrutura de arrebatamento extasiante, de encantamento, assim como ele escala e atravessa a abertura do fosso abissal do seer na unicidade, liberdade, casualidade, necessidade, possibilidade e efetividade de sua ESSENCIAÇÃO. [tr. Casanova; GA65: 120] Na abertura da ESSENCIAÇÃO do seer torna-se manifesto que o ser-aí não realiza nada, a não ser iniciar o contraimpulso do acontecimento da apropriação, isto é, a não ser inserir nesse contraimpulso e, assim, se tornar ele mesmo: o que guarda o projeto jogado, o fundador fundado do fundamento. [tr. Casanova; GA65: 122] Toda mediação e salvação tíbias não fazem outra coisa senão aprisionar o ente ainda mais no abandono do ser e transformar o esquecimento do ser na única forma da verdade, a saber, da não verdade do seer. Como é que o pressentimento poderia ganhar aí ainda o menor espaço possível, de tal modo que a recusa se mostrasse como o primeiro envio mais elevado do seer, sim, como a sua própria ESSENCIAÇÃO inicial. Esse envio acontece apropriadoramente como a retração, que vincula ao silêncio, no qual a verdade segundo sua essência chega novamente à decisão sobre se ela pode ser fundada como a clareira para o encobrir-se. Esse encobrir-se é o desencobrimento da recusa, o deixar pertencer ao elemento estranho de um outro início. [tr. Casanova; GA65: 123] Elevar à palavra conceptiva a ESSENCIAÇÃO do seer, à palavra: que ousadia não reside em tal projeto? Esse saber, tal audácia inaparente, só pode ser suportada na tonalidade afetiva fundamental da retenção. Nesse caso, porém, ele também sabe que toda tentativa de fundamentar e explicar a ousadia de fora e, com isso, não a partir daquilo que ela ousa, fica aquém do que é ousado e o mina. Mas o que é ousado não permaneceria, então, de qualquer modo preso a um arbítrio? Com certeza. Só que ainda resta a questão de saber se esse arbítrio não seria a necessidade mais elevada de uma indigência compelidora, aquela indigência, que impõe à palavra o dizer pensante do ser. [tr. Casanova; GA65: 124] O “tempo” deveria se tornar experimentável como o campo de jogo “ekstático” da verdade do seer. O arrebatamento extasiante em meio ao clareado deveria fundar a própria clareira como o aberto, no qual o seer se reúne em sua essência. Tal essência não pode ser comprovada como algo presente à vista, sua ESSENCIAÇÃO precisa ser esperada como um choque. O primeiro e longo permanece: poder esperar nessa clareira até que os acenos venham. Pois o pensar não tem mais o favor do “sistema”, ele é histórico no sentido único de que o seer mesmo suporta pela primeira vez como acontecimento apropriador toda história e, por isso, nunca pode ser alcançado pelo cálculo. [tr. Casanova; GA65: 125] O que precisa permanecer, porém, é a extração em meio ao campo de jogo temporal do seer. Essa extração acomete todo aquele que se tomou forte o suficiente para pensar inteiramente as primeiras decisões, em cujo âmbito uma seriedade sapiente serve conjuntamente com a era, à qual permanecemos próprios. Tal seriedade, por sua vez, não se depara mais com bom e mim, com decadência e salvação da tradição, com benevolência e violência, mas só vê e concebe aquilo que é, a fim de auxiliar a partir desse ente, no qual a inessência vigora como algo essencial, a saída em direção ao ceme do seer, e a fim de trazer a história para o interior de seu fundamento imanente. Por isto, Ser e tempo não é nenhum “ideal” e nenhum “programa”, mas o início que se prepara da ESSENCIAÇÃO do seer mesmo; não aquilo que nós repensamos, mas o que, contanto que tenhamos nos tornado suficientemente maduros, nos impõe a entrada em um pensar que nem fornece uma doutrina, nem ocasiona um agir “moral”, nem assegura a “existência”, mas que, ao contrário, “apenas” funda a verdade como o campo de jogo temporal, no qual o ente uma vez mais pode ser sendo, isto é, pode se transformar na guarda do seer. [tr. Casanova; GA65: 125] O seer só alcança sua grandeza, se ele é reconhecido como aquilo de que o deus dos deuses e de que toda deização precisam. O “usado” se contrapõe a toda utilização. Pois ele é o acontecimento apropriador do acontecimento da apropriação do ser-aí, no qual o sítio silencioso é fundado como a ESSENCIAÇÃO da verdade, o campo de jogo temporal do passar ao largo, o em meio a desprotegido, que desencadeia a tempestade do acontecimento da apropriação. [tr. Casanova; GA65: 126] [A abertura do fosso abissal] Essa abertura é o desdobramento que permanece em si da intimidade do seer mesmo, na medida em que nós o “experimentamos” como a recusa e como a recusa transvertora. Caso se quisesse tentar de qualquer modo o impossível e se buscasse apreender a essência do seer com o auxílio das “modalidades” metafísicas, então poder-se-ia dizer: a recusa (a ESSENCIAÇÃO do seer) é a mais elevada realidade efetiva do mais elevado possível enquanto possível, e, com isso, a primeira necessidade; contudo, seria preciso deduzir daí a proveniência das “modalidades” da ousia. Essa “elucidação” do seer, porém, o arranca de sua verdade (da clareira do ser-aí) e o degrada ao pura e simplesmente presente à vista em si, a mais deserta desertificação que pode caber ao ente. E pensemos no que acontece se essa desertificação for transportada ainda até mesmo para o seer! Ao contrário, precisamos tentar pensar a abertura do fosso abissal a partir daquela essência fundamental do seer, graças à qual ele se mostra como o reino da decisão para a luta dos deuses. Essa luta joga por sua chegada e fuga, em cuja luta os deuses pela primeira vez se deízam e colocam em decisão seu deus. [tr. Casanova; GA65: 127] O elemento conflituoso precisa residir na ESSENCIAÇÃO do seer mesmo, e o fundamento é o acontecimento da apropriação como recusa, que é uma atribuição. Nesse caso, a negação e o não seriam até mesmo o salto mais originário no seer. [tr. Casanova; GA65: 129] Acontecimento apropriador da fundação do aí deve querer dizer como genitivo objetivo que o aí, a ESSENCIAÇÃO da verdade em sua fundação (o mais originário do ser-aí), é apropriado em meio ao acontecimento, e a fundação mesma clareia o encobrir-se, o acontecimento apropriador. A viragem e o pertencimento da verdade (clareira do encobrir-se) à essência do seer. [tr. Casanova; GA65: 130] Não é possível calcular se terá sucesso esse revolvimento do homem até aqui, isto é, a fundação anterior da verdade mais originária no ente de uma nova história. Ao contrário, tudo depende da doação ou da subtração do próprio acontecimento da apropriação; e isso mesmo se a ESSENCIAÇÃO do seer já tiver sido previamente pensada na meditação atual e se ela tiver se tornado consciente nos seus traços fundamentais. [tr. Casanova; GA65: 130] Nesse caso, porém, nós precisamos recusar o hábito de querer assegurar essa ESSENCIAÇÃO do seer como algo arbitrariamente representável para qualquer um a qualquer momento. [tr. Casanova; GA65: 133] Ao contrário, nós conquistamos a unicidade da oscilação em seu puro encobrir-se sempre apenas no salto para o interior daí, sabendo que nós não alcançamos o “derradeiro”, mas a ESSENCIAÇÃO do silêncio, o que há de mais finito e único como sítios instantâneos da grande decisão sobre a permanência de fora e a chegada dos deuses, e, aí, pela primeira vez, o silêncio da guarda em relação ao passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 133] A ESSENCIAÇÃO do seer como acontecimento apropriador encerra em si o acontecimento da apropriação do ser-aí. De acordo com isso, considerado rigorosamente, o discurso acerca da ligação entre ser-aí e seer induz em erro, na medida em que sugere a opinião, segundo a qual o seer se essenciaria “por si” e o ser-aí acolheria a ligação com o seer. [tr. Casanova; GA65: 135] A ligação do ser-aí com o seer pertence à ESSENCIAÇÃO do próprio seer, o que também pode ser dito assim: o seer precisa do ser-aí, não se essencia de maneira alguma sem esse acontecimento da apropriação. [tr. Casanova; GA65: 135] Somente onde o seer se retém como o que se encobre é que o ente pode vir à tona e aparentemente dominar tudo, representando a única barreira contra o nada. E, não obstante, tudo isso se funda na verdade do seer. Mas, então, porém, a próxima e única consequência é deixar o seer e até mesmo esquecê-lo no velamento. Todavia: deixar o seer no velamento e experimentar o ser como o que se encobre são duas coisas fundamentalmente diversas. A experiência do seer, o suportar a sua verdade, traz, com certeza, o ente de volta para as suas barreiras e retira dele a aparente unicidade de seu primado. No entanto, assim ele não se torna menos essente, mas, ao contrário, mais essente, isto é, mais essencial na ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 136] No outro início, a própria ESSENCIAÇÃO do seer em sua completa estranheza em face do ente precisa ser alcançada como o elemento inicial. O ente mesmo não é mais o familiar, a partir do qual o seer só poderia ser destacado como um resto decantado, como se o seer fosse apenas a determinação maximamente universal ainda não concebida do ente de resto conhecido. No outro início consuma-se o mais extremo arrebatamento extasiante do “ente” como o supostamente normativo, por mais que ele continue ainda dominando todo pensamento. O seer não é aqui o gênero ulterior, não é a causa que se acrescenta, não é o elemento abrangente que se encontra por detrás ou acima do ente. Desse modo, o seer permanece aviltado e transformado em um adendo, cujo caráter de adendo não anula mais nenhuma ascensão em direção à “transcendência”. O seer é muito mais a ESSENCIAÇÃO a partir da qual e de volta à qual o ente, desvelado e abrigado, se torna pela primeira vez essente enquanto ente. A questão acerca da diferença entre ser e ente tem aqui um caráter completamente diverso do que no âmbito de questionamento da questão diretriz (da ontologia). O conceito de “diferença ontológica” apenas prepara enquanto transição da questão diretriz para a questão fundamental. [tr. Casanova; GA65: 137] A verdade do seer, na qual e como a qual sua ESSENCIAÇÃO se encobre, se abrindo, é o acontecimento apropriador. E isso é ao mesmo tempo a ESSENCIAÇÃO da verdade enquanto tal. Na viragem do acontecimento apropriador, a ESSENCIAÇÃO da verdade é sobretudo a verdade da ESSENCIAÇÃO. E essa contravolta mesma pertence ao seer enquanto tal. A questão: porque a verdade é em geral como encobrimento clareador? pressupõe a verdade do por quê. Os dois, contudo, a verdade e o porquê (clamor da fundação), são o mesmo. ESSENCIAÇÃO é a verdade pertinente ao seer, que emerge dele. Somente lá onde, como no primeiro início, a ESSENCIAÇÃO vem à tona como presentação, chega-se logo à cisão entre o ente e sua “essência”, o que é justamente a ESSENCIAÇÃO do seer como presentidade. Aqui permanece necessariamente sem poder ser experimentada e colocada a questão acerca do seer enquanto tal e, isso significa, a questão acerca de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 137] Caso não busquemos salvação em uma explicação do ser (da entidade) por meio do estabelecimento da primeira causa de todo ente, causa essa que causa a si mesma; caso não se dissolva o ente enquanto tal na objetualidade e não se explique uma vez mais a entidade agora a partir da re-presentação do objeto e de seu a priori; caso o seer mesmo deva chegar à ESSENCIAÇÃO e, contudo, todo tipo de ente deva ser mantido distante dele, então isso só se dará a partir de uma meditação necessária (o abandono do ser como consistindo em indigência), para a qual isso se torna inequívoco: A verdade do ser e, assim, esse ser mesmo só se essenciam onde e quando se dá o ser-aí. Ser-aí “é” apenas onde e quando o ser da verdade se dá. Uma, sim, a viragem, que indica justamente a essência do ser mesmo como o acontecimento apropriador contra-agitando-se em si. O acontecimento apropriador funda em si o ser-aí (I.). O ser-aí funda o acontecimento apropriador (II.). Fundar é aqui marcado pela viragem: I. sustentador e inteiramente imperante, II. instituidor projetante. [tr. Casanova; GA65: 140] O estremecimento da vibração na viragem, a apropriação do ser-aí pertinente-fundador-acolhedor para o aceno; essa ESSENCIAÇÃO do seer não é ela mesma o último deus. Ao contrário, a ESSENCIAÇÃO do seer funda o abrigo e, com isso, o resguardo criador do deus, que sempre apenas deiza inteiramente o seer em obra e sacrifício, em ato e pensamento. Portanto, o pensar enquanto pensar inicial do outro início também consegue chegar à longínqua proximidade do último deus. Ele chega até ela por meio da e em sua história de autofundação; mas isso nunca sob a figura de um resultado, de um modo de re-presentação a ser trazido à tona, que traz o deus para o abrigo. Todas as pretensões como essas, aparentemente supremas, são baixas e não passam de uma degradação do seer! [tr. Casanova; GA65: 142] Naturalmente, o acontecimento apropriador nunca pode ser representado imediatamente de maneira objetual. O acontecimento da apropriação é a contravibração entre o homem e os deuses, mas justamente esse entre e sua ESSENCIAÇÃO, que é fundada pelo ser-aí nesse ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 143] O seer e a ESSENCIAÇÃO de sua verdade são do homem, na medida em que ele vem a ser insistentemente como ser-aí. Mas isso significa ao mesmo tempo: o seer não se essencia pela graça do homem, pelo fato apenas de que o homem ocorre. [tr. Casanova; GA65: 143] A origem da contenda a partir da intimidade do não no seer! Acontecimento apropriador. A intimidade do não no seer: pertencente em primeiro lugar à sua ESSENCIAÇÃO. Por quê? Ainda se pode perguntar assim? Se não, por que razão não? A intimidade do não e o contencioso no ser: isso não é a negatividade de Hegel? Não, e, porém, Hegel, como já tinha acontecido com O sofista de Platão e, antes dele, com Heráclito, experimentou algo essencial de um modo mais essencial e, contudo, uma vez mais, de forma diversa, algo essencial, mas suspenso no saber absoluto; a negatividade está aí apenas para desaparecer e colocar em curso o movimento da suspensão. Precisamente não a ESSENCIAÇÃO. Por que não? Porque o ser é determinado como entidade (realidade efetiva) a partir do pensar (saber absoluto). Não isto e isto em primeiro lugar e sozinho é que é válido, o fato de que mesmo a contra-parte “é” e os dois se compertencem, mas se já temos o contrário como contravibração, então isso se dá como acontecimento apropriador. Antes disso, nunca há senão suspensão e reunião (logos). Agora, contudo, temos libertação e abismo e a completa ESSENCIAÇÃO no tempo-espaço da verdade originária. Agora não o noein, mas a insistência que abriga. A contenda como ESSENCIAÇÃO do “entre”, não como o também deixar vigorar do adverso. Com efeito, reside na sentença de Heráclito sobre o polemos uma das maiores intelecções da filosofia ocidental, e, contudo, ela não podia ser desdobrada em nome da questão acerca da verdade, assim como também não em nome da questão acerca do ser. De onde, contudo, a intimidade do não no seer? De onde tal ESSENCIAÇÃO do seer? Sempre uma vez mais, o questionamento se choca com esse ponto; trata-se da questão acerca do fundamento da verdade do seer. Mas a verdade mesma é o fundamento. E ela? Ela emerge no se-manter-na-verdade! Todavia, como é essa origem? Manter-se na verdade, nossa irrupção e vontade a partir de nossa indigência, porque nós nos entregamos à responsabilidade e nos identificamos – a nós? Quem somos nós mesmos? Portanto, porém, não o nosso, mas o fato de que nós suportamos o si mesmo por meio da abertura, e de que, no si mesmo, se abre veladamente o para si e, com isso, o seer como acontecimento apropriador. E, por conseguinte, não “nós” como o ponto de partida, mas “nós”: como expostos e transpostos, mas no esquecimento dessa transposição. Se, assim, o acontecimento apropriador brilha em meio à determinação da ipseidade, então reside aí a indicação para a intimidade. Quanto mais originariamente nós somos nós mesmos, tanto mais amplamente somos voltados para fora já em meio à ESSENCIAÇÃO do seer; e, inversamente. Somente se o ponto base da questão for tomado aqui é que o “fundamento” da intimidade será aberto. Esse ponto de base é o decisivo. O seer não é nada “humano” como o seu produto, e, no entanto, a ESSENCIAÇÃO do seer necessita do ser-aí e, assim, da insistência do homem. [tr. Casanova; GA65: 144] O que significa: o ser “é” in-finito? A questão não pode ser de maneira alguma respondida, se a essência do seer não se encontrar concomitantemente em questão. E o mesmo vale para a sentença: o ser é finito, se in-finitude e finitude foram consideradas como conceitos de grandeza presentes à vista. Ou se tem em vista com isso uma qualidade e qual? A questão acerca da ESSENCIAÇÃO do seer se encontra por fim fora da contenda daquelas sentenças; e a sentença “o seer é finito” só é visada como rejeição transitória em relação ao “idealismo” de todo e qualquer tipo. Caso nós nos movimentemos, porém, na contenda daquelas sentenças, então seria preciso dizer: se o seer é estabelecido como infinito, então ele é precisamente determinado. Se ele for estabelecido como finito, então sua a-bissalidade é afirmada. Pois o in-finito não pode ser visado como o que flui sem fim, apenas se espalhando, mas precisa ser pensado como o círculo fechado! Em contrapartida, o acontecimento apropriador se encontra em sua “viragem”! (contenciosa). [tr. Casanova; GA65: 147] [O ente é] De maneira imediata, essa sentença não diz nada. Pois ela repete apenas o que já foi dito com “o ente”. A sentença não diz nada, enquanto ela é compreendida imediatamente, até o ponto em que isto é em geral possível, ou seja, enquanto ele for pensado de modo desprovido de pensamentos. Em contrapartida, se a sentença for voltada imediatamente para o âmbito da verdade: o ser se essencia, então ela diz: o ente pertence à ESSENCIAÇÃO do seer. E, agora, a sentença sai de uma obviedade desprovida de pensamento para a questionabilidade. Mostra-se que a sentença não é algo derradeiro em meio à dizibilidade, mas o que há de mais provisório na questionabilidade. [tr. Casanova; GA65: 148] O que isso significa: pertencente à ESSENCIAÇÃO do ser? E ao mesmo tempo também se levanta a questão: o ente, qual? O que é para nós o ente? O em face de? O afastado, que nós deixamos ser posicionado como objeto? O ente a partir do encontro como “sendo”, por que encontro? Quando encontrando e como? Para o re-presentar? Ou será que o “ente” é aquilo que cai fora da ESSENCIAÇÃO do seer? [tr. Casanova; GA65: 148] Nós denominamos arbitrariamente em certa medida o ti estin a constituição (quididade, essentia) e o oti estin o “modo” (o fato de que e o modo como, existentia). Mais importante do que os nomes é a coisa e, com isto, a questão sobre como essa diferenciação emerge da entidade do ente e, com isto, pertence à ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 149] Para saber dessa abertura em sua estrutura, precisamos experimentar o abismo (cf verdade) como pertencente ao acontecimento apropriador. A ESSENCIAÇÃO do seer permaneceu sempre cerrada para a filosofia, enquanto ela tinha em vista que se poderia, por exemplo, saber o ser por meio da invenção imaginativa dos diversos conceitos de modalidade, construindo-o por assim dizer de maneira composta. Abstraindo-se da origem questionável das modalidades, uma coisa é aqui decisiva: o salto para o interior do seer como acontecimento apropriador; e pela pnmeira vez a partir daí se abre o fosso abissal. Mas justamente esse salto carece da mais longa preparação, e essa encerra em si a completa separação do ser como a entidade e a determinação “mais geral”. [tr. Casanova; GA65: 156] Aqui, porém, alguém precisa estar equipado para a inesgotabilidade do simples, para que ele não se lhe subtraia mais por meio de uma interpretação equivocada como o vazio. O simples, no qual se reuniu toda a ESSENCIAÇÃO, precisa ser reencontrado em cada ente, não, esse ente é que precisa ser reencontrado naquele simples. Mas só alcançamos o simples, na medida em que o conservamos, em cada coisa, no campo de jogo de seu mistério e não achamos que seria preciso apanhar de surpresa o seer por meio da decomposição de nosso conhecer já fixo de suas propriedades. [tr. Casanova; GA65: 156] A abertura do fosso abissal tem sua primeira e mais ampla mensuração na necessidade do deus em uma direção e no pertencimento (ao seer) do homem segundo a outra direção. Aqui se essenciam os precipícios do deus e a subida do homem como aquele que é fundado no ser-aí. A abertura do fosso abissal é o alijamento interior incalculável do acontecimento da apropriação, da ESSENCIAÇÃO do seer como o meio utilizado que confere pertencimento, que permanece ligado ao passar ao largo do deus e, sobretudo, à história do homem. [tr. Casanova; GA65: 157] O acontecimento apropriador se apropria do deus para o homem, na medida em que atribui apropriadoramente o homem ao deus. No acontecimento apropriador, o ser-aí e, com isso, o homem são fundados abissalmente, se o ser-aí tem sucesso no salto para o interior da fundação criadora. Aqui acontece apropriadoramente a recusa e a permanência de fora, o acometimento e o acaso, a retenção e a transfiguração, a liberdade e a imposição radical. Isso acontece apropriadoramente, isto é, isso pertence à ESSENCIAÇÃO do acontecimento apropriador mesmo. Todo e qualquer tipo de disposição ordenada das “categorias”, de transposição e de mistura fracassa aqui, porque as categorias são ditas a partir do ente e em uma direção de volta a ele, porque elas nunca denominam e conhecem o seer mesmo. [tr. Casanova; GA65: 157] Em termos de “visão de mundo”, o ser para a morte permanece inacessível; e, se ele é assim equivocadamente interpretado, como se o sentido de ser em geral e, com isso, a sua “nulidade” no sentido habitual devessem ser ensinados, então tudo é arrancado de seu contexto essencial. O essencial não é levado a termo, a saber, o pensar próprio à suma conceitual do ser-aí, em cuja clareira se desentranha a plenitude da ESSENCIAÇÃO do seer em se encobrindo. [tr. Casanova; GA65: 163] Aqui, porém, nesse elemento extremo, a palavra precisa da violência, e ESSENCIAÇÃO não deve denominar algo que ainda se acha muito para além do seer, mas algo que dá voz ao seu interior, o acontecimento apropriador, aquele contramovimento de seer e ser-aí, no qual os dois não se mostram como polos presentes à vida, mas como a pura oscilação mesma. [tr. Casanova; GA65: 164] A “essência” não é mais o koinon e o genos da ousia e do tode ti (ekaston), mas ESSENCIAÇÃO como o acontecimento da verdade do seer e, em verdade, em sua história plena, que abarca respectivamente o abrigo da verdade no ente. Como, porém, a verdade precisa estar fundada no ser-aí, a ESSENCIAÇÃO do seer só pode ser conquistada na constância, que o aí suporta no saber assim determinado. A essência como ESSENCIAÇÃO não é nunca apenas re-presentável, mas só é concebida no saber da tempo-espacialidade da verdade e de seu respectivo abrigo. O saber da essência exige e é ele mesmo o salto para o interior do ser-aí. Por isto, ele nunca pode ser conquistado por meio da mera consideração geral do dado e de sua interpretação já firmada. A ESSENCIAÇÃO não reside “acima” do ente e cindida dele, mas o ente se encontra no seer e tem apenas nele, se encontrando imerso nele e apartado, a sua verdade como o verdadeiro. Juntamente com esse conceito da ESSENCIAÇÃO, então, também precisa ser estabelecida e concebida a “diferenciação” de seer e ente e tudo aquilo que está fundado nessa diferenciação, na medida em que cai do “lado” da entidade todo “categorial” e “ontológico”. [tr. Casanova; GA65: 165] A ESSENCIAÇÃO e a essência concebidas como acontecimento da verdade do seer. O seer não se deixa retransportar para a ESSENCIAÇÃO, uma vez que essa ESSENCIAÇÃO mesma se tornou um ente. A questão acerca do ser da essência só é possível e necessária no interior do estabelecimento da essência como koinon (cf mais tarde a questão dos universais). Como quer que a questão venha a ser respondida, a “essência” mesma é sempre degradada. [tr. Casanova; GA65: 166] Se perguntarmos sobre a “essência” na direção habitual do questionamento, então vem à tona a questão acerca daquilo que “transforma” um ente naquilo que ele é, e, com isso, acerca daquilo que constitui o seu quid, a questão acerca da entidade do ente. Essência é aqui apenas a outra palavra para ser (compreendido como entidade). E, de acordo com isso, ESSENCIAÇÃO tem em vista o acontecimento apropriador, na medida em que ele acontece apropriadoramente naquilo que lhe é pertinente, a verdade. Acontecimento da verdade do seer, isso é ESSENCIAÇÃO; não e nunca, com isso, um modo de ser que advêm ainda uma vez mais ao seer ou mesmo que subsiste em si acima dele. [tr. Casanova; GA65: 166] A essência é apenas re-presentada, idea. ESSENCIAÇÃO, porém, não é apenas a acoplagem entre o quid e o modo de ser, e, assim, uma re-presentação mais rica, mas a unidade mais originária daqueles dois. [tr. Casanova; GA65: 167] A ESSENCIAÇÃO não pertence a todo e qualquer ente, sim, no fundo, ela só pertence ao ser e àquilo que cabe a ele mesmo, a verdade. [tr. Casanova; GA65: 167] A partir da ESSENCIAÇÃO do ser, então, também muda a “essência” anterior, de maneira correspondente à inserção da questão diretriz na questão fundamental. [tr. Casanova; GA65: 167] A ESSENCIAÇÃO daquilo em que precisamos experimentalmente entrar. Isso visa aqui à “experiência”; entrar experimentalmente, a fim de se encontrar nela e suportá-la, o que acontece como ser-aí e sua fundação. [tr. Casanova; GA65: 167] Pertencente sempre e a cada vez a cada um deles, afinado em meio ao inesperado, essa não enumeração dos deuses está longe de se mostrar como a arbitrariedade do que deixa tudo vigorar. Pois essa não enumeração é já a consequência de um ser-aí mais originário: de sua reunião no revolvimento da recusa, a ESSENCIAÇÃO do seer. Dito na linguagem que sobreviveu da metafísica, isso significa: a recusa como ESSENCIAÇÃO do ser é a mais elevada realidade efetiva do mais elevado possível enquanto possível e, com isso, é a primeira necessidade. Ser-aí é fundação da verdade dessa abertura maximamente simples do fosso abissal. [tr. Casanova; GA65: 169] O ser-aí não é o modo da realidade efetiva de qualquer ente, mas é ele mesmo o ser do aí. O aí, porém, é a abertura do ente enquanto tal na totalidade, o fundamento da aletheia mais originariamente pensada. O ser-aí é um modo de ser, que, na medida em que ele “é” o aí (por assim dizer de maneira ativa e transitiva), é de acordo com esse ser insigne e como esse ser mesmo um ente de um tipo único (o essenciante da ESSENCIAÇÃO do seer). [tr. Casanova; GA65: 173] O ser-aí é o fundamento que propriamente se funda da aletheia da physis, a ESSENCIAÇÃO daquela abertura, que reabre pela primeira vez o encobrir-se (a essência do seer) e que, assim, se mostra como a verdade do próprio seer. [tr. Casanova; GA65: 173] O ser-aí como a ESSENCIAÇÃO da clareira do que se encobre pertence a esse encobrir-se mesmo, que se essência como o acontecimento apropriador. [tr. Casanova; GA65: 173] A suportabilidade insistente da clareira do encobrir-se é assumida na determinação de uma busca, de um cuidado e de uma guarda do homem, que se apropria do ser em meio ao acontecimento, que se sabe pertinente ao ser como a ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 173] O “seer” não é um produto do “sujeito”, mas o ser-aí como superação de toda subjetividade emerge da ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 180] A verdade do seer: ela precisa ser determinada antes do seer, sem que olhemos para ele, ou ela precisa ser determinada posteriormente, só com um olhar retrospectivo sobre o seer, ou nenhum dos dois, mas juntamente com o seer, porque pertencente à sua ESSENCIAÇÃO? [tr. Casanova; GA65: 184] A fundação é ambígua: 1) O fundamento funda, se essencia como fundamento. 2) Este fundamento fundante é alcançado enquanto tal e assumido. Sondagem do solo fundamental: a) Deixar o fundamento se essenciar enquanto fundamento; b) Construir sobre ele enquanto fundamento, trazer algo para o fundamento. O fundar originário do fundamento (1) é a ESSENCIAÇÃO da verdade do seer; a verdade é fundamento no sentido originário. A essência do fundamento originariamente a partir da essência da verdade, verdade e tempo-espaço (a-bismo). Sob o título “fundação”, tem-se em vista a princípio, de acordo com o nexo com o “salto”, o significado (2) (a) e (b). Por isto, porém, ele se acha não apenas ligado ao (1), mas também é determinado a partir daí. [tr. Casanova; GA65: 187] Ser-aí é o acontecimento da abertura do fosso abissal do centro de giro da viragem do acontecimento apropriador. Abertura do fosso abissal é acontecimento da apropriação, sobretudo e antes de tudo a abertura do fosso abissal e a partir dela a cada vez o homem histórico e a ESSENCIAÇÃO do ser, aproximação e distanciamento dos deuses. [tr. Casanova; GA65: 190] Ser-aí é a persistência constante da ESSENCIAÇÃO da verdade do seer. Desdobramento da determinação do aí como fundação do ser-aí. O aí se essencia e, se essenciando, precisa ser assumido no ser do ser-aí; o “entre”. [tr. Casanova; GA65: 190] O entre, que não se dá apenas a partir da ligação dos deuses com os homens, mas que se mostra como aquele entre, que funda pela primeira vez o tempo-espaço para a ligação, na medida em que ele mesmo emerge na ESSENCIAÇÃO do seer como acontecimento apropriador e torna decidível, como o centro que se abre, os deuses e os homens uns para os outros. [tr. Casanova; GA65: 191] Quem é o homem? Aquele que é usado pelo seer para a suportação da ESSENCIAÇÃO da verdade do seer. Usado assim, contudo, o homem só “é” homem, na medida em que ele está fundado no ser-aí, isto é, na medida em que ele mesmo se torna de maneira criativa o fundador do ser-aí. O seer, porém, é concebido aqui ao mesmo tempo como acontecimento apropriador. As duas coisas se com-pertencem: a refundação no ser-aí e a verdade do seer como acontecimento apropriador. Nós não concebemos nada da direção aqui aberta do questionamento, se colocarmos inopinadamente à base de nossa concepção representações quaisquer do homem e do “ente enquanto tal”, ao invés de colocarmos ao mesmo tempo o “homem” e o seer (não o ser do homem simplesmente) em questão e de nos mantermos nessa questão. [tr. Casanova; GA65: 195] O ser si mesmo é a ESSENCIAÇÃO do ser-aí e o ser si mesmo do homem realiza-se apenas a partir da insistência no ser-aí. Costuma-se conceber o “si mesmo” por um lado na ligação de um eu “consigo”. Essa ligação é tomada como uma ligação representacional. E, por fim, a ipseidade daquele que representa é tomada com o representado enquanto essência do “si mesmo”. Neste caminho e em caminhos correspondentemente modulados, contudo, a essência do si mesmo nunca tem como ser alcançada. Pois, antes de tudo, não há nenhuma propriedade do homem presente à vista e, com a consciência do eu, só há uma propriedade aparente. De onde vem essa aparência é algo que só pode ser clarificado a partir da essência do si mesmo. [tr. Casanova; GA65: 197] Ipseidade emerge como ESSENCIAÇÃO do ser-aí a partir da origem do ser-aí. E a origem do si mesmo é a proprie-dade. Essa palavra é aqui tomada como a palavra princi-pado. O domínio da apropriação no acontecimento apropriador. A apropriação é, sobretudo, atribuição apropriadora e sobreapropriação. Na medida em que o ser-aí é atribuído de maneira apropriadora a si como pertencente ao acontecimento apropriador, ele chega a si mesmo; mas nunca de modo tal como se o si mesmo fosse já uma consistência presente à vista, só que ainda não alcançada até aqui. Ao contrário, o ser-aí só chega a si mesmo, na medida em que a atribuição apropriadora ao pertencimento se torna ao mesmo tempo sobreapropriação no acontecimento apropriador. Ser-aí – persistência constante do aí. A proprie-dade como domínio da apropriação é acontecimento da atribuição a si próprio e como sobreapropriação em si conjugada. [tr. Casanova; GA65: 197] [O projeto e o ser-aí] Ele é primeiro o entre, em cuja abertura o ente e a entidade são diferenciáveis; e isso de tal modo, com efeito, que só o ente mesmo (isto é, justamente velado, ele enquanto tal e, com isso, de acordo com a sua entidade) é de saída experimentável. A mera transição para a essência como idea desconhece o projeto do mesmo modo que o recurso à necessária dação prévia do “ente”. Como é, porém, que o projeto e sua ESSENCIAÇÃO enquanto ser-aí permanecem encobertos pelo predomínio da re-presentação? Como a representação se transforma na relação sujeito-objeto e na “consciência” de que eu-represento? E como, em contrapartida, então, a vida é acentuada? Essa re-ação, por fim, em Nietzsche é a prova da não originariedade de seu questionamento. [tr. Casanova; GA65: 203] 1) O retorno crítico da correção para a abertura. 2) A abertura em primeiro lugar como a mensuração essencial da aletheia, que ainda se mostra nesse aspecto indeterminada. 3) Essa mensuração essencial determina ela mesma o “lugar” (tempo-espaço) da abertura: o em-meio-a clareado do ente. 4) Para que a verdade se destaque definitivamente de todo ente em todo e qualquer tipo de interpretação, seja como physis, seja como idea ou perceptum e objeto, algo sabido, pensado. 5) Agora, porém, com maior razão, temos a questão acerca de sua própria ESSENCIAÇÃO; essa só é de-terminável a partir da essência e essa essência a partir do seer. 6) A essência originária, contudo, é clareira do encobrir-se, isto é, a verdade é a verdade originária do seer (acontecimento apropriador). 7) Essa clareira se essencia e é na suportabilidade criativa afinada: isto é, a verdade “é” como fundação do aí e como ser-aí. 8) O ser-aí é o fundamento do homem. 9) Com isso, entretanto, novamente formulado: quem é o homem. [tr. Casanova; GA65: 206] Por meio daí, a aletheia é destacada de todo e qualquer ente, de modo tão decidido que, agora, a questão acerca de seu próprio seer, questão essa que se determina por meio dela mesma e a partir de sua ESSENCIAÇÃO, se torna incontornável. Mas a ESSENCIAÇÃO da verdade originária só pode ser experimentada, se esse em-meio-a clareado que funda a si mesmo e determina o tempo-espaço for ressaltado naquilo de que e para o que ele é clareira, a saber, para o encobrir-se. O encobrir-se, porém, aponta para a doutrina fundamental do primeiro início e de sua história (da metafísica enquanto tal). O encobrir-se é um caráter essencial do seer, e, com efeito, precisamente na medida em que o seer precisa da verdade e se apropria, assim, do ser-aí em meio ao acontecimento, se mostrando em si originariamente, com isso, como acontecimento apropriador. Agora, a essência da verdade se transformou originariamente no ser-aí, e agora a pergunta não tem qualquer sentido, se e como, por exemplo, o “pensar” (o “pensar” que pertence inicialmente e de modo derivado apenas à aletheia, homoiosis) poderia levar a cabo e assumir o “desvelamento”. Pois o pensar mesmo está agora entregue em sua possibilidade inteiramente à responsabilidade do em-meio-a clareado. Pois a ESSENCIAÇÃO do aí (da clareira para o encobrir-se) só pode ser determinada a partir dele mesmo, do mesmo modo que o ser-aí só chega até a fundação a partir da ligação clareadora do aí com o encobrir-se enquanto seer. Todavia, a partir do fundamento posteriormente visível, não é suficiente nenhuma “faculdade” do homem até aqui (animal racional). O ser-aí funda-se e essencia-se na suportabilidade afinada e criadora e, assim, se torna ele mesmo o fundamento e o fundador do homem, que agora é novamente colocado diante da questão sobre quem ele é, uma questão que interroga o homem de maneira mais originária como o guardião da tranquilidade do passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 207] 1) Não de uma mera alteração do conceito. 2) Não de uma intelecção mais originária da essência. 3) Mas do salto para o interior da ESSENCIAÇÃO da verdade. 4) E, consequentemente, de uma transformação do ser humano no sentido do tres-loucamento de sua posição no ente. 5) E, por isso, em primeiro lugar, de uma dignificação mais originária e do apoderamento do seer mesmo como acontecimento apropriador. 6) E, por isso, antes de tudo, trata-se da fundação do ser humano no ser-aí como o fundamento exigido pelo seer mesmo de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 213] A partir da lembrança do início (da aletheia) tanto quanto a partir da meditação sobre o fundamento da possibilidade da correção (adaequatio), nós nos deparamos com o mesmo: a abertura do aberto. Com isto, é dada apenas uma primeira indicação da essência, que se determina de maneira mais essencial como clareira para o encobrir-se. Mas já a abertura se mostra como bastante enigmática, abstraindo-se completamente do modo de sua ESSENCIAÇÃO. [tr. Casanova; GA65: 214] A abertura: isso não é o que há de mais vazio do vazio? (cf verdade e a-bismo). É assim que ela aparece, quando tentamos tomá-la por assim dizer por si como uma coisa. Mas o aberto, no qual, ao mesmo tempo se encobrindo, o ente a cada vez se encontra, e, com efeito, não apenas as coisas imediatamente à mão, é, de fato, algo assim como um meio oco, por exemplo, o meio do cântaro. Aqui reconhecemos, contudo, que não se trata de um vazio arbitrário qualquer cercado por paredes e deixado sem preenchimento pelas coisas, mas, ao contrário, o meio oco é o elemento que cunha e suporta de maneira determinante a constituição das paredes e de suas margens. Essas paredes e margens não são senão a irradiação daquele aberto originário, que deixa se essenciar sua abertura, na medida em que exige tais paredes (a forma do vaso) à sua volta e em relação consigo. Assim, no que cerca se reflete a ESSENCIAÇÃO do aberto. De maneira correspondente, só que mais essencial e mais rica, é que nós precisamos compreender a ESSENCIAÇÃO da abertura do aí. Suas paredes circundantes não são, naturalmente, nada que se ache presente à vista como uma coisa, sim, em geral não é um ente e nem mesmo o ente, mas as paredes do próprio ser, o estremecimento do acontecimento apropriador no aceno do encobrir-se. [tr. Casanova; GA65: 214] O quão pouco, porém, a representação diretriz da luz podia fixar aquele aberto e sua abertura e elevá-los ao nível do saber, é algo que se mostra no fato de precisamente a “clareira” e o “clareado” não terem sido apreendidos, mas de a representação ter se desdobrado na direção do luzir, do fogo e da centelha, com o que, então, logo só permaneceu normativa ainda uma relação causal da iluminação, até que, por fim, tudo resvalou e decaiu na indeterminação da “consciência” e da perceptio. Assim como o aberto e a abertura não foram perseguidos em sua ESSENCIAÇÃO (algo diverso tinha sido antes de tudo em geral entregue aos gregos como tarefa), também não ficou claro nem foi atribuído a uma experiência fundamental a ESSENCIAÇÃO do velamento – o encobrimento. Aqui também, de maneira autenticamente grega, o velado se transformou em algo ausente, e o acontecimento do encobrimento se perdeu tanto quanto, com isso, a necessidade de fundá-lo expressamente e de concebê-lo completamente em sua conexão interna com a ESSENCIAÇÃO da abertura, fundando, por fim e em primeiro lugar, esse elemento uno também como uma essência originariamente própria. [tr. Casanova; GA65: 214] Uma questão decisiva: a ESSENCIAÇÃO da verdade é fundada no ser-aí como clareira para o encobrir-se ou é a ESSENCIAÇÃO da verdade mesma o fundamento para o ser-aí ou as duas coisas são válidas? E o que significa aí a cada vez “fundamento”? Essas questões só podem ser decididas, se a verdade for concebida na essência indicada como verdade do seer e, com isso, a partir do acontecimento apropriador. O que significa isso: estar constantemente colocado em seu aberto diante do encobrir-se, da re-núncia, da hesitação? Retenção e, por isso, tonalidade afetiva fundamental: horror, retenção, pudor. Tal experiência “doada” apenas ao homem e quando e como. [tr. Casanova; GA65: 215] O “aí” se essencia e, enquanto algo que se essencia, ele precisa ser assumido juntamente com um ser: ser-aí. Por isto, o suportar jurisdicional da ESSENCIAÇÃO da verdade do seer. Essa ambiguidade é o enigma. Por isto, o ser-aí é o entre que se encontra entre o seer e o ente. [tr. Casanova; GA65: 217] Se dizemos que a verdade é clareira para o encobrimento, então apenas indicamos com isso a ESSENCIAÇÃO, na medida em que a essência é denominada. Ao mesmo tempo, porém, essa denominação deve indicar que a interpretação da ESSENCIAÇÃO da verdade se encontra na lembrança da aletheia, isto é, não na mera palavra literalmente traduzida, em cujo âmbito, então, uma vez mais, entra em cena a concepção tradicional, mas na lembrança da aletheia como o nome para o primeiro reluzir da própria verdade e, com efeito, necessariamente na unidade com a denominação inicial do ente enquanto physis. [tr. Casanova; GA65: 218] Mais essente do que todo e qualquer ente é o próprio seer. O que há de mais essente não “é” mais, mas se essência como a ESSENCIAÇÃO (acontecimento apropriador). [tr. Casanova; GA65: 219] A questão acerca da verdade é a questão acerca da ESSENCIAÇÃO da verdade. A verdade mesma é aquilo em que o verdadeiro tem seu fundamento. [tr. Casanova; GA65: 220] O verdadeiro: o que se encontra na verdade e que, assim, se torna o que é ou o que não é. Verdade: a clareira para o encobrimento (verdade como a não verdade), em si querelante e nula, que se mostra como a intimidade originária, e isso porque. Verdade: verdade do seer como acontecimento apropriador. O verdadeiro e ser o verdadeiro são ao mesmo tempo em si o não verdadeiro, o dissimulado e suas modulações. A ESSENCIAÇÃO da verdade. [tr. Casanova; GA65: 220] Só se nos encontramos na clareira, experimentaremos o encobrir-se. A verdade jamais se mostra como o “sistema” que é composto por sentenças, às quais se poderia recorrer. Ela é o fundamento como o fundamento que recolhe e que atravessa de maneira soberana, que prepondera sobre o velado, sem suspendê-lo, a tonalidade afetiva que afina como esse fundamento. Pois esse fundamento é o próprio acontecimento apropriador como ESSENCIAÇÃO do seer. O acontecimento apropriador suporta a verdade = a verdade é atravessada de maneira soberana pelo acontecimento apropriador. [tr. Casanova; GA65: 222] O quão parco é o nosso saber sobre os deuses e o quão essencial é, de qualquer modo, sua ESSENCIAÇÃO e degenerescência na abertura dos velamentos do aí, na verdade? [tr. Casanova; GA65: 224] A verdade, portanto, nunca é apenas clareira, mas ela se essencia como encobrimento de maneira tão originária e íntima quanto a clareira. Os dois, clareira e encobrimento, não são dois, mas a ESSENCIAÇÃO do uno, da própria verdade. Na medida em que a verdade se essencia, a verdade vem a ser, vem a ser o acontecimento apropriador da verdade. Dizer que o acontecimento apropriador acontece apropriadoramente não significa outra coisa senão: que ele e apenas ele se torna verdade; isso que pertence ao acontecimento apropriador vem a ser, de tal modo que justamente a verdade se mostra essencialmente como verdade do seer. [tr. Casanova; GA65: 225] A clareira para o encobrimento como essência originária-unificadora é o abismo do fundamento, como o qual o aí se essencia. A concepção fatídica: “a verdade é a não verdade” permanece por demais mal interpretável, para que ela pudesse mostrar com segurança a via correta. Todavia, ela deve indicar o elemento estranho que reside no novo projeto da essência – a clareira para o encobrimento e isso como ESSENCIAÇÃO no acontecimento apropriador. Que retenção jurisdicional do ser-aí é requisitada com isso hierarquicamente, se essa essência da verdade deve chegar a ser sabida como o originariamente verdadeiro? Agora também fica mais clara pela primeira vez a origem da errância e o poder e a possibilidade do abandono do ser, o encobrimento e a di-ssimulação; o domínio do não fundamento. O mero aceno para a aletheia com vistas à explicação da essência da verdade, essência essa colocada aqui como fundamento, não nos ajuda a seguir adiante porque, na aletheia, precisamente o acontecimento do desencobrimento e do encobrimento não são experimentados e concebidos como fundamento, uma vez que, sim, o questionar continua sendo determinado a partir da physis, o ente enquanto ente. [tr. Casanova; GA65: 226] As coisas são diversas, porém, no que concerne à clareira para o encobrimento. Aqui nos encontramos na ESSENCIAÇÃO da verdade, e essa é verdade do seer. A clareira para o encobrimento é já a oscilação da contraoscilação da viragem do acontecimento apropriador. Mas as tentativas até aqui em Ser e tempo e nos escritos seguintes de impor essa essência da verdade contra a correção do re-presentar e do enunciar como fundamento do próprio ser-aí precisavam permanecer insuficientes, porque elas foram sempre realizadas a partir da repulsae, com isso, porém, tinham sempre o re-pelido como ponto de mira, tornando impossível saber a essência da verdade desde o seu fundamento, desde o fundamento como o qual ela mesma se essencia. Para que se tenha sucesso nesse empreendimento é necessário não reter mais o dizer sobre a essência do seer, seguindo uma vez mais a partir da opinião de que se poderia, apesar da intelecção da necessidade do projeto que salta para frente, abrir por fim de qualquer modo, a partir do que se deu até aqui, gradualmente um caminho para a verdade do seer. Isso, porém, precisa sempre fracassar. E o novo perigo se torna tão forte, que o acontecimento apropriador se transforma agora ao mesmo tempo apenas em um nome e em um conceito manuseável, a partir do qual algo diverso poderia ser “deduzido”, mas que precisa, porém, ser dito dele; uma vez mais, contudo, não destacado em uma discussão “especulativa”, mas na meditação exigida, mantida pela indigência do abandono do ser. [tr. Casanova; GA65: 226] Quando cheguei a determinações tais como: o ser-aí é ao mesmo tempo na verdade e na não-verdade, então se compreendeu essa sentença imediatamente de uma maneira moral ligada a uma visão de mundo, sem apreender o decisivo da meditação filosófica, a ESSENCIAÇÃO do “ao mesmo tempo” como essência fundamental da verdade, e sem uma concepção originária da não-verdade no sentido do encobrimento (e não, por exemplo, da falsidade). [tr. Casanova; GA65: 226] 1) A verdade se essencia e por quê? Porque só assim se tem a ESSENCIAÇÃO do seer. Por que seer? 2) A essência da verdade funda a necessidade do porquê e, com isso, da questão. A questão acerca da verdade acontece por causa do seer, que precisa do nosso pertencimento como o que funda o ser-aí. 3) A primeira questão (1) é em si a determinação essencial da verdade. 4) Como precisa ser estabelecida a questão acerca da verdade. Partir da ambiguidade essencial: a “verdade” visada como “o verdadeiro”; o verdadeiro, porém, é a verdade como encobrimento clareador do acontecimento apropriador. Essa luz para o início é uma claridade, mas sem brilho e sem irradiação. O próprio encobrimento tanto mais claro, brilhando através da profundidade do encobrimento. 5) Como é que o conceito há muito legado da verdade como correção não apenas guia de saída a questão, mas também sugere que a resposta a ela precisaria ser medida por uma correção e, com isso, que a essência da verdade precisaria ser deduzida de algo previamente dado, que ela re-stitui. 6) Desdobrar em primeiro lugar a verdade na essência como encobrimento clareador (dissimulação e velamento). 7) A verdade como fundamento do tempo-espaço, mas, por isso, ao mesmo tempo essencialmente determinável a partir desse tempo-espaço. 8) O tempo-espaço como sítio instantâneo a partir da viragem do acontecimento apropriador. 9) A verdade e a necessidade do abrigo. 10) Abrigo como contestação da contenda entre mundo e terra. 11) As vias historicamente necessárias do abrigo. 12) Como é que no abrigo pela primeira vez o ente se torna essente. 13) Como é que só na mensuração que medita retrospectivamente sobre o caminho precedente se desdobra o âmbito, no qual e o qual acontece como a “diferenciação” de seer e ente. Ser-aí se essenciando como o “entre”. [tr. Casanova; GA65: 227] Em face da desertificação e desfiguração crescente da filosofia, algo essencial já teria sido conquistado há um bom tempo, caso se tivesse conseguido colocar da maneira correta a questão acerca da verdade a partir de sua necessidade. Sua necessidade emerge da indigência do abandono do ser. A maneira correta de formulação da questão é a transição para a essência originária sob a clarificação do ponto de partida, do conceito dominante da correção. Ao mesmo tempo, é preciso que se conceba o fato de que é só com a verdade na viragem que se determina pela primeira vez a verdade da essência e da ESSENCIAÇÃO, e, por isso, desde o início, não um conceito de “essência” no sentido de uma reunião genericamente correta de propriedades maximamente universais, acessíveis imediatamente para qualquer um, conceito esse que pode ser almejado e exigido; ao contrário, algo mais elevado, junto ao qual o desenraizamento já há muito dominante pode ser já imediatamente mensurado. Verdade é a partir daqui, isto é, experimentada de maneira historicamente necessária, o tresloucamento que transpõe para o deslocamento. [tr. Casanova; GA65: 227] Verdade, aletheia, quase não ressoando aí, poderosa, com efeito, mas infundada e mesmo não propriamente fundante. A correção leva a psyche a alcançar o primado, assim como acontece com a relação sujeito-objeto. Como o domínio da correção já tem a sua longa história, é só muito lenta e dificilmente que a sua origem e a possibilidade de algo diverso são visualizadas. Com a psyche também se dá originariamente o logos como reunião e, em seguida, como discurso e como saga. O fato de o enunciado se tornar o lugar para a “verdade” é concomitantemente o que há de mais estranho em sua história, apesar de isso ser considerado por nós como corrente. Por isto, porém, abstraindo-se da concepção da própria ESSENCIAÇÃO, a verdade e o verdadeiro precisam continuar sendo buscados e conservados lá onde não supomos de modo algum que eles estariam. Este desenraizamento da verdade é acompanhado pelo velamento da essência do seer. Em que medida a “correção” é essencial a partir da instituição e do abrigo (linguagem)? [tr. Casanova; GA65: 231] 1) Por que essa interpretação é historicamente essencial? Porque ainda se torna visível aqui em uma meditação levada a termo como é que ao mesmo tempo a aletheia suporta e conduz essencialmente a questão grega acerca do òn e como é que precisamente por meio desse questionamento, do estabelecimento da idea, ela experimenta a sua derrocada. 2) Ao mesmo tempo, se mostra muito lá atrás: a derrocada não é a derrocada de algo instituído e mesmo de algo expressamente fundado. Nem uma coisa nem outra chegaram a ser realizadas no pensamento grego inicial; e isso apesar da sentença de Heráclito sobre o polemos e do poema de Parmênides. E, contudo, a aletheia é essencial por toda parte no pensar e no poetar (tragédia e Píndaro). 3) Somente se isso for experimentado e exposto é que se tornará possível mostrar de que maneira, então, um resíduo e uma aparência da aletheia precisaram em certo sentido se manter, uma vez que mesmo a verdade como correção e precisamente ela precisa se abrigar em um já aberto (cf sobre a correção). Precisa estar aberto aquilo, pelo que o re-presentar se orienta (se retifica), e precisa estar aberto também aquilo ao que se deve atribuir a justeza (cf correção e relação sujeito-objeto; ser-aí e re-presentar). 4) Se considerarmos panoramicamente a história da aletheia a partir da alegoria da caverna, que tem uma posição chave tanto em relação ao que vem antes quanto em relação ao que vem depois, então é possível mensurar de maneira mediata o que significa erigir em primeiro lugar a verdade como aletheia de maneira pensante, desdobrá-la e fundamentá-la na essência. Que isso não apenas não aconteceu na metafísica até aqui e também no primeiro início, mas não podia acontecer. 5) A fundação essencial da verdade como desentranhamento da primeira reluzência na aletheia não é, então, simplesmente a assunção da palavra e de sua tradução adequada como “desvelamento”, mas importante é experimentar a essência da verdade como clareira para o encobrir-se. O encobrimento clareador precisa se fundar como ser-aí. O encobrir-se precisa ganhar o espaço do saber como ESSENCIAÇÃO do próprio seer enquanto acontecimento apropriador. A ligação mais íntima possível entre seer e ser-aí em sua viragem torna-se visível como aquilo que impõe a questão fundamental e obriga a ir além da questão diretriz, e, com isso, de toda metafísica; para além de fato em direção ao cerne da tempo-espacialidade do aí. 6) Como, porém, “a verdade” mesma e seu conceito, de acordo com uma longa história e com uma confusa tradição, para a qual muitas coisas confluíram, não se encontram mais em questão em nenhum modo de formulação claro e necessário, mesmo as interpretações da história do conceito de verdade tanto quanto as interpretações da alegoria da caverna se mostram em particular como precárias e dependentes daquilo que mesmo antes foi retirado do platonismo e da doutrina do juízo. Faltam as posições fundamentais para um projeto daquilo que é dito na alegoria da caverna e daquilo que se dá nesse dizer. Por isto, é necessário apresentar algum dia pela primeira vez uma interpretação coesa, proveniente da questão da verdade, da alegoria da caverna e tornar essa interpretação eficaz como uma introdução ao âmbito da questão da verdade e como uma condução à necessidade dessa questão, com todas as reservas que permanecem presas a tais tentativas imediatas; pois o fundamento e a perspectiva do projeto da interpretação e de seus passos permanecem pressupostos como não discutidos e aparecem como violentos e arbitrários. [tr. Casanova; GA65: 233] O que sobrecarrega tanto e quase chega mesmo a bloquear o pensamento mais próprio de Nietzsche é a intelecção do fato de que a ESSENCIAÇÃO da verdade significa: ser-aí, isto é, encontrar-se em meio à clareira do que se encobre e haurir daí o fundamento e a força do ser humano. Pois, apesar das ressonâncias do “perspectivismo”, a “verdade” continua enredada na “vida” e a vida mesma, de maneira quase coisal, um centro de vontade e de força, que quer sua elevação e superelevação. [tr. Casanova; GA65: 234] Os que perguntam desse modo são os que acreditam originária e propriamente, isto é, aqueles que levam a sério fundamentalmente a própria verdade, não apenas o verdadeiro, que colocam em decisão se a essência da verdade se essencia e se essa ESSENCIAÇÃO mesma nos suporta e conduz, a nós, os que sabem, acreditam, agem, criam, em suma, os seres históricos. Essa crença originária não tem nada naturalmente de um acolhimento daquilo que oferece imediatamente um apoio e torna a coragem supérflua. Essa crença é muito mais a persistência na decisão mais extrema. Isso apenas é que pode trazer ainda uma vez nossa história para um fundamento fundado. Pois essa crença originária também não é nenhum arrebatamento egoísta de uma certeza autoproduzida, na medida em que ele se lança precisamente para além em direção ao cerne da ESSENCIAÇÃO do ser e experimenta a necessidade do a-bissal. [tr. Casanova; GA65: 237] O tempo-espaço como ESSENCIAÇÃO da verdade (ESSENCIAÇÃO do fundamento abissal) só ganha o saber na realização do outro início. Antes disso, porém, ele permanece, e, com efeito, necessariamente, velado sob a figura da denominação conjunta inconcebida, mas habitual de “espaço” e “tempo”. De onde provém o primado do vazio de espaço e tempo, de sua extensão imediatamente re-presentada, de sua quantificação e calculabilidade? Tudo remonta à experiência fundamental grega da ousia. Para que espaço e tempo sejam imediatamente re-presentados, sim, até mesmo aquilo que se impõe na physis como o assim re-presentável (cf no tempo, por conseguinte, o primado do nyn). Com a presentidade também se estabelece peras, periechon. Este ponto de partida e sua interpretação permanecem, eles não experimentam nenhum retorno a algo mais originário, que só seria possível a partir da questão acerca da verdade do ser, em contrapartida, em Aristóteles, pou, pote – categorias, determinações da entidade, ousia! [tr. Casanova; GA65: 239] O a-bismo é a ESSENCIAÇÃO originária do fundamento. O fundamento é a essência da verdade. Por isso, se o tempo-espaço for concebido como a-bismo e se o a-bismo for tomado de maneira mais determinada de acordo com a viragem a partir do tempo-espaço, então se reabrirá com isso a ligação revirante e o pertencimento do tempo-espaço à essência da verdade. [tr. Casanova; GA65: 242] A-bismo: o ficar de fora; como fundamento no encobrir-se, um encobrir-se sob o modo da renúncia do fundamento. Renúncia, porém, não é nada, mas um modo distinto originário do deixar sem preenchimento e vazio; com isso, um modo insigne da reabertura. A questão é que o a-bismo como ESSENCIAÇÃO do fundamento não é nenhuma mera autorrenúncia como um retorno e um ir embora simples. O a-bismo é a-bismo. No renunciar-se, o fundamento traz de uma maneira insigne para o aberto, a saber, para o primeiramente aberto daquele vazio que, com isso, é um vazio determinado. Na medida em que o fundamento também funda ainda precisamente no abismo, e, contudo, não funda propriamente, ele se encontra em hesitação. [tr. Casanova; GA65: 242] A-bismo é a renúncia hesitante do fundamento. Na renúncia abre-se o vazio originário, acontece a clareira originária, mas a clareira ao mesmo tempo, para que se mostre nela a hesitação. O a-bismo é o encobrimento clareador primeiramente essencial, a ESSENCIAÇÃO da verdade. Uma vez, porém, que a verdade é o encobrimento clareador do seer, ela é como a-bismo antes de tudo fundamento, que só funda como o imperar inteiramente de maneira sustentadora do acontecimento apropriador. Pois a renúncia hesitante é o aceno, no qual o ser-aí, justamente a constância do encobrimento clareador, é reacenado, e essa é a vibração da viragem entre clamor e pertencimento, o acontecimento da apropriação, o seer mesmo. [tr. Casanova; GA65: 242] O a-bismo como o ficar de fora do fundamento deve ser, porém, a ESSENCIAÇÃO da verdade (do encobrimento clareador). Permanecer de fora do fundamento: isso não é a ausência da verdade? Mas o renunciar-se hesitante é, contudo, precisamente clareira para o encobrimento, e, com isso, presentação da verdade. Com certeza, “presentação”; todavia, não sob o modo como algo presente à vista se presenta, mas ESSENCIAÇÃO daquilo que fundamenta de início a presença e a ausência do ente, e não apenas isso. [tr. Casanova; GA65: 242] “Permanência de fora” como autorrenúncia (hesitante) do fundamento é ESSENCIAÇÃO do fundamento como a-bismo. O fundamento necessita do a-bismo. E a clareira, que acontece no renunciar-se, não é nenhum mero fender-se como uma boca bocejante (chaos – contra physis), mas o rejuntar afinador dos tres-loucamentos essenciais justamente desse clareado, que deixa aquele encobrir-se vir a encontrar-se nele. E isso porque a verdade como encobrimento clareador é a verdade do seer como acontecimento apropriador, a verdade do acontecimento da apropriação que oscila de lá para cá e de cá para lá, acontecimento esse que, se fundando na verdade (na ESSENCIAÇÃO do aí), conquista nela e apenas nela para si também a clareira para o seu encobrir-se. [tr. Casanova; GA65: 242] O acontecimento apropriador afina e transpassa de maneira afinadora a ESSENCIAÇÃO da verdade. A abertura do clarear do encobrimento, por isso, não é originariamente nenhum mero vazio do não estar ocupado, mas o vazio afinador afinado do a-bismo, que, de acordo com o aceno afinador do acontecimento apropriador, é um a-bismo afinado, o que significa aqui unido. [tr. Casanova; GA65: 242] O abrir-se para o encobrimento é originariamente a distância da indecibilidade em relação a se o deus se movimenta se afastando de nós ou vindo em nossa direção. Isso quer dizer: nessa distância e em sua indecibilidade se mostra o encobrimento daquilo que, de acordo com essa reabertura, nós denominamos o deus. Essa “distância” da indecidibilidade é anterior a todo “espaço” isolado e a todo tempo que transcorre de maneira destacada. Ela também se essencia antes de toda dimensionalidade. Algo desse gênero só emerge do abrigo da verdade e, com isso, do tempo-espaço no ente e, com efeito, de saída, no ente presente à vista como coisa que se transforma. Somente onde algo presente à vista é retido e fixado, emerge o fluxo que flui ao lado dele do “tempo” e o “espaço” que o envolve. O a-bismo como primeira ESSENCIAÇÃO do fundamento funda (deixa o fundamento se essenciar como fundamento) sob o modo da temporalização e da espacialização. Mas aqui está a passagem crítica para o conceito correto de a-bismo. Temporalização e espacialização não podem ser concebidas a partir da representação corrente de espaço e tempo, mas essas representações precisam receber, inversamente, de acordo com a sua proveniência a partir do temporalizar e do espacializar marcados pela primeira essência, sua determinação. De onde é que o temporalizar e o espacializar têm a sua origem una e sua cisão? De que tipo é a unidade originária, segundo a qual ela é lançada em uma dinâmica divergente em meio a essa cisão, e em que sentido os separados são aqui unos precisamente como ESSENCIAÇÃO da a-bissalidade? Não pode se tratar aqui de uma “dialética” qualquer, mas apenas da ESSENCIAÇÃO do fundamento (da verdade, portanto) mesmo. [tr. Casanova; GA65: 242] A estrutura dessa ESSENCIAÇÃO precisa ser colocada sempre uma vez mais no projeto: a essência da verdade é o encobrimento clareador. Esse encobrimento acolhe o acontecimento apropriador e deixa, dando a ele sustentação, que sua oscilação impere inteiramente através do aberto. Suportando e deixando imperar, a verdade é o fundamento do seer. O “fundamento” não é mais originário do que o seer, mas a origem como aquilo que ele, o acontecimento apropriador, deixa reemergir. [tr. Casanova; GA65: 242] O tempo insere um espaço, nunca de maneira arrebatadoramente fascinante. O espaço temporaliza, nunca de maneira arrebatadoramente extasiante. Eles não têm, porém, nada em comum enquanto unidade, mas o seu elemento unificador, o que permite que eles venham à tona no fato de serem apontados de maneira inseparável, o tempo-espaço, se mostra como o elemento a-bissalizador do fundamento: a ESSENCIAÇÃO da verdade. Esse e-mergir, contudo, não é nenhum esgarçamento, mas, ao contrário, o tempo-espaço é apenas o desdobramento essencial da ESSENCIAÇÃO da verdade. [tr. Casanova; GA65: 242] A a-bissalização do fundamento não é, com isso, esgotada em sua essência, mas se torna apenas clara como fundação do aí. O tempo-espaço é o repouso que reúne de maneira arrebatadoramente extasiante e fascinante, o a-bismo assim reunido e correspondentemente afinado, cuja ESSENCIAÇÃO se torna histórica na fundação do “aí” por meio do ser-aí (suas vias essenciais do abrigo da verdade). [tr. Casanova; GA65: 242] O tempo-espaço nessa essência originária ainda não tem nada em si do “tempo” e do “espaço”, que habitualmente se conhece, e, contudo, ele contém o desdobramento em direção a eles em si, e, com efeito, em uma riqueza maior do que a que pôde vir à tona até aqui por meio da matematização de espaço e tempo. Como é se sai de tempo-espaço para “espaço e tempo”? Formulada assim, a questão ainda é muito plurissignificativa e pode ser facilmente mal interpretada. O que precisa ser distinto de antemão é: 1) A história que essencialmente foi de topos e kronos no interior da interpretação do ente como physis com base na aletheia não desdobrada; 2) O desdobramento de espaço e tempo a partir do tempo-espaço expressa e originariamente concebido enquanto a partir do abismo do fundamento no interior do pensar do outro início; 3) O apoderamento do tempo-espaço como ESSENCIAÇÃO da verdade no interior da fundação por vir do ser-aí através do abrigo da verdade do acontecimento apropriador no ente que se reconfigura por meio daí; 4) A clarificação propriamente dita, a dissolução ou o afastamento das dificuldades, que envolveram desde sempre na história do pensamento até aqui aquilo que se conhece como espaço e tempo; por exemplo, a questão acerca da “realidade efetiva” do espaço e do tempo; acerca de sua “infinitude”, acerca de sua relação com as “coisas”. Todas essas questões permanecem não apenas sem respostas, mas de início inquestionáveis, enquanto espaço e tempo não forem concebidos a partir do tempo-espaço, isto é, enquanto a questão acerca da essência da verdade não for questionada desde o fundamento como a questão prévia à questão fundamental da filosofia (como se essencia o seer?). [tr. Casanova; GA65: 242] O abrigo não é a acomodação ulterior da verdade em si presente à vista no ente, abstraindo-se completamente do fato de que a verdade nunca se acha presente à vista. Abrigo pertence à ESSENCIAÇÃO da verdade. Essa não é ESSENCIAÇÃO, se ela nunca se essencia no abrigo. Se, por isso, indicativamente, a “essência” da verdade for denominada como a clareira para o encobrir-se, então isso só acontece para desdobrar pela primeira vez a ESSENCIAÇÃO da verdade. A clareira precisa se fundar em seu aberto. Ela carece daquilo que ela obtém na abertura, e isso é a cada vez de maneira diversa um ente (coisa – utensílio – obra). Mas esse abrigo do aberto precisa ser ao mesmo tempo e de antemão de tal modo que a abertura se torna essente de tal maneira que, nela, o encobrir-se e, com isso, o seer se essencie. De acordo com isso, precisa ser possível – com o salto prévio correspondente no seer com certeza –, a partir do “ente”, encontrar o caminho até a ESSENCIAÇÃO da verdade e, por essa via, tornar visível o abrigo como pertencente à verdade. Onde é, porém, que esse caminho deve começar? Não precisamos conceber para tanto em primeiro lugar as referências atuais em relação ao ente, tal como nós nos encontramos aí, ou seja, não precisamos ter diante dos olhos algo extremamente corrente? E justamente isso é o mais difícil, uma vez que ele não é nunca realizável sem um abalo, o que significa: sem um tresloucamento da ligação fundamental com o seer mesmo e com a verdade. É preciso indicar em que verdade e como é que o ente se encontra respectivamente nela. Precisa se tornar claro como é que aqui mundo e terra se encontram em contenda e, com isso, como é que eles mesmos se desencobrem e se encobrem. Esse encobrir-se mais imediato, contudo, é apenas a aparência prévia do a-bismo e, com isso, da verdade do acontecimento apropriador. Mas a verdade só se essencia na clareira mais plena do mais distante encobrir-se sob o modo do abrigo segundo todos os caminhos e maneiras, que pertencem a esse abrigo, que suportam e conduzem historicamente a exposição jurisdicional do ser-aí e que constitui, assim, o ser do povo. [tr. Casanova; GA65: 243] Só que a compreensão dos nexos aqui essenciantes exige que nos libertemos fundamentalmente do modo simples de pensar da re-presentação do que se presenta (do ser como presentidade e da verdade como adaptação ao que se presenta) e que estabeleçamos o olhar do pensamento de tal modo que ele mensure integralmente sobretudo toda a ESSENCIAÇÃO da verdade. [tr. Casanova; GA65: 243] Aqueles estrangeiros dotados de um mesmo coração, igualmente decididos pela doação e recusa que lhes foram reservadas. Os que detêm o bastão da verdade do seer, verdade essa na qual o ente se constrói em direção ao domínio simples da essência de toda e qualquer coisa e respiração. As testemunhas mais silenciosas da mais silenciosa tranquilidade, na qual um empurrão imperceptível retira a verdade da confusão de todas as correções recalculadas e a gira de volta para a sua essência: manter velado o que há de mais velado, o estremecimento do passar ao largo da decisão dos deuses, a ESSENCIAÇÃO do seer. [tr. Casanova; GA65: 248] O questionar acerca da essência da verdade e acerca da ESSENCIAÇÃO do seer: o que é isso senão o caráter resoluto em nome da mais extrema meditação? Esse caráter resoluto, porém, cresce a partir da abertura para o necessário, que torna incontornável a experiência da indigência do abandono do ser. A experiência dessa indigência, contudo, depende uma vez mais da grandeza da força da lembrança no todo do caráter dominante do saber. Uma questão desse tipo é a retenção da busca, lá onde e como a verdade do ser se deixa fundar e abrigar. [tr. Casanova; GA65: 250] Se por meio do acontecimento apropriador o ser-aí como meio aberto da ipseidade que funda a verdade é atirado a si e se torna um si mesmo, o ser-aí precisa, por sua vez, pertencer como possibilidade velada da ESSENCIAÇÃO fundante do seer ao acontecimento apropriador. E na viragem: o acontecimento apropriador precisa se valer do ser-aí; por meio da necessidade, ele precisa colocá-lo no clamor e, assim, trazê-lo para diante do passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 255] Na essência do aceno reside o mistério da unidade da mais íntima aproximação no distanciamento extremo, a mensuração do mais amplo campo de jogo temporal do seer. Esse extremo da ESSENCIAÇÃO do seer exige o mais íntimo da indigência do abandono do ser. Essa indigência precisa pertencer ao clamor do domínio daquele aceno. O que ressoa em tal servidão e prepara a amplitude só consegue preparar para a contenda entre mundo e terra, para a verdade do aí, por meio desse aí mesmo, o sítio instantâneo da decisão e, assim, a contestação e o abrigo no ente. [tr. Casanova; GA65: 255] [O último deus] Ele tem sua ESSENCIAÇÃO no aceno, no acometimento ou no ficar de fora da chegada tanto quanto da fuga dos deuses que essencialmente foram e de sua transformação velada. O último deus não é o próprio acontecimento apropriador, mas com certeza necessita dele como aquilo a que pertence o fundador do aí. Esse aceno enquanto acontecimento apropriador coloca o ente no mais extremo abandono do ser e irradia ao mesmo tempo a verdade do ser como a sua luzência mais íntima. [tr. Casanova; GA65: 256] No âmbito de domínio do aceno encontram-se novamente, para a mais simples contenda, terra e mundo: o mais puro fechamento e a transfiguração suprema, o mais temo arrebatamento fascinante e o mais temível arrebatamento extasiante. E isso novamente a cada vez apenas historicamente nos níveis e âmbitos e graus do abrigo da verdade no ente, através do qual somente este se torna novamente mais ente, em meio a todo o extinguir-se no não ente, um extinguir-se que é sem medida, mas dissimulado. Em tal ESSENCIAÇÃO do aceno, o próprio seer chega à sua maturidade. Maturidade é prontidão para tornar-se um fruto e uma doação. Nisso se essencia o último, o fim essencial, exigido a partir do início, mas não trazido com ele. Aqui se desentranha a finitude mais íntima do seer: no aceno do último deus. Na maturidade, na potência do fruto e na grandeza da doação, encontra-se ao mesmo tempo a essência mais velada do não, enquanto ainda-não e não-mais. A partir daqui é que é preciso pressentir a intimidade da intraessenciação do negativo no seer. De acordo com a ESSENCIAÇÃO do seer, porém, no jogo do acometimento e do ficar de fora, o não mesmo possui figuras diversas de sua verdade e, de acordo com isso, também o nada. Se isso só for calculado “logicamente” por meio da negação do ente no sentido do ente presente à vista (cf as observações no manuscrito de “O que é metafísica?”) e explicado extrinsecamente de maneira literal, em outras palavras, se o questionamento em geral não chegar ao âmbito da questão acerca do seer, então todo discurso em réplica em face da questão acerca do nada não passa de um falatório vão, no qual se subtraem todas as possibilidades de penetrar algum dia no âmbito de decisão da questão acerca da finitude mais essencial do seer. Mas esse âmbito só é penetrável graças à preparação de um longo pressentimento do último deus. E os que estão por vir do último deus só são preparados pela primeira vez por meio daqueles que encontram, mensuram e constroem o caminho de volta a partir do abandono do ser experimentado. Sem o sacrifício desses que estão voltando, não se chega nem mesmo a um crepúsculo da possibilidade do aceno do último deus. Esses que tomam o caminho de volta são os verdadeiros ante-cessores dos que estão por vir. (Mas esses que estão voltando também são completamente diversos dos muitos apenas “re-ativos”, cuja “ação” só irrompe na cega suspensão junto ao seu elemento até aqui visto de maneira breve. O sido nunca se tornou manifesto para eles em sua antecipação do porvir, assim como o porvir jamais se tornou evidente em seu clamor pelo sido). [tr. Casanova; GA65: 256] O pensar. O visar do ser. O ser e a diferenciação em relação ao ente. O projeto do seer. O re-pensar do seer. A ESSENCIAÇÃO do seer. A história. O ser-aí. A linguagem e a saga. O “ente”. A questão transitória (por que é em geral o ente e não antes o nada?) A história do seer. O ponto de vista da história do seer. O incalculável. [tr. Casanova; GA65: 257] A concepção agora e futuramente essencial do conceito de filosofia (e, com isso, também a determinação prévia da conceptualidade de seu conceito e de todos os seus conceitos) é a concepção histórica (não uma concepção historiológica). “Histórico” significa aqui: pertencente à ESSENCIAÇÃO do seer mesmo, inserido na indigência da verdade do seer e, assim, ligado à necessidade daquela decisão, que dispõe em geral sobre a essência da história e sua ESSENCIAÇÃO. De acordo com isso, a filosofia é agora pela primeira vez preparação da filosofia sob o modo da edificação dos átrios mais imediatos, em cuja estrutura espacial a palavra de Hölderlin se torna audível, tendo a resposta por meio do ser-aí e em tal resposta tendo sido fundada como a língua do homem por vir. Assim, pela primeira vez, o homem entra na próxima vereda lenta em direção ao seer. A unicidade de Hölderlin em termos da história do seer precisa ser fundada anteriormente e toda comparação marcada por uma historiologia da “literatura” e da poesia, todo julgamento e gozo “estéticos”, toda avaliação “política” precisam ser superados, para que os instantes dos “criadores” conservem seu “tempo” (Cf. Reflexões VI, VII, VIII). [tr. Casanova; GA65: 258] A questão acerca do ser torna-se agora a questão acerca da verdade do seer. A essência da verdade é inquirida agora a partir da ESSENCIAÇÃO do seer, ela é concebida como a clareira do encobrir-se e, com isso, como pertencente à essência do seer mesmo. A questão acerca da verdade “do” seer desentranha-se na questão acerca do seer “da” verdade. (O genitivo é aqui um genitivo originariamente próprio, que nunca tem como ser apreendido por meio do genitivo “gramatical” até aqui). Agora, a questão acerca do seer não pensa mais a partir do ente, mas é requisitada necessariamente como o re-pensar do seer por meio do seer mesmo. O re-pensar do seer emerge desse ser como o entre, em cuja ESSENCIAÇÃO autoclareadora os deuses e o homem se re-conhecem, isto é, se decidem quanto à sua pertinência. Como esse entre, o seer não “é” nenhum adendo ao ente, mas aquele elemento essenciante, em cuja verdade pela primeira vez o (ente) pode chegar ao resguardo de um ente. Mas esse primado do entre não pode ser mal interpretado idealisticamente no sentido do “a priori”. A questão acerca do ser sob o modo do questionamento acerca da verdade do seer não chega mais em geral a um plano, no qual uma diferenciação como a entre idealismo e realismo poderia conquistar um fundamento possível. A consideração permanece com certeza aquém da pergunta sobre se, afinal, seria possível algo assim como pensar o seer mesmo em sua ESSENCIAÇÃO, sem partir do ente; se, afinal, toda e qualquer questão acerca do ser já não precisaria se mostrar inexoravelmente como uma réplica a partir do ente. Aqui se encontra de fato obstruindo o caminho a longa tradição da metafísica e o hábito daí emergente do pensar; sobretudo quando ainda a “lógica”, ela mesma uma descendente da despotencialização inicial do ser e da verdade, permanece sendo considerada como um tribunal absoluto, caído do céu, sobre o pensar. Neste caso, encontra-se definido “lógica” e definitivamente que o ser é conquistado como o universal a partir do ente; e isso mesmo quando se procura assegurar o ser em sua consistência também como um ente. Mas o seer, que precisa ser repensado em sua verdade, não “é” aquele elemento universal e vazio, mas se essencia como aquele elemento único e abissal, no qual se decide algo singular da história. Não se pode ficar naturalmente parado aqui sobre o solo da questão metafísica sobre o ser e exigir a partir desse ponto de vista um saber, que encerre em si, segundo a sua essência, o abandono desse ponto de vista, isto é, espacializar um espaço e temporalizar um tempo, que não foram apenas esquecidos ou não chegaram a ser suficientemente pensados na história da metafísica, mas que, ao contrário, são insuficientes para essa história, além de não serem necessários para ela. [tr. Casanova; GA65: 259] Na transição da questão do ser metafísica para a questão do ser por vir, é preciso sempre pensar e questionar de maneira transitória. Com isso, a possibilidade de um juízo apenas metafísico do outro questionar é excluída. O outro questionar, porém, também não se revela aí como verdade “absoluta”; e isso já não se mostra assim porque tal demonstração de tal “verdade” vai de encontro à essência desse questionamento. Pois esse questionamento é histórico porque, nele, a história do seer mesmo enquanto a história do fundamento mais abissal e único da história se transforma no acontecimento apropriador. Além disso, o pensar transitório realiza sempre pela primeira vez a preparação do outro questionamento, ou seja, a preparação daquele ser humano, que deve ser em sua atividade como fundador e como guardião antes de tudo forte o suficiente e sapiente o suficiente para acolher o impulso há muito tempo indicado, mas ainda mais longamente recusado do seer, reunindo o apoderamento do seer para a sua ESSENCIAÇÃO em um instante único da história. O pensar transitório, por isso, também não pode abalar o hábito metafísico por meio de um gesto de violência. Sim, por causa da comunicação, ele precisa com frequência ainda caminhar na via do pensar metafísico e, contudo, saber constantemente o outro. Como é que o pensar propriamente histórico deveria poder desconsiderar também que, se a transição deve ser fundadora de história, lhe é reservado tanto o caráter repentino do não pressentido quanto o caráter discreto do que se lança lentamente para além de si. E como é que o pensar transitório também não deveria saber que muitas coisas, sim, a maioria daquilo que permanece atribuído a ele em termos de esforço será um dia algo supérfluo e recairá no elemento incidental, para abrir o seu caminho único para a corrente da história do único. Apesar disso, o pensar transitório não pode atemorizar a precariedade de diferenças e clarificações preparatórias, contanto que elas sejam movidas pelo vento de uma decisão que é tomada desde muito tempo. Só a frieza da ousadia do pensar e a noite da errância do questionamento emprestam ao fogo do seer ardor e luz. [tr. Casanova; GA65: 259] A negação do ser aos “deuses” só significa de início que o ser não se encontra “acima” dos deuses; mas também que esses não se encontram “acima” do ser. Com certeza, porém, “os deuses” necessitam do seer, com cuja sentença já é pensada a essência “do” seer. “Os deuses” precisam do seer não como a sua propriedade, na qual eles mesmos encontram um apoio. “Os deuses” precisam do seer, a fim de pertencerem por meio do seer, que não lhes pertence, efetivamente a si mesmos. O seer é o que é usado pelos deuses; ele é sua indigência, e o caráter indigente do seer nomeia a sua ESSENCIAÇÃO, o que é exigido pelos “deuses”, mas que não é nunca causável e condicionável. O fato de “os deuses” precisarem do seer lança eles mesmos no abismo (a liberdade) e exprime o fracasso de toda e qualquer fundamentação e demonstração. E por mais obscuro que possa permanecer o caráter indigente do seer para o pensar, ele fornece de qualquer modo o primeiro ponto de apoio, para pensar “os deuses” como aqueles que precisam do seer. Nós levamos a termo, com isso, os primeiros passos na história do seer, de tal modo que o pensar da história do seer desponta, assim, pela primeira vez e todo empenho por se dispor a obrigar o dito nesse começo a alcançar uma compreensibilidade habitual se revela como vão e, antes de tudo, contra o modo de ser desse pensamento. Se, porém, o seer é o caráter indigente do deus, por mais que o seer mesmo só encontre no re-pensar a sua verdade e por mais que esse pensar seja a filosofia (no outro início), então “os deuses” precisam do pensar da história do seer, isto é, da filosofia. Todavia, “os deuses” não carecem da filosofia como se eles mesmos precisassem filosofar e o fizessem em virtude de sua deização, mas é preciso que a filosofia se dê, se é que “os deuses” devem ganhar uma vez mais o espaço da decisão e se é que a história deve alcançar o fundamento de sua essência. A partir dos deuses determina-se o pensar da história do seer como aquele pensar do seer que concebe o abismo da indigência do seer como o primeiro e nunca busca no divino mesmo como o supostamente mais essente a essência do seer. O pensar da história do seer encontra-se fora de toda e qualquer teologia e também não conhece, porém, nenhum ateísmo no sentido de uma “visão de mundo” ou de uma doutrina configurada de outro modo qualquer. [tr. Casanova; GA65: 259] Se, então, porém, o ser, apesar de desconhecido, empresta à essência da razão o fundamento e não é nada arbitrário, mas se ele mesmo em sua ESSENCIAÇÃO poderia re-quisitar o homem de maneira fundamental; e se o homem devesse reconquistar uma vez mais sua própria essência inteiramente desgastada e confusa em uma outra originariedade; e se essa conquista essencial precisasse mesmo consistir nisso, em ser requisitado pela ESSENCIAÇÃO do seer; e se o seer mesmo só pudesse fundar a verdade de sua essência em tal transformação do homem, que consegue ousar um pensar originário “do” seer, então anuncia-se a partir do homem um pensar modificado do ser. Agora, contudo, também fica imediatamente claro que essa determinação da filosofia a partir do homem nunca tem em vista “o” homem em si, mas antes o homem histórico, cuja história é, em verdade, velada para nós, mas é de qualquer modo corrente e urgente na re-presentação historiológica. [tr. Casanova; GA65: 259] [O repensar do seer] Com isso, deve ser denominado um modo e talvez o modo decisivo na transição, modo esse por meio do qual o homem ocidental por vir assume a ESSENCIAÇÃO da verdade do seer e se torna, assim, pela primeira vez histórico: o re-pensar do seer. Tornar-se histórico significa: emergir da essência do seer e permanecer, por isso, pertencente a ele; não tem em vista: ser remetido para o passado e para o historiologicamente constatável. [tr. Casanova; GA65: 265] Se, então, aqui, na preparação do outro início, a essência da filosofia é retida como questionamento acerca do ser (na ambiguidade: questão acerca do ser do ente e questão acerca da verdade do seer), tal como ela precisa ser retida, precisamente porque o questionamento do primeiro início acerca do ser chegou, com efeito, ao seu fim e, assim, não ao seu início, a denominação do filosofar enquanto pensar também precisa ser mantida. Isso, porém, ainda não decide de maneira alguma se o fio condutor do pensar (1) também seria agora o pensar (2), se em geral aqui algo do gênero de um fio condutor, tal como no tratamento da questão diretriz, entraria em jogo. Agora, na transição para o outro início, a questão acerca do ser se transforma efetivamente na questão acerca da verdade do seer, de tal modo que essa verdade enquanto essência da verdade pertence à ESSENCIAÇÃO do seer. A escolha do fio condutor torna-se supérflua, sim, é desde o início impossível. O ser não é considerado mais agora como a entidade do ente, como o adendo representado a partir do ente, que se expõe ao mesmo tempo como o a priori do ente (do que se presenta). Ao contrário, o seer se essencia agora de antemão em sua verdade. Isso inclui o fato de que, então, o pensar (1) também é determinado exclusivamente e antes de tudo a partir da essência do seer e não, por exemplo, tal como desde Platão, como a representação purificada do ente a partir do ente. A a-preensão do ser não é determinada a partir da concepção da entidade no sentido do koinon e da idea, mas a partir da ESSENCIAÇÃO do próprio seer. Esse precisa ser ressaltado de maneira originariamente inicial, a fim de decidir por assim dizer por si mesmo qual precisa “ser” a essência do pensar (1) e do pensador. Essa “necessidade” múltipla anuncia uma necessidade originariamente própria de uma indigência, que só pode pertencer ela mesma à essência do seer. [tr. Casanova; GA65: 265] A questão é que nós estamos de qualquer modo há muito tempo e de maneira muito firme presos à tradição, para que de saída, onde quer que se venha a denominar “o pensar”, não tivéssemos em vista no mínimo concomitantemente ao ouvir esse nome a representação de algo em geral e, com isso, a representação de uma unidade de elementos diferentes especificamente subordinados. Ao contrário, quando o pensar é concebido como o pensar do ser: o ser é considerado como o que há de mais universal entre tudo. Toda e qualquer pergunta acerca do ser se encontra sob essa aparência da questão acerca do que há de mais universal, do qual nós só nos apoderamos por meio da concepção de suas particularidades e de suas ligações. Tomar esse elemento maximamente universal não significa, então, outra coisa senão deixá-lo em sua indeterminação e em seu vazio, estabelecendo a indeterminação como a sua única determinação, isto é, representando ele mesmo de maneira imediata. Então, por meio do conceito habitual do pensar (o conceito “lógico) é decidido previamente de novo sobre a essência do seer, no que, igualmente, a essência é visada de antemão como o elemento objetivo de uma representação. Mas também precisamos ainda nos libertar disso, a fim de deixarmos completamente para o próprio seer o poder afinador-determinante na caracterização da essência do pensar (re-pensar). Aquela interpretação grega do òn he òn como hen, aquele primado até aqui obscuro, que o uno e a unidade tiveram por toda parte no pensamento do ser, não pode ser naturalmente deduzido da lógica e do papel de fio condutor do logos como enunciado porque esse primado pressupõe, sim, uma determinada interpretação do òn (hypokeimenon). Visto de maneira mais profunda, aquela unidade é apenas o primeiro plano visto a partir da representação reunidora (legein) da presentação enquanto tal, na qual já se reuniu o ente justamente em seu quid e em seu fato-de-que. A presentidade pode ser concebida como reunião e, assim, compreendida como unidade e ela precisa também ser compreendida assim junto ao primado do logos. A própria unidade não é, contudo, por si mesma uma determinação essencial originária do ser do ente. Os pensadores originários se deparam, no entanto, necessariamente com ela porque, para eles e para o seu início, a verdade do ser precisa permanecer velada e porque é importante, para apreender em geral o ser, reter a presentação como o elemento primeiro e mais imediato de sua irrupção; por isso, o hen, mas sempre e ao mesmo tempo em ligação com os muitos como o que vem à tona, como o que emerge (vindo a ser) e como o que se evade e se dissipa (se essenciando aqui e se ausentando na presentidade mesma: Anaximandro, Heráclito, Parmênides). A partir do outro início, aquela determinação inabalada e nunca questionada do ser (unidade) precisa ainda se tornar algo questionável, e, então, remeter de volta a unidade ao “tempo” (o tempo abissal do tempo-espaço). Então, porém, também se mostra que, com o primado da presentidade (presente), na qual a unidade é fundada, algo se decidiu, que nesse elemento maximamente autoevidente a decisão mais espantosa se encontra velada, que esse caráter de decisão pertence até mesmo à ESSENCIAÇÃO do seer e fornece o aceno para a respectiva unicidade e para a historicidade mais originária do seer mesmo. [tr. Casanova; GA65: 265] O fato de a essência do seer nunca se deixar dizer definitivamente não significa nenhuma falha, mas, ao contrário, o saber não definitivo mantém precisamente o abismo e, com isso, a essência do seer. Essa manutenção do abismo pertence à essência do ser-aí como a fundação da verdade do seer. Manter o abismo é ao mesmo tempo saltar para o interior da ESSENCIAÇÃO do seer, de tal modo que esse seer mesmo desdobra o poder de sua essência como o acontecimento apropriador, como o entre para a coação do deus e a guarda do homem. [tr. Casanova; GA65: 265] A unicidade do seer, na transição da metafísica, para a qual ele é considerado como o que há de mais universal e corrente, chegará à ESSENCIAÇÃO em uma estranheza e obscuridade correspondentemente únicas. No pensar transitório, tudo aquilo que pertence à história do ser traz consigo o elemento inabitual do singular e conjuntural. O re-pensar do seer alcança, por isso, onde e quando ele acontece de maneira exitosa, uma rigidez e uma agudeza da historicidade, para a qual ainda falta a linguagem ao dizer, isto é, o poder denominar e ouvir que satisfaça a ele, ao seer. [tr. Casanova; GA65: 265] A questão do seer enquanto questão fundamental não seria concebida de maneira alguma a partir de seu caráter mais digno de questão, se ela não fosse imediatamente impelida para a questão acerca da origem da “diferença ontológica”. A diferenciação entre “ser” e “ente”, o fato de o seer se destacar do ente, só pode ter sua origem, se é que o ente enquanto tal é fundado pelo seer, na ESSENCIAÇÃO do seer. A essência e o fundamento desse destaque é o obscuro, aquilo que reside cerrado em toda metafísica; e de maneira tanto mais estranha, quanto mais decididamente a metafísica se cristaliza na pensabilidade da entidade e, sobretudo, no sentido do pensar absoluto. A essência e o fundamento desse destaque é o seer como acontecimento da apropriação. Esse seer se volta como o entre clareador para o interior dessa clareira e é, por isso, sem jamais ser reconhecido e pressentido como o acontecimento da apropriação, a partir do pensar representativo como ser em geral, algo diferenciável e diferenciado. Para a ESSENCIAÇÃO do seer que se dá no primeiro início, isso é considerado como physis, que vem à tona como aletheia, mas ao mesmo tempo acima do ente, que é apreensível por meio dela como um tal, que é esquecido e reinterpretado como o maximamente ente, como um modo de ser e como o modo de ser mais elevado do ente. Aqui reside ao mesmo tempo o fundamento pelo qual a diferença ontológica enquanto tal não ganha o espaço do saber, uma vez que, no fundo, uma diferenciação é sempre exigida apenas entre ente e ente (maximamente ente). Vê-se a consequência na confusão amplamente difundida no uso dos nomes “seer” e “ente”, que se encontram reciprocamente um para o outro de maneira arbitrária, de tal modo que, apesar de ter em vista o seer, só se re-presenta de qualquer modo um ente e se o apresenta como o que há de mais universal de todo re-presentar. O ser (enquanto ens qua ens – ens in comune) é apenas a mais fina diluição do ente e mesmo ainda um tal e, como ele determina todo ente a se mostrar enquanto ente, o mais essente do ente. Mesmo que agora, depois da denominação decidida dessa diferenciação em Ser e tempo, as pessoas se empenhem por uma terminologia mais cuidadosa, nada é alcançado e não atesta de maneira alguma que um saber e um questionar acerca do seer teriam se vivificado. Ao contrário, o risco é agora mais elevado de que o ser mesmo seja tomado por si e elaborado como algo presente à vista. [tr. Casanova; GA65: 266] Na transição para o ser-aí no interior do questionamento acerca da verdade do seer não resta nenhuma outra possibilidade senão mudar de saída a representação até o ponto em que a ligação com o ser como projeto e, por isso, como o caráter da compreensão for fixado (a compreensão de ser do ser-aí). Mas essas determinações, por mais decisivas que elas permaneçam para uma primeira elucidação do questionamento completamente outro da questão do ser, são, porém, vistas a partir da questionabilidade do ser e de sua ESSENCIAÇÃO, apenas um primeiro passo tateante em uma longa prancha de salto, um passo no qual quase não se pressente a presença de algo da exigência, que é feita no final da prancha para o salto. Todavia, toma-se esse passo não apenas como o primeiro em um longo estar “a caminho”, mas já como o passo derradeiro, a fim de erigir-se no dito como uma “doutrina” e “perspectiva” determinada e de organizar com ela todo tipo de coisas em um aspecto historiológico. Ou, porém, se recusa essa “doutrina” e se imagina que, com ela, se teria decidido algo sobre a questão do ser. [tr. Casanova; GA65: 266] O seer é o acontecimento apropriador. Essa expressão denomina o seer de maneira pensante, funda sua ESSENCIAÇÃO em sua própria estrutura, que se deixa indicar na multiplicidade do acontecimento apropriador. [tr. Casanova; GA65: 267] Acontecimento apropriador tem em vista sempre o acontecimento apropriador como acontecimento da apropriação, de-cisão, contra-posição, des-locamento, retração, simplicidade, unicidade, solidão. Não objetiva é a unidade dessa ESSENCIAÇÃO e ela só pode ser sabida naquele pensar, que não precisa ousar aquele elemento inabitual como o particular do que chama a atenção, mas como necessidade do que há de mais inaparente, no qual se abre o fundamento abissal da falta de fundamento dos deuses e da atividade de fundação do homem, e no qual é atribuído ao seer aquele pensar que a metafísica nunca tinha podido saber, o ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 267] A partir da lembrança de diferenciações antigas que se tornaram usuais até o seu fim em Nietzsche (ser e devir), poder-se-ia tomar a determinação do seer como acontecimento apropriador do mesmo modo como uma interpretação do ser enquanto “devir” (“vida”, “movimento”). Para não falar de modo algum da recaída inevitável na metafísica e da dependência das representações do “movimento”, da “vida” e do “devir” em relação ao ser como entidade, tal interpretação do acontecimento apropriador afastaria completamente desse acontecimento, uma vez que ela fala do acontecimento apropriador como um objeto, ao invés de deixar que essa ESSENCIAÇÃO mesma e apenas ela fale, para que o pensar permaneça um pensar do seer, que não enuncia algo sobre o seer, mas fala em meio a um dizer, que pertence ao re-dito e que alija de si todas as objetivações e falsificações em algo situativo (ou “fluente”); e isso porque se entraria imediatamente com isso no plano do re-presentar e porque a inabitualidade do seer é negada. [tr. Casanova; GA65: 267] A plena ESSENCIAÇÃO do seer na verdade do acontecimento apropriador nos deixa reconhecer que o seer e apenas o seer é e que o ente não é. Com esse saber acerca do seer, o pensar alcança pela primeira vez o rastro do outro início na transição a partir da metafísica. Para esta é válido dizer: o ente é e o não-ente “é” também e o seer é o ente maximamente essente. [tr. Casanova; GA65: 267] O ente é; aqui se fala com frequência a partir da posição fundamental na maioria das vezes inexpressa da metafísica, que traz consigo homens que encontram previamente o ente como o mais próximo e partem dele, a fim de retornarem uma vez mais a ele. Por isso, o caráter de enunciado da proposição é aqui um caráter diverso do que no dizer: o seer é. “O ente é” precisa ser levado a termo como e-nunciado, que tem sua correção; dirigido para o ente, a entidade é relatada por ele. O e-nunciar (logos) não é considerado aqui apenas como a expressão linguística ulterior de um re-presentar, mas o e-nunciar (apo-phansis) é aqui ele mesmo a forma fundamental da ligação com o ente como um tal e, com isso, com a entidade. De acordo com o dizer, o dito “o seer é” é completamente diverso. Com efeito, podemos tomar a qualquer momento o dito como uma proposição e como uma proposição enunciativa. Nesse caso, pensado metafisicamente, precisa ser concluído o seguinte: o seer se transforma, assim, no ente e, de maneira consequente, se mostra como o maximamente ente. A questão é que o dizer não fala a partir do seer algo que lhe cabe em geral, algo que se encontra nele presente à vista, mas enuncia o seer mesmo a partir dele mesmo; ele diz que o seer é o único que pode se apoderar de sua essência e, precisamente por isso, o “é” nunca pode ser simplesmente algo a ser atribuído. Nesse dito, o seer é dito a partir do “é” e redito por assim dizer no “é”. Com isso, contudo, se caracteriza ao mesmo tempo a forma fundamental, na qual todo dizer “sobre” o seer, melhor, todo dizer do seer precisa se manter. Pois esse dizer “do” seer não tem o seer como objeto, mas emerge dele como sua origem e fala, por isso, caso ele o deva denominar, sempre de volta para essa origem. Aqui, por isso, toda “lógica” pensa de maneira curta demais, uma vez que o logos enquanto enunciado não pode permanecer mais o fio condutor da representação do ser. Ao mesmo tempo, porém, o dizer é arrastado para o interior da ambiguidade do enunciado e o pensar “do” seer se torna essencialmente mais difícil. Isso, porém, atesta apenas a primeira proximidade em relação à distância do seer: o fato de que esse “é” a recusa e o deslocamento mesmos e enquanto tal precisa ser resguardado no acontecimento apropriador e, por isso, precisa ser sempre difícil e uma luta, que se torna manifesta na mais extrema profundidade como o jogo do abissal. Mas se o ente não é, então isso significa: o ente permanece pertencente ao seer como o resguardo de sua verdade, nunca consegue, porém, se transpor para a es-senciação do seer. O ente, contudo, distingue-se enquanto tal com vistas ao respectivo pertencimento à verdade do seer e à exclusão de sua ESSENCIAÇÃO. [tr. Casanova; GA65: 267] O que é feito agora da diferenciação entre ente e seer? Agora, nós a compreendemos como o primeiro plano metafisicamente concebido e, com isso, já mal interpretado de uma de-cisão, que é o seer mesmo (cf acima n. 2). Essa diferenciação não pode mais ser lida a partir do ente e em prosseguimento em direção à generalização isoladora de seu ser. Por isto, ela também não pode ser justificada, por exemplo, pelo aceno para o fato de que “nós” (quem?) precisamos compreender o ser, para que possamos experimentar um ente enquanto tal. Isso é, com efeito, correto, e o aceno para tanto pode servir a qualquer momento como uma primeira indicação do ser e da diferenciabilidade entre ente e seer, mas: o que resulta daqui, o que aqui já é pressuposto, o pensar metafísico da entidade, não pode subsistir enquanto o rasgo fundamental, no qual se deixariam conceber em termos da história do seer, em conformidade com o ser-aí, a essência do seer e de sua verdade em sua ESSENCIAÇÃO. Apesar disso, a transição não tem como ser preparada de outro modo senão pelo fato de que, nela, a coragem para o antigo (em termos do primeiro início) se faz valer e, assim, se busca de saída impelir esse antigo mesmo para além de si: o ente, o ser, o “sentido” (verdade) do ser (cf Ser e tempo). Desde o início, contudo, em meio a essa repetição mais originária, é preciso saber que ela exige uma completa transformação do homem no ser-aí e já alcançou por um salto tal transformação, uma vez que a verdade do seer, que deve se abrir, não trará outra coisa senão a ESSENCIAÇÃO mais originária do próprio seer. E isso significa: que tudo é transformado e que as veredas que ainda conduziam justamente ao seer precisam ser interrompidas, porque outro tempo-espaço é aberto por meio do seer, que torna necessária uma nova edificação e fundação do ente. Em parte alguma no ente, somente uma vez no seer, se volta em direção ao homem e aos deuses, a cada vez de maneira diversa, como uma tempestade, a suavidade do terrível na intimidade de todos os seres. É somente no seer que se essencia como a mais profunda abertura de seu fosso abissal o possível, de tal modo que é sob a forma do possível que o ser precisa ser pensado em primeiro lugar no pensar do outro início. (A metafísica, contudo, torna o “real e efetivo” enquanto ente ponto de partida e meta da determinação do ser). [tr. Casanova; GA65: 267] Se, por isso, o seer for pensado como o entre, no qual os deuses são compelidos, de tal modo que ele se mostre como uma indigência para o homem, então os deuses e o homem não podem ser tomados como algo “dado”, como algo “presente à vista”. No projeto daquele pensar, eles são, sempre a cada vez de maneira diversa, assumidos como o histórico, que, ele mesmo, só chega à sua ESSENCIAÇÃO a partir do acontecimento apropriador do entre. Isso, contudo, significa: que ele chega à luta em torno da própria essência, à consistência da decisão de uma das possibilidades veladas. [tr. Casanova; GA65: 267] O ser é condição do ente, que permanece preso, com isso, de antemão já como coisa (o subsistente que se presenta). O ser con-diciona o ente ou bem como sua causa (summum ens – demiourgos) ou como fundamento da objetualidade da coisa na re-presentação (condição de possibilidade da experiência ou de saída em geral como o “anterior” por força de sua constância e presentidade mais elevadas de acordo com a sua universalidade). Aqui, pensado em termos platônico-aristotélicos, o condicionar enquanto caráter do ser corresponde o mais diretamente possível ainda à sua essência inicial mais próxima (presentidade e constância), mas ela também não se deixa explicar. Por isso, ele permanece sempre de viés e destrói a originariedade e cautela do pensar grego, quando se reinterpreta esse elemento consonante com a causa ou mesmo o condicionar “transcendental” na relação visada de maneira grega entre ser e ente. Mas mesmo os modos postedores de con-dicionar o ente e transformá-lo em um ente tal por meio do ser são prelineados e exigidos naturalmente pela interpretação grega, na medida em que a entidade (idea) é o propriamente produzido (poioumenon) e, por isso, o que con-stitui e faz o ente; na medida em que, por outro lado e ao mesmo tempo, a idea é o nooumenon, o re-presentado enquanto tal, o que é anteriormente visto em todo representar. A metafísica nunca vai além desses modos de diferenciação entre ser e ente e da apreensão dessa ligação; sim, sua essência, na mistura desses modos dê pensar, é criar para si saídas e oscilar de um lado para o outro entre posições extremas, entre a incondicionalidade da entidade e a incondicionalidade do ente enquanto tal; a partir daí é possível atribuir aos títulos plurissignificativos “idealismo” e “realismo” um significado metafísico inequívoco. Uma consequência da apreensão metafísica do ser e do ente é a distribuição dos dois em áreas (regiões) e níveis, o que contém ao mesmo tempo o pressuposto para o desdobramento da ideia do sistema na metafísica. De maneira incomparável, em contrapartida, e nunca tangível em conceitos e modos de pensar metafísicos, temos o projeto do seer como acontecimento da apropriação, projeto esse que experimenta a si mesmo como jogado e se mantém distante daquela aparência de ser um produto. Aqui se desentranha o seer naquela ESSENCIAÇÃO, com base na qual a abissalidade faz com que os contra-postos (deuses e homem) e os querelantes (mundo e terra) alcancem em sua história originária a sua essência entre o seer e o ente e admitam a denominação conjunta do seer e do ente apenas como o que há de mais questionável e de mais cindido. [tr. Casanova; GA65: 268] O des-locamento consiste no acontecimento da apropriação do ser-aí; e isso de tal modo, com efeito, que no aí que se clareia (no a-bismo do que não possui apoio nem proteção) o acontecimento da apropriação se subtrai. Des-locamento e retração se ligam ao seer enquanto acontecimento apropriador. Neste caso, não acontece nada no interior do ente, o seer permanece inaparente, mas pode acontecer com o ente enquanto tal de ele, voltado para a clareira do in-habitual, lançar por terra seu caráter habitual e precisar se colocar em relação à de-cisão sobre como ele satisfaz ao seer. Isso não significa, porém, dizer como é que ele se ajustaria e corresponderia ao seer, mas como ele, o ente, resguarda e perde a verdade da ESSENCIAÇÃO do seer, chegando aí à sua própria essência, que consiste em tal resguardo. As formas fundamentais desse resguardo, contudo, são a abertura de uma totalidade do mundo (mundo) e o fechar-se diante de todo projeto (terra). Essas formas fundamentais só deixam emergir o resguardo e são elas mesmas na contenda, que se essencia a partir da intimidade do acontecimento da apropriação do acontecimento apropriador. Sempre a cada vez em cada um dos lados dessa contenda se encontra aquilo que nós conhecemos metafisicamente como o sensível e o não sensível. Por que, contudo, precisamente essa contenda entre mundo e terra? Porque, no acontecimento apropriador, o ser-aí acontece de maneira apropriadora e se transforma na jurisdicionalidade do homem, porque o homem é chamado para a guarda do seer a partir da totalidade do ente. Como, porém, o elemento querelante, a partir do qual nós temos de pensar em termos da história do seer o homem e seu “corpo”, a “alma” e o “espírito”? [tr. Casanova; GA65: 269] O seer des-loca, na medida em que se apropria do ser-aí em meio ao acontecimento. Esse des-locamento é uma afinação, sim, o rasgo originário do próprio elemento afinador. A tonalidade afetiva fundamental da angústia suporta a exposição ao des-locamento, na medida em que esse des-locamento anula em um sentido originário, de-põe o ente enquanto tal, isto é, na medida em que esse niilizar não é nenhuma negação, mas, se é que ele pode ser interpretado a partir do comportamento que assume uma posição, uma afirmação do ente enquanto tal como o de-posto. A questão é que a niilização é justamente a própria de-posição, por meio da qual o seer se sobreapropria enquanto de-posição da clareira do aí apropriado em meio ao acontecimento. E, por sua vez, a niilização do seer na re-tração, inteiramente irradiada pelo nada, essencia o seer. E somente quando tivermos nos libertado da falsa interpretação do nada a partir do ente, somente quando determinarmos a “metafísica” a partir da niilização do nada e por meio daí, ao invés de, ao contrário, degradarmos o “nada” a partir da metafísica e a partir do primado nela vigente do ente, transformando-o no mero não da determinação e mediação do ente como Hegel e todos metafísicos antes dele: somente então teremos pressentido que força da insistência no ser humano entretece a partir do “deslocamento”, agora visado como tonalidade afetiva fundamental da “ex-periência” do seer. Por meio da metafísica, e isso significa ao mesmo tempo por meio do cristianismo, somos desencaminhados e nos habituamos a supor no “deslocamento”, ao qual pertence a angústia como o nada ao seer, apenas o elemento desértico e sombrio, ao invés de experimentarmos nela a determinação em meio à verdade do seer e a partir dela saber jurisdicionalmente o estado de sua ESSENCIAÇÃO. [tr. Casanova; GA65: 269] ESSENCIAÇÃO significa o modo como o seer mesmo é, a saber, o seer. O dizer “do” seer. O seer se essencia como a urgência do deus na guarda do ser-aí. Essa essência é o acontecimento apropriador enquanto o acontecimento apropriador, em cujo entre se estende por um lado de maneira querelante a contenda entre mundo e terra. Por outro lado, é só a partir dessa contenda que a terra chega até a sua essência (de onde e como a contenda?): o seer, o acontecimento da apropriação que entra uma vez mais em combate para a contraposição entre os deuses e o homem. [tr. Casanova; GA65: 270] O entre implosivo reúne aquilo que ele volta para o aberto de seu pertencimento contestável e marcado pela recusa, em direção ao a-bismo, a partir do qual tudo (o deus, o homem, o mundo, a terra) se essencia de volta em si e, assim, deixa ao seer a única decidibilidade do acontecimento da apropriação. O seer de tal ESSENCIAÇÃO é ele mesmo nessa essência único. Pois ele se essencia como aquele choque, que talvez já tenha se anunciado como a mais extrema possibilidade de decisão da história ocidental, a possibilidade de que o seer mesmo venha a emergir de tal essência como a urgência do deus, que precisa da guarda do homem. Essa possibilidade é ela mesma a origem “do” seer. E o que aparece aqui comprovado com o nome do que há de mais universal e supra-histórico, segundo a opinião até aqui sobre o seer, é por completo e antes de tudo o histórico e pura e simplesmente único. [tr. Casanova; GA65: 270] O acontecimento da apropriação e a contestação, a fundação da história e a decisão, a unicidade e a unidade, o caráter de entre e o fosso aberto: todos eles jamais denominam a essência do seer como propriedades, mas eles nomeiam na ESSENCIAÇÃO respectivamente total de sua essência. Falar sobre um significa não apenas covisar aos outros, mas levá-los ao saber em uma unicidade histórica do poder de sua essência. Tal saber não dá a conhecer nenhum objeto, também não é nenhuma evocação e convocação de estados e posturas morais, mas é sim a transmissão do choque do próprio seer, que funda enquanto acontecimento apropriador o campo de jogo temporal para o verdadeiro. [tr. Casanova; GA65: 270] No ser-aí, para o qual o homem volta a tomar pé sobre si por meio da transformação transitória de sua essência, só tem sucesso uma preservação do seer naquilo que aparece pela primeira vez por meio daí como um ente. Se é dito em Ser e tempo que, através da “analítica existencial”, o ser do ente não humano se torna pela primeira vez determinável, então isso não significa que o homem seria o ente em primeiro lugar e de saída dado e que seria de acordo com a sua dotação de medida que os outros entes obteriam a cunhagem de seu ser. Tal “interpretação” supõe que o homem continuaria sendo sempre pensado ao modo de Descartes e de todos os seus sucessores e meros adversários (mesmo Nietzsche está entre eles) como sujeito. Isso, porém, é para nós a meta mais imediata: não estabelecer mais em geral o homem como um subjectum, uma vez que nós o compreendemos de antemão a partir da questão do seer e apenas assim. Se, contudo, apesar disso, o ser-aí ganhar o primeiro plano, então isso significa: o homem, concebido de acordo com o ser-aí, funda sua essência e o caráter próprio de sua essência no projeto do ser e se mantém, por isso, em todo comportamento e em todo modo realizado de se comportar no âmbito da clareira do seer. Esse âmbito, no entanto, não é inteiramente humano, isto é, não é determinável e sustentável por meio do animal rationale, nem tampouco por meio do subjectum. O âmbito não é em geral nenhum ente, mas pertence à ESSENCIAÇÃO do seer. Concebido de acordo com o ser-aí, o homem é aquele ente que, sendo, pode perder a sua essência e, com isso, sempre está certo de si mesmo da maneira mais incerta e ousada possível, o que acontece, porém, com base na entrega à responsabilidade pela guarda do seer. O primado do ser-aí não é apenas o oposto de todo e qualquer tipo de humanização do homem, ele também fundamenta uma história completamente diversa da essência do homem, que nunca tem como ser concebida a partir da metafísica e, por isso, também não a partir da “antropologia”. Isso não exclui, mas inclui o fato de que o homem agora ainda é mais essencial para o seer, por mais que ele venha a ser avaliado como mais desimportante a partir do “ente”. [tr. Casanova; GA65: 271] 1) A que pico devemos subir para que possamos visualizar livremente o homem em sua indigência essencial? Ao fato de sua essência ser para ele uma propriedade e, por isso, uma perda, e, em verdade, a partir da ESSENCIAÇÃO do seer. Por que tais picos são necessários e ao que eles visam? 2) O homem se desencaminhou de maneira obtusa no que é “apenas” ente ou ele foi impelido a isso pelo seer? Ou será que ele foi simplesmente pendurado pelo seer e entregue a um egoísmo? (Essas questões movimentam-se na diferenciação entre ser e ente). 3) O homem, o animal pensante, como fonte subsistente das paixões, impulsos, dos estabelecimentos de metas e valorações, dotado de um caráter etc. Esse elemento a qualquer momento constatável, que pode contar seguramente com a concordância de todos, sobretudo quando todos estão de acordo em não perguntar mais e não deixar ser senão aquilo que para cada um é: a) Como o que nós nos deparamos com o homem. b) O fato de que nós nos deparemos com ele. 4) O homem é o que retorna no livre lançamento (projeto jogado); nós precisamos compreender ser, quando… 5) O homem, o guardião da verdade do seer (fundação do ser-aí). 6) O homem, nem “sujeito”, nem “objeto” da “história”, mas apenas o ente mobilizado pelo vento da história (acontecimento apropriador) e arrastado concomitantemente para o interior do seer, pertencente ao seer. Clamor da urgência, assunção da responsabilidade em meio à guarda. 7) O homem como o estrangeiro no lance livre expelido, o estrangeiro que não retorna mais do abismo e mantém nessa estrangeiridade a vizinhança longínqua. [tr. Casanova; GA65: 272] Se levarmos em consideração o fato de que “a” linguagem em geral nunca é, mas que a linguagem só pode ser como a-histórica (“linguagem” dos assim chamados povos naturais) e como histórica, então mensuraremos para além daí o quão obscura permanece para nós a essência da história, apesar da compreensibilidade da historiologia; então, todas as tentativas de apreender a “essência” da linguagem parecerão se confundir imediatamente no começo do caminho; e toda reunião historiológica de pontos de vista até aqui sobre a linguagem pode até ser instrutiva, mas ela nunca consegue nos lançar para além do campo de ligação metafisicamente fixado da linguagem com o homem e com o ente. Isso, porém, já se mostra de qualquer modo como a primeira questão: saber se, então, com a interpretação histórica e até mesmo inicialmente necessária da linguagem a partir do logos e com a inserção assim prelineada no campo de ligação metafísico, a possibilidade da determinação essencial da linguagem não teria sido restrita ao espaço de meditação da metafísica. Se, então, porém, a metafísica mesma e seu questionamento em sua restrição essencial à questão acerca da entidade são reconhecidos e se se consegue alcançar a intelecção de que, em meio a essa questão metafísica acerca do ente na totalidade, nem tudo e precisamente o mais essencial dentre tudo o que é ainda não pôde ser de modo algum interrogado, a saber, o seer mesmo e sua verdade, então se abre aqui uma outra perspectiva: o seer e nada menos do que a sua ESSENCIAÇÃO mais própria poderia até mesmo constituir aquele fundamento da linguagem, a partir do qual ela criou o caráter apropriado de determinar pela primeira vez por si mesma aquilo, em relação ao que ela é explicada metafisicamente. [tr. Casanova; GA65: 276] Segundo a determinação bem compreendida e até hoje válida do homem como animal rationale, a linguagem é dada com o homem e isso de maneira tão certa que se pode dizer mesmo na inversão que é apenas com a linguagem que o homem é dado. Linguagem e homem se determinam de modo alternante. Por meio do que isso se torna possível? As duas coisas são em certo aspecto o mesmo? E em que aspecto elas são o mesmo? Por força de seu pertencimento ao seer. O que significa isso: pertencer ao seer? O homem pertence enquanto um ente ao ente e está submetido, assim, à mais universal determinação de que ele é e de que ele é de tal e tal modo. A questão é que isso não distingue o homem enquanto homem, mas apenas o equipara enquanto ente a todo ente. O homem, porém, pode pertencer ao seer (não apenas ao ente), na medida em que ele cria a partir desse pertencimento e precisamente a partir dele a sua essência mais originária: o homem compreende o seer (cf Ser e tempo); ele é o guarda-posto do projeto do seer, a guarda da verdade do seer constitui isso a partir do seer e “apenas” a partir dessa essência concebida do homem. O homem pertence ao seer como aquele que é apropriado pelo próprio seer em meio ao acontecimento para a fundação de sua verdade. Assim apropriado, ele é entregue à responsabilidade do seer; ao mesmo tempo, tal responsabilidade remete a conservação e a fundação da essência do homem para aquilo que o homem precisa primeiro transformar para si em propriedade, aquilo com relação ao que ele precisa ser mais próprio e mais impróprio: para o ser-aí, o que significa a própria fundação da verdade, o a-bismo exposto e sustentado pelo seer (acontecimento apropriador). Como é, contudo, que a linguagem se comporta em relação ao seer? Se não podemos computar a linguagem como algo dado e, com isso, já estabelecido na essência, uma vez que o que importa é “encontrar” a essência, e se o seer mesmo é “mais essencial” do que a linguagem, na medida em que ela é tomada como um dado (ente), então a pergunta precisa ser formulada de outro modo. Como é que o seer se comporta em relação à linguagem? Mas mesmo assim a questão é ainda capaz de induzir em uma falsa interpretação, na medida em que aparece agora como mera inversão da relação anterior e a linguagem, por sua vez, é considerada como um dado, com o qual o seer entra em ligação. Como é que o seer se comporta em relação à linguagem – o que está em questão aqui é: como emerge na ESSENCIAÇÃO do seer a essência da linguagem? Com isso, porém, uma resposta já não é antecipada: justamente que a linguagem emerge do seer? Mas toda e qualquer autêntica questão acerca da essência, determinada como projeto a partir do que precisa ser projetado, antecipa a resposta. A essência da linguagem nunca pode ser determinada de outro modo senão por meio da denominação de sua origem. Por isso, não se pode fornecer definições da essência da linguagem e declarar a questão acerca de sua origem irrespondível. A questão acerca da origem encerra naturalmente em si a determinação essencial da origem e do próprio emergir. Emergir, contudo, significa: pertencer ao seer no sentido da questão por último colocada: como se essencia na ESSENCIAÇÃO do seer a linguagem? Que, contudo, essa ligação com o seer não seja em geral nenhuma exposição arbitrária, isso foi algo que a consideração prévia deixou claro. Pois, em verdade, aquela dupla ligação metafísica (só que não pensada de volta à origem) da linguagem com o ente enquanto tal e com o homem (como animal rationale, ratio – fio condutor da interpretação do ente com vistas à entidade, isto é, o ser) não indica outra coisa senão: a linguagem está inteiramente ligada ao ser; e isso precisamente nos aspectos, segundo os quais a metafísica a determina. Mas como a metafísica só é em geral a partir do impasse em relação ao seer o que ela é, precisamente essa ligação e completamente a sua concepção correta nunca pode alcançar o âmbito de seu questionamento. [tr. Casanova; GA65: 276] Se, então, porém, com a superação da metafísica, a antropologia também cai por terra, se a essência do homem é determinada a partir do seer, então aquela explicação antropológica da linguagem não pode mais permanecer normativa; ela perde aí seu fundamento. Não obstante, agora permanece até mesmo em pleno poder aquilo que foi captado como corpo, como alma, como espírito da linguagem junto a essa explicação. O que é isso? Pensando de maneira correspondente à história do ser, não podemos proceder agora simplesmente de um modo tal, que interpretemos a essência da linguagem a partir da determinação do homem em termos da história do ser? Não; pois sempre permanecemos com isso ainda presos na ideia de símbolo; antes de tudo, no entanto, não se estaria levando a sério assim a tarefa de ver a partir da ESSENCIAÇÃO do próprio seer a origem da linguagem. [tr. Casanova; GA65: 276] I. A sentença de Schinkel: “Foi junto ao sentido do povo grego, deixando para trás por toda parte a recordação de sua existência e de sua atuação para o mundo posterior, que surgiu a atividade artística multifacetada…” 1) Junto ao sentido: “ocasionalmente” ou “a partir” do sentido? 2) Só se está colocando um peso sobre a explicação do surgimento do caráter multifacetado da arte ou sobre a própria explicação da arte? 3) Atividade artística: deixar surgir “a arte” e o ser ativo nela ou a própria essência da arte pela primeira vez como necessários? O ser ativo nela, diferente de “fundamento”, direções e camadas diversas da fundamentação como “surgimento”: a) Fundamento da essência (origem da essência a partir da ESSENCIAÇÃO do seer) cf abaixo VI. b) Ocasião, encargos, imitação. c) Choques e impulsos (carências e pulsões). d) Condições (disposições, habilidades). e) agon, o exceder-se, mas isso também não como recorde, mas doxa. f) O fundamento humano do agon. 4) “Mundo posterior”, indeterminado: a) pensado de maneira modernamente historiológica, Ocidente, formação histórica, “eternizar”. b) grego, para o próprio povo, o que significa, porém, então, nenhuma “eternidade”, não que justamente os posteriores (quaisquer ou mesmo o Ocidente) tenham disso historiologicamente uma memória, “recordação” (pensamento rememorante), mas manter junto a si os próprios gregos como sua posse; permanecer presente em sua presentação (doxa), também não “nacional”, mas metafísico. [tr. Casanova; GA65: 278]

Submitted on:  Sun, 17-Sep-2023, 13:58