
gr. ekei: lá, além, acima Descendo, do Grande Em Cima para o Grande Em Baixo, a divindade se desveste de todas as vestimentas, de todas as insígnias do que nela é divino. Mas seu corpo nu ainda se mostrava vestido aos olhos agudíssimas da Rainha dos Infernos: faltava despojá-la do riquíssimo paramento da vida. Por aí, a grande deusa se identificaria com o mais comum dos seres humanos. Por isso ordenou que sobre ela esparzissem as águas da morte. Pouco importa repetir que nada há mais encoberto e envolvido do que a nudez de um morto: que o envolve e encobre é a vida ausente, porque ausência é a agravada presença do que não permite que um morto seja nada. Um morto põe-nos em presença da Vida; um vivo, só diante da vida dele. Porém, o que mais importa é notar que os homens sobem o mesmo caminho que os deuses descem. Só com esta diferença: de Cima para Baixo, despem-se os deuses; de Baixo para Cima, despem-se os homens. A meio caminho, deuses e homens se encontram, uns mais ou menos despidos, outros, mais ou menos vestidos, todos mais ou menos encobertos e envolvidos, todos mais ou menos desencobertos e desenvolvidos. A meio do caminho, homens se reconhecem nos deuses e os deuses, nos homens. A meio do caminho deuses saúdam os homens, como seus iguais. Os deuses, descendo, iniciam-se no Homem; os homens, subindo, iniciam-se em Deus. Mas foram os deuses que acenaram para o caminho, como «acenantes mensageiros da Divindade» que, sorrindo, nuns e noutros, põem seu olhar complacente. Essa era a mensagem. Ou não só? Não só essa. Se passei a última porta, aquela que por sua estreiteza não permite senão que «eu» passe, despojado de tudo quanto «me» pertencia, de tudo quanto do «mim mesmo» era e que «eu» não sou, porque diante da Divindade cheguei, como sendo o que sou, para baixo ficaram os deuses. Cada um deles fora jogado na indecisão de serem ou terem seu mundo. Se morrem para vida do mundo, são seu mundo; se vivem, têm o mundo em que vivem. Mas eu sou eu só, pela Excedência que imita a Excessividade incontida, que não deixou que eu me detivesse no caminho, em qualquer dos mundos que algum deus seja ou tenha. Nisto, um homem pode superar todos os deuses. [EudoroMito:65]