
A principal diferença entre o emprego aristotélico e o posterior emprego medieval do termo é que o bios politikos denotava explicitamente somente o domínio dos assuntos humanos, com ênfase na ação, práxis, necessária para estabelecê-lo e mantê-lo. Nem o trabalho nem a obra eram tidos como suficientemente dignos para constituir um bios, um modo de vida autônomo e autenticamente humano; uma vez que serviam e produziam o que era necessário e útil, não podiam ser livres e independentes das necessidades e carências humanas. [Para a oposição entre o que é livre e o que é necessário e útil, cf. Política, 1332b2] Se o modo de vida político escapou a esse veredicto, isso se deveu à compreensão grega da vida na pólis, que, para eles, denotava uma forma de organização política muito especial e livremente escolhida, e de modo algum apenas uma forma de ação necessária para manter os homens juntos de um modo ordeiro. Não que os gregos ou Aristóteles ignorassem o fato de que a vida humana sempre exige alguma forma de organização política, e que o governo dos súditos pode constituir um modo de vida à parte; mas o modo de vida do déspota, pelo fato de ser “meramente” uma necessidade, não podia ser considerado livre e nada tinha a ver com o bios politikos. [Cf. Política, 1277b8, para a distinção entre governo despótico e política. Quanto ao argumento de que a vida do déspota não é igual à vida de um homem livre, uma vez que o primeiro está preocupado com “coisas necessárias”, conferir, 1325a24.] [ArendtCH, 2]