ser-um-com-outro

Category: Heidegger - Ser e Tempo etc.
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ser-um-com-outro

Miteinandersein Realidade simultânea, isto é, ser-real simultaneamente a outros entes, não significa necessariamente SER-UM-COM-O-OUTRO. O giz e o apagador ou mesmo o homem e o giz podem ser ao mesmo tempo reais. No entanto, não podemos dizer desses dois pares que eles são um com o outro. Só o homem e o homem podem ser um com o outro. Portanto, diferenciamos de maneira totalmente genérica o ser real do ente, o que ainda não diz absolutamente nada sobre o modo como eles são juntos e, ao mesmo tempo, o ser real do ente que possui o mesmo modo de ser. Se ele tem o modo de ser do ente por si subsistente, então falamos de um subsistir-por-si-conjuntamente. Se o ser ao mesmo tempo real tem o modo de ser do ser-aí, falamos de um “um-com-o-outro”. GA27MAC §13 Perguntamos agora pela diferença do um-ao-lado-do-outro no sentido do subsistir-por-si-conjuntamente das coisas e do um-ao-lado-do-outro como SER-UM-COM-O-OUTRO dos homens. GA27MAC §13 Subsistir-por-si-conjuntamente – SER-UM-COM-O-OUTRO. Tomemos como um exemplo simples dois blocos de pedra que se encontram na encosta de uma montanha. Podemos dizer: eles são juntos, mas não subsistem por si um com o outro. Em contrapartida, dois viandantes que sobem a encosta são um com o outro. É fácil de perceber a diferença: as duas pedras são corpos materiais, os dois viandantes seres vivos; e, com efeito, seres vivos racionais que, com o auxílio de sua razão, se apreendem mutuamente. Os homens também subsistem sem dúvida por si um ao lado do outro. Além disso, porém, eles têm uma consciência desse um-ao-lado-do-outro e um apreende o outro. Por conseguinte, seu SER-UM-COM-O-OUTRO não seria nada além de um subsistir-por-si-conjuntamente de maneira consciente. GA27MAC §13 Essa caracterização da diferença entre subsistir-por-si-conjuntamente e SER-UM-COM-O-OUTRO é à primeira vista elucidativa e parece ser pertinente, uma vez que indica claramente uma diversidade. Os blocos de pedra não são apenas desprovidos de consciência, como se tivessem perdido sua consciência e não pudessem mais por isso fazer uso dela. Ao contrário, conforme a sua própria essência, eles não têm consciência. Pode haver entre eles um efeito recíproco, mas lhes é pura e simplesmente vedado transformar seu um-ao-lado-do-outro em um apreender-se mutuamente. Como seres vivos racionais, os dois homens são capazes de uma tal apreensão. Ora, mas será que por meio da apreensão mútua o um-ao-lado-do-outro se transforma em um-com-o-outro? Imaginemos que, depois de uma curva da trilha em que caminham, os dois viandantes se deparem com uma vista inesperada da montanha, de modo que os dois são repentinamente arrebatados e silenciosamente passam a estar um ao lado do outro. Não há nenhum rasto de uma apreensão mútua, cada um se encontra antes absorvido pela vista. Será que os dois estão agora apenas um ao lado do outro como os dois blocos de pedra ou será que justamente nesse instante eles são um com o outro de uma maneira em que não podiam [91] ser quando juntos falavam à toa e sem parar ou mesmo quando se apreendiam mutuamente e se punham a sondar seus complexos? GA27MAC §13 Se, portanto, nesse arrebatamento pela vista repentina da montanha – em meio ao qual não faz mais sentido algum falar de uma apreensão mútua – reside precisamente um SER-UM-COM-O-OUTRO originário, então esse SER-UM-COM-O-OUTRO não pode se constituir por meio de uma apreensão mútua. E, para perceber como esse não é de maneira alguma o caso, basta ter em mente que toda apreensão mútua entre ser-aí e ser-aí já pressupõe, inversamente, o SER-UM-COM-O-OUTRO dos dois. A apreensão mútua está fundada no SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §13 Nesse sentido, o SER-UM-COM-O-OUTRO significa mais, ele significa de fato algo diverso de: dois homens aparecem em algum lugar ao mesmo tempo. Até aqui obtivemos por meio da negativa o seguinte: 1. O SER-UM-COM-O-OUTRO não é um também-ser-ao-mesmo-tempo, com a única diferença de que esse ser seria justamente o ser-aí. 2. O um-com-o-outro tampouco aponta para um subsistir-conjuntamente, de modo que os entes por si subsistentes aí teriam além de tudo um saber mútuo acerca de si mesmos; ele não é nenhum também-ser-ao-mesmo-tempo, só que agora acompanhado de consciência. GA27MAC §13 De qualquer modo, já vimos em um outro contexto como toda apreensão pressupõe a manifestação. Naquele momento o que estava em questão era a apreensão do ente por si subsistente, agora o que está em jogo é a apreensão do ser-aí. O ser-aí já precisa ser antes manifesto para o ser-aí, para que seja possível a apreensão mútua. Esse ser-manifesto-um-para-o-outro referente aos seres-aí toca a essência do um-com-o-outro ou será que ele não pertence essencialmente ao SER-UM-COM-O-OUTRO? Em todo caso precisamos tentar discutir o um-com-o-outro a partir da orientação por esse ser-manifesto-um-para-o-outro. GA27MAC §13 Se o ser-manifesto-um-para-o-outro não equivale à apreensão mútua, então todos os modos de apreensão mostram-se desde o princípio insuficientes para o esclarecimento do um-com-o-outro. Ser-manifesto-um-para-o-outro não consiste, portanto, em que eu conheça o outro – e inversamente que o outro me conheça – em sua assim chamada vida interior, em que eu saiba o que está ocorrendo em sua interioridade, que tipo de disposições, peculiaridades e manias ele tem; tampouco consiste, por conseguinte, na apreensão de sua constituição externa ou de seu comportamento. Se o ser-manifesto-um-para-o-outro deve conter uma indicação da essência do um-com-o-outro, então nós a encontraremos por fim lá onde constatamos um um-com-o-outro; por exemplo, em meio ao arrebatamento exercido pela vista da montanha sobre os dois viandantes. Aqui vigoram exatamente uma não-apreensão-mútua e, não obstante, um com-o-outro peculiar. O “com” aponta nesse contexto para compartilhamento. O que é compartilhado reside aqui no fato de que um é tão arrebatado quanto o outro, de que algo vale igualmente para os dois. Assim como um se comporta, o [93] outro também se comporta. O SER-UM-COM-O-OUTRO dos dois consiste então em os dois se comportarem e poderem se comportar de igual maneira? Isso, porém, também é válido para os dois blocos de pedra. O que é possível em um bloco também pode suceder com o outro. Sim, essas coisas se igualam no modo como são, muito mais do que os homens. Apesar de os dois blocos de pedra serem de um igual modo, eles não são absolutamente um-com-o-outro. GA27MAC §13 Portanto, não há nenhum ser junto a… e correspondentemente nenhum comportar-se em relação a… que pudesse ser igual. Se SER-UM-COM-O-OUTRO significasse o mesmo que: comportar-se de igual maneira em relação a uma coisa, então não haveria nenhum um-com-o-outro. Todavia, digamos agora de modo compreensível que nós todos nos comportamos “uns com os outros” em relação ao giz. Assim, o que é igual não é o nosso comportamento em relação a…, mas igual é aquilo em relação ao que nos comportamos. Mas, afinal, será que vemos de fato o mesmo giz? Alguém na última fileira lá atrás vê um giz que é igual àquele que eu vejo? Eu afirmo: não! Os senhores concordarão e dirão: naturalmente não. O que para o observador da última fileira lá atrás é a parte da frente do giz é para mim inversamente a parte de trás. Aquilo que vemos aí, aquilo em relação ao que nós nos comportamos, também é, então, algo diverso. Mas digo ainda mais: no ser junto ao giz que se encontra aí defronte, alguém que se acha lá no fundo do auditório não apenas não vê de maneira realmente igual o giz que eu vejo; e, com efeito, não apenas porque isso que estamos vendo aí mostra efetivamente diferenças, mas porque algo do gênero, no caso presente, está essencialmente fora de questão. Para que alguém lá atrás pudesse ver um giz igual, ou seja, um giz que é igual ao que eu vejo, seria preciso que pelo menos dois gizes subsistissem por si. De acordo com a sua essência, igualdade pressupõe pluralidade. Portanto, cada um de nós não vê o giz igual, mas todos veem uns com os outros o mesmo giz. Mesmidade e igualdade são coisas diversas. GA27MAC §13 Já perguntamos pelo ser-um-ao-lado-do-outro característico do ente por si subsistente e pelo ser-um-ao-lado-do-outro intrínseco aos homens. Este último denominamos SER-UM-COM-O-OUTRO. Se retomarmos agora uma vez mais a tentativa precedente de uma determinação do um-com-o-outro, então teremos de dizer: ele não reside nem no fato de nós nos comportarmos de igual maneira em relação a algo, nem no fato de aquilo em relação ao que nós sempre a cada vez nos comportamos ser algo igual. Ao contrário, o um-com-o-outro pode agora significar, quando muito, que várias pessoas se comportam de maneira diversa em relação ao mesmo. Comportamento [96] em relação ao mesmo não exclui, mas até mesmo implica que o comportamento seja diverso. Mas não estamos, por exemplo, uns com os outros quando alguém assume um comportamento em relação ao giz, o outro em relação ao quadro-negro ou ao caderno, e ainda um outro talvez em relação aos seus esquis que estão em casa? Quanto ao último exemplo, certamente diríamos que quem assume um tal comportamento está ausente, por mais que esteja aqui sentado em algum dos bancos do auditório. GA27MAC §13 Se, de forma correspondente, tivermos presente para nós que cada um nesse auditório está voltado a um objeto qualquer e sempre a um outro, então existiremos de certa maneira uns para fora dos outros. Se supusermos, contudo, que esse ser-voltado a um objeto diverso, relativo a cada um de nós, consistiria na tarefa de descrever o auditório, o um-com-o-outro será mais próprio do que antes por meio da mesmidade da tarefa. Um tal comportamento de muitos em relação ao mesmo é um modo no qual o SER-UM-COM-O-OUTRO [97] se manifesta; talvez seja esse o modo que pertence necessariamente ao SER-UM-COM-O-OUTRO humano. Portanto, um intuito dirigido para o mesmo é de fato essencial para o um-com-o-outro. GA27MAC §13 Mesmidade. Mostrou-se: a mesmidade daquilo em relação a que assumimos um comportamento em meio ao um-com-o-outro desempenha um certo papel para esse um-com-o-outro. Que papel? Isso é obscuro; realmente não está de maneira alguma claro o que se tem em mente aqui por mesmidade. Esse termo carece evidentemente de uma determinação mais detida, se é que deve se tornar compreensível em que medida pode ser questionado de modo justo: em que sentido nos comportamos em relação ao mesmo e o que significa aqui o mesmo? Para a mesmidade temos o termo “identidade”. Essa parece ser a coisa mais simples do mundo. Algo é idêntico a si: isso pode ser dito de todo e qualquer objeto. Apesar disso, a suposta intelecção do sentido da palavra “identidade” não é de maneira alguma suficiente para nos dar um esclarecimento sobre o que temos em mente quando dizemos que muitos se comportam em relação ao mesmo, de modo que esse seu comportamento é um SER-UM-COM-O-OUTRO. Portanto, precisamos tratar de nos convencer concreta e paulatinamente de que esse conceito corrente de identidade simplesmente não é suficiente aqui, isto é, precisamos colocar à prova os conceitos singulares de identidade em vista de sua capacidade conceitual a partir do fenômeno que ora tratamos, o SER-UM-COM-O-OUTRO como comportamento em relação ao mesmo. GA27MAC §13 Mas o que significa então o fato de assumirmos um comportamento em relação a um mesmo, de tal modo que em tal comportamento o SER-UM-COM-O-OUTRO venha de fato a se manifestar? Não significa: nós nos comportamos em relação a algo que não se altera. Um mesmo em relação ao qual nos comportamos, de modo que esse comportamento seja um SER-UM-COM-O-OUTRO junto a…, pode estar em movimento ou em repouso, sim, ele pode também pura e simplesmente se encontrar fora dessas possibilidades, tal como se dá, por exemplo, com o número 5, que não se movimenta. E não é que ele não se movimente porque está em repouso. Ele não pode estar em repouso: somente o que se movimenta pode estar em repouso. Repouso é apenas um modo de movimento. Nosso ser junto ao giz é um ser junto a algo que está em repouso, isto é, dito em termos principiais, algo que está em movimento. Esse repouso das coisas não é tão insignificante como poderia parecer. GA27MAC §13 Quanto mais diversamente indagarmos o que poderia significar aí mesmidade em meio ao SER-UM-COM-O-OUTRO junto ao mesmo, tanto mais distantes pareceremos estar daquilo que devemos esclarecer. Resumindo todos os resultados negativos, vemos o seguinte: no que diz respeito à mesmidade, o que está em questão não é um conceito de mesmidade que convenha ao ente, simples e primariamente em consideração a ele mesmo. GA27MAC §13 O mesmo como algo compartilhado. Mas, se muitos apreendem algo idêntico, então isso não é absolutamente o que temos diante de nós como o fenômeno a ser esclarecido. O primeiro caso acontece constantemente: alguém em Berlim vê um automóvel, e um fazendeiro na Floresta Negra vê uma vaca. Há muitos aí que apreendem a cada vez algo idêntico. No entanto, eles não apreendem um com o outro o mesmo, ainda que haja também aqui um certo um-com-o-outro. Assim, não podemos perder de vista que, no SER-UM-COM-O-OUTRO junto ao mesmo, a mesmidade expressa uma relação essencial e, com efeito, uma relação que não se volta simplesmente para trás, na direção do ente mesmo, mas justamente se evade e se move na direção de muitos. GA27MAC §13 Se nos lembrarmos por um instante do que queremos propriamente clarificar, a saber, um conceito prévio de filosofia, então parece que tomamos caminhos curiosos. Ao buscarmos uma solução para a questão de saber o que afinal significa filosofia, chegamos ao problema que questiona como um giz pode subsistir por si para nós, em nosso SER-UM-COM-O-OUTRO, como algo compartilhado. De fato, isso parece inicialmente um grande desvio. Nesse sentido, é necessário que nos mantenhamos agora conscientes da conexão interna de nossas considerações ou que tenhamos presente essa conexão. Uma tal tarefa não é necessária para que os senhores consigam recontar simplesmente os passos singulares da preleção – não há nada aqui para inculcar. A atualização da conexão de nossas considerações, uma atualização que é necessária a cada seção, não aponta para nenhuma conexão como a que se dá, por exemplo, na matemática, onde deduzimos determinados teoremas de determinados axiomas. A importância da conexão das considerações [104] revela-se muito mais em função do vínculo com a coisa de que continuamente se está tratando. Assim, mostrar-se-á que não precisamos retroceder nesse longo caminho, a fim de alcançarmos novamente a filosofia, mas podemos dar a todo instante a resposta, contanto que estejamos suficientemente preparados. Desse modo, à guisa de auxílio externo, a conexão é elucidada justamente no instante em que nos encontramos em meio a uma pergunta que aparentemente se encontra muito afastada do tema propriamente dito. GA27MAC §13 Nosso tema atual é a análise da diversidade do modo como o ente é. Nesse contexto, ele se orienta por dois âmbitos do ente: o ente por si subsistente e o ser-aí. Nessa análise vimos como a verdade sobre o ente precisa se modificar através da diversidade do ser do ente. Portanto, em certa medida deixamos de lado, por um tempo, a pergunta acerca da essência da verdade e nos ocupamos agora com a diversidade do ser do ente. Para tanto, tomamos por base exemplar o ser-um-ao-lado-do-outro dos entes por si subsistentes e o SER-UM-COM-O-OUTRO dos seres-aí. GA27MAC §13 Participação significa compartilhamento? Essa é uma pergunta que questiona se o caráter compartilhado do giz está constituído primariamente no uso, no SER-UM-COM-O-OUTRO junto a… GA27MAC §13 Partilhamos o ente por si subsistente entre nós; isso quer dizer que: 1. Não o despedaçamos e o distribuímos entre nós, mas o deixamos indiviso; [109] 2. Nós o entregamos mutuamente a nós no uso e já o partilhamos entre nós mesmo no mero deixar-ficar que não implica uso. Dito positivamente: partilhamos entre nós o ente sem que, nesse partilhar, aconteça algo com ele, sem que ele se altere. Partilhamos entre nós o ente, sem que transmitamos, entreguemos ou recebamos algo que advém ao ente, algo que o ente é e, contudo, é ao mesmo tempo nosso .Partilhamos um tal ente como algo compartilhado, de modo que esse algo compartilhado co-possibilita o SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §13 Partimos do seguinte fato: o SER-UM-COM-O-OUTRO se expressa no comportamento de muitos em relação ao mesmo. Mesmidade para muitos é compartilhamento, é ter algo em comum, é partilhar entre si o desvelamento. SER-UM-COM-O-OUTRO junto ao ente é compartilhar do desvelamento (verdade) do ente em questão. GA27MAC §14 O desvelamento do ente por si subsistente ocupa uma dupla posição curiosa: ele pertence em certa medida ao ente por si subsistente e, ao mesmo tempo, ao ser-aí. O que é afinal a verdade do ente por si subsistente para que ela tenha e possa ter essa dupla posição? Se vamos ou não chegar a um esclarecimento satisfatório do compartilhamento da verdade, a fim de conquistarmos a procurada intelecção do SER-UM-COM-O-OUTRO, um modo de ser específico do ser-aí, é algo que depende da solução desse problema. GA27MAC §14 Antes de adentrarmos nesse problema, isto é, antes de adentrarmos na pergunta sobre a essência da verdade, uma pergunta que, como os senhores podem ver, continua nos impelindo para a frente, gostaríamos de interromper por um instante nossa investigação e tornar presente uma vez mais o curso e o contexto de nossa consideração: a partir do problema da essência da ciência veio à tona a pergunta acerca da essência da verdade, que se apresentou inicialmente como desvelamento do ente. Uma vez que há entes de diversos modos de ser, também há correspondentemente modulações da verdade. Com isso, precisamos tornar visível, de início, a diversidade das maneiras de ser do ente e pospor, pelo tempo em que esse movimento durar, o problema da verdade. O modo de ser do ente por si subsistente e o modo de ser do ser-aí precisam ser clarificados em vista de seu estar-um-ao-lado-do-outro, de seu ser-por-si-conjuntamente-subsistente e de seu um-com-o-outro. A pergunta [113] acerca da essência do SER-UM-COM-O-OUTRO, ou seja, a pergunta em torno da estrutura de um certo modo de ser, do modo de ser do ser-aí existente, precisou ser colocada. Como resposta obtivemos o seguinte: o SER-UM-COM-O-OUTRO constitui um compartilhamento da verdade. GA27MAC §14 SER-UM-COM-O-OUTRO é um compartilhamento da verdade. Que tipo estranho de resultado é esse? Na análise do SER-UM-COM-O-OUTRO, nós o caracterizamos provisoriamente como um ser junto ao mesmo, junto a algo comum, que interpretamos mais exatamente como um compartilhamento de algo. Esse compartilhamento de algo veio à tona para nós inicialmente sob a forma de um entregar-se mutuamente algo no uso. No entanto, evidenciou-se que de certa maneira já temos o ente, o ente por si subsistente, o ente que se encontra aí presente diante de nós como algo compartilhado, sem que precisemos fazer uso de algo. Portanto, esse compartilhamento de algo no SER-UM-COM-O-OUTRO junto a um ente por si subsistente não pode residir na concretização do próprio uso, mas em uma maneira de ser do ser-aí que é anterior a todo uso e possibilita pela primeira vez o fazer um uso comum de algo. GA27MAC §14 Tentando cumprir a tarefa de caracterizar um certo modo de ser e, com efeito, abstraindo-nos do problema da verdade, deparamo-nos com a verdade. Ao ser-uns-com-os-outros, à estrutura desse ser, à estrutura da maneira como o ser-aí é em relação ao ser-aí pertence a verdade, se é que SER-UM-COM-O-OUTRO quer dizer: compartilhamento da verdade. GA27MAC §14 () que significa isso? Ao “ser” desse ente que denominamos ser-aí e que nós mesmos somos pertence a verdade. O que é sua essência? Somente quando essa essência estiver clarificada o “ser” do ser-aí também o estará. Sem nos darmos conta, a pergunta acerca do modo de ser de um ente transformou-se na pergunta acerca da essência da verdade. Pois, somente se ficar claro o que é a essência da verdade, tornar-se-á apreensível o compartilhamento da verdade; e isso significa: o SER-UM-COM-O-OUTRO como modo de ser do ser-aí. Discutimos a essência da verdade com o intuito de caracterizar o modo de ser do ser-aí em contraposição ao modo de ser do ente por si subsistente. Agora temos necessariamente de caracterizar a verdade com o intuito de uma clarificação de um modo de ser específico: temos de discutir o fato de precisarmos caracterizar justamente dessa maneira a verdade como algo pertencente ao ser do próprio ser-aí. Esse não é um fato qualquer, mas é algo que já aponta de antemão para uma determinação essencial da verdade em geral: para o fato de que seu lugar não é a proposição, mas o ser-aí (ou mesmo o inverso)’. Daí já extraímos uma intelecção totalmente [115] fundamental e uma resposta à pergunta diretriz acerca de como se comporta a verdade como desvelamento do ente em relação ao ente, acerca de se e como a verdade se modifica com o modo de ser do ente. GA27MAC §14 Procuramos determinar o modo de ser do ser-aí em contraposição ao modo de ser do ente por si subsistente orientando-nos pelo SER-UM-COM-O-OUTRO entre ser-aí e ser-aí. O SER-UM-COM-O-OUTRO revelou-se como um compartilhamento do desvelamento (verdade) do ente por si subsistente (uma maneira possível do SER-UM-COM-O-OUTRO ou necessariamente pertencente a ele), como um determinado modo de ser. A verdade é, por conseguinte, constitutiva para a estrutura do SER-UM-COM-O-OUTRO como um modo de ser essencial do ser-aí. GA27MAC §14 O desvelamento do ente por si subsistente. Verdade (desvelamento) pertence consequentemente ao ser-aí mesmo, ao que esse ente é e como ele é, existe. Como é que a verdade (desvelamento) pertence então ao ser-aí que nós mesmos somos? Se buscamos responder agora a essa pergunta, então temos de nos lembrar que antes disso atribuímos a verdade qua desvelamento ao ente por si subsistente. Dissemos porém, o ente mesmo é primariamente verdadeiro e não a proposição sobre ele. O desvelamento “pertence” por conseguinte ao ente por si subsistente e, agora, ele deve pertencer ao ser-aí como elemento constitutivo de seu SER-UM-COM-O-OUTRO. Ele “pertence” tanto ao ente por si subsistente quanto ao ser-aí ou ele reside mesmo como que “entre” o ente por si subsistente e o ser-aí. Como é que o desvelamento pertence [116] ao ente por si subsistente? Ele lhe pertence de alguma forma? E o que significa aqui “pertencer”? GA27MAC §14 [118] Portanto, o desvelamento do ente por si subsistente não pertence tanto ao ente por si subsistente quanto ao ser-aí. Ao contrário, ele apenas advém ao ente por si subsistente, e, com efeito, não necessariamente; “e” pertence efetivamente ao ser-aí. Sim, o desvelamento advém ao ser-aí e só pode advir a ele porque e na medida em que esse desvelamento pertence ao ser-aí. Mas como é que o desvelamento do ente por si subsistente pertence ao ser-aí? De início veio à tona o seguinte: desvelamento do ente por si subsistente é aquilo que partilhamos entre nós. Mas é afinal necessário que nós, na medida em que existimos como homens e somos como seres-aí, partilhemos entre nós o desvelamento desse giz? Manifestamente não, pois podemos de qualquer forma existir sem que o desvelamento desse giz seja algo comum para nós. Portanto, o desvelamento do ente por si subsistente não pertence essencialmente ao ser-aí. Por fim, contudo, não é necessário que nos mantenhamos uns com os outros junto a esse giz, mas sim junto ao ente por si subsistente, que é então para nós o mesmo. Não é o desvelamento de um giz que pertence à essência do ser-aí; mas não será talvez o desvelamento de um ente por si subsistente que necessariamente partilhamos entre nós em meio ao ser faticamente juntos? Sim, mas somente em meio a este último! Ao SER-UM-COM-O-OUTRO, ou seja, ao ser-aí dos homens, talvez pertença necessariamente um compartilhamento do desvelamento do ente por si subsistente, na medida em que exatamente homens sejam faticamente juntos com homens. Ao SER-UM-COM-O-OUTRO entre ser-aí e ser-aí pertence o desvelamento, mas não ao ser-aí “em si e por si”. Pois um ser-aí não precisa estar junto com os outros necessária e constantemente de maneira fática, ele também pode estar sozinho, solus! GA27MAC §14 No entanto, mesmo que recusemos dessa forma uma objeção tão natural quanto essa, uma objeção que traz no início uma leve perturbação e segundo a qual o pertencimento da verdade ao ser-aí encerra em si uma subjetividade da verdade no mau sentido, permanece, de qualquer modo, sem ser esclarecido o objeto propriamente dito de nossa pergunta: como, afinal, a verdade como [122] desvelamento do ente por si subsistente pertence ao ser-aí? Queremos ter clareza quanto a esse ponto, para que possamos compreender como o ser-aí está em condições de compartilhar, com outros seres-aí, algo do gênero da verdade. Todavia, esse compartilhamento da verdade é uma característica do SER-UM-COM-O-OUTRO e o SER-UM-COM-O-OUTRO se mostra justamente como o nosso tema. GA27MAC §14 Já conquistamos uma intelecção essencial, a saber, a intelecção de que o pertencimento da verdade ao ser-aí não é necessariamente um compartilhamento de algo, de que um ser-aí também pode se comportar sozinho em relação ao ente por si subsistente. Portanto, o desvelamento do ente por si subsistente pode pertencer ao ser-aí sozinho. O pertencimento da verdade ao ser-aí é possível sem um SER-UM-COM-O-OUTRO, sem um compartilhamento da verdade. O compartilhamento da verdade não é fator constitutivo para o modo como a verdade reside no ser-aí. Isso também pode ser fundamentalmente formulado da seguinte maneira: o SER-UM-COM-O-OUTRO não é constitutivo para o ser junto ao ente por si subsistente. O ser-aí também pode se manter sozinho junto ao ente por si subsistente. Desse modo, uma caracterização do SER-UM-COM-O-OUTRO não nos conduz a uma intelecção do modo de ser primário do ser-aí. GA27MAC §14 No entanto, há sempre ainda uma possibilidade de justificar o nosso procedimento por meio da seguinte afirmação: o SER-UM-COM-O-OUTRO resulta primeiramente do fato de que dois seres-aí ou vários seres-aí estão juntos. Assim, ela sempre implica um ser-junto de um ser-aí com um ser-aí, e não um ser-junto de entes por si subsistentes. Nesse sentido, mesmo no SER-UM-COM-O-OUTRO pode vir à tona o modo de ser específico do ser-aí. Isso nos é suficiente para a distinção preliminar de um modo de ser em contraposição ao outro. GA27MAC §14 A questão é que, se o SER-UM-COM-O-OUTRO é a única coisa que particularmente nos ocupa agora e se constatamos que ele é um compartilhamento da verdade, não devemos tomar de maneira tão aligeirada o resultado antes conquistado de que o SER-UM-COM-O-OUTRO, [123] na verdade, não é constitutivo para o ser junto ao ente por si subsistente. Daí resultou que o pertencimento da verdade ao ser-aí não é necessariamente determinado por um compartilhamento da verdade, porque o ser-aí também pode existir faticamente sozinho. E nisso reside, porém, uma constatação essencial acerca da essência da verdade em geral, a cujo esclarecimento almejamos. GA27MAC §14 Ser junto ao ente por si subsistente e SER-UM-COM-O-OUTRO pertencem co-originariamente à essência do ser-aí. Na crítica do conceito corrente de sujeito evidenciou-se que pertence ao ser-aí um ser junto ao ente por si subsistente. No entanto, esse ser junto a… não é necessariamente um SER-UM-COM-O-OUTRO. Um ser-aí também pode, como já dissemos reiteradamente e o que é incontestável, estar sozinho. Todavia, talvez tenhamos nos contentado rápido demais com essa constatação aparentemente elucidativa. GA27MAC §14 Se alguém está sozinho, então outros não estão aí, então não há nenhum SER-UM-COM-O-OUTRO. O que significa aqui, porém: estar sozinho? Significa que só está um indivíduo aí em vez de muitos? Será que “sozinho” significa o mesmo que “único”? Manifestamente não. Pois senão um ser-aí só poderia estar sozinho se existisse como um único. A questão é que posso estar sozinho, mesmo que outros e muitos estejam concomitantemente aí. Sim, até mesmo em meio a uma multidão posso estar sozinho e ser sozinho, como nunca o posso ser quando outros não estão aí. GA27MAC §14 Portanto, estar sozinho não é de maneira alguma equivalente ao não-ser-aí fático dos outros. Estar sozinho sempre quer dizer: estar sem os outros. Quem existe sozinho está com certeza, em um determinado sentido, nesse sem os outros necessária e essencialmente relacionado com os outros. Sozinho pode significar: 1. abandonado por outros, 2. não molestado por outros, 3. não carente dos outros. Isso quer dizer que: no estar sozinho há um ser-um-sem-o-outro; o ser-um-sem-o-outro, contudo, é um modo específico de [124] SER-UM-COM-O-OUTRO. Por conseguinte, todo estar sozinho também é um SER-UM-COM-O-OUTRO, e, assim, SER-UM-COM-O-OUTRO não equivale ao também-ser-aí fático de outros. GA27MAC §14 Com isso, porém, toda a consideração precedente cai por terra, e seu resultado passa a ser nulo. Formulamos o resultado assim: o SER-UM-COM-O-OUTRO não é constitutivo para o ser junto ao ente por si subsistente, isto é, o modo como o desvelamento do ente por si subsistente pertence ao ser-aí não é necessariamente um compartilhamento da verdade. Agora, no entanto, vem à tona o seguinte: se estar sozinho qua estar-um-sem-o-outro é essencialmente um SER-UM-COM-O-OUTRO, então também reside em um estar sozinho junto ao ente por si subsistente um SER-UM-COM-O-OUTRO. Todavia, isso significa então: o modo como o desvelamento do ente por si subsistente (verdade) pertence ao ser-aí é necessária e essencialmente um compartilhamento da verdade. GA27MAC §14 Todo ser junto a um ente por si subsistente, mesmo o solitário, é um SER-UM-COM-O-OUTRO. O ser junto ao ente por si subsistente não é consequentemente uma possibilidade isolada na qual o ser-aí existe, e o SER-UM-COM-O-OUTRO uma outra possibilidade, mas todo ser junto a… é um SER-UM-COM-O-OUTRO. Inversamente, todo SER-UM-COM-O-OUTRO é, segundo a sua essência, um ser junto ao ente por si subsistente. O último não é menos essencial do que o primeiro. Na essência do ser-aí, o ser junto ao ente por si subsistente e o SER-UM-COM-O-OUTRO não possuem nenhuma primazia um em relação ao outro. Os dois pertencem necessariamente à essência do ser-aí: eles são co-originários. GA27MAC §14 A partir da tese de que o ser junto a… assim como o SER-UM-COM-O-OUTRO pertencem essencialmente ao ser-aí, quer ele esteja sozinho ou faticamente com os outros, vemos que o conceito de subjetividade ou o conceito de ser-aí encerram em si uma plenitude peculiar e que é preciso estar precavido quanto a tomar o conceito de ser-aí ou de sujeito de maneira por demais indeterminada, sim, por demais subdeterminada. Esse é o erro fundamental do desenvolvimento do conceito de sujeito desde Descartes. Com ele [125] começa propriamente a fatalidade da filosofia moderna, porque nele o ego, o eu é de tal forma empobrecido que não é mais nenhum sujeito. O ego sum em Descartes é sem o ser junto a…, sem o SER-UM-COM-O-OUTRO. Pois Descartes não chega nem mesmo a colocar a pergunta fundamental, digo, ele não chega nem mesmo a questionar como esse ego é, o que significa esse sum no ego sum em contraposição ao ser, por exemplo, da res extensa. Desde o princípio, esse conceito de eu é em certa medida reduzido. Não obstante, Descartes tem o mérito de ter colocado a pergunta sobre o sujeito, enquanto a época a ele precedente em verdade descobriu todo tipo de determinações sobre o sujeito, sobre o homem, mas essas determinações se concentraram mais em evidenciar certos modos fundamentais de comportamento do sujeito, as assim chamadas faculdades da alma. GA27MAC §14 Enquanto ser junto a… respectivamente fático, ser junto ao ente por si subsistente não é necessariamente um ser-com fático com outros seres-aí faticamente presentes. Todavia, segundo a sua essência, o ser junto ao ente por si subsistente é um SER-UM-COM-O-OUTRO. Daí fica claro o seguinte: o SER-UM-COM-O-OUTRO não quer dizer o existir fático junto com outros seres-aí faticamente presentes. O SER-UM-COM-O-OUTRO não advém pela primeira vez ao ser-aí por meio da aparição fática de outros. Ao contrário, todo ser-aí qua ser-aí é determinado em seu ser como SER-UM-COM-O-OUTRO. Por isso e somente por isso, ele também tem a possibilidade de estar sozinho; isto é, mesmo que outros faticamente não estejam aí, o ser-aí não é essencialmente apenas um indivíduo, mas ele está sozinho. Se o SER-UM-COM-O-OUTRO é um modo essencial do ser-aí e não lhe advém apenas de maneira condicionada, então todo ser-aí singular e singularizado é sempre ainda nesse modo, a saber, no modo do estar só. GA27MAC §14 O erro fundamental do solipsismo é que, em meio ao solus ipse, ele se esquece de levar realmente a sério que todo “eu sozinho” já é, enquanto um estar sozinho, essencialmente um SER-UM-COM-O-OUTRO. Somente porque o eu já é com os outros, ele pode [126] compreender um outro. No entanto, as coisas não se dão de um tal modo que o eu, inicialmente sem os outros, seja um ente único e, então, por meio de um caminho enigmático qualquer, chegue até o SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §14 Ora, mas se o ser-aí enquanto tal é essencialmente determinado em seu ser como SER-UM-COM-O-OUTRO, se todo ser junto ao ente por si subsistente é um SER-UM-COM-O-OUTRO, então o modo como o desvelamento do ente por si subsistente pertence ao ser-aí enquanto um modo determinado de verdade é sempre necessariamente um compartilhamento da verdade. Nesse caso, porém, o que é a verdade e como ela é, se seu pertencimento ao ser-aí é determinado por meio de um compartilhamento da verdade? GA27MAC §14 A verdade meramente advém ao ente por si subsistente, não pertence à sua essência; no entanto, a verdade pertence à essência do ser-aí. Por isso, perguntamos: “como?” e não fomos de início aparentemente adiante. Com efeito, pertence necessariamente a esse “como” o SER-UM-COM-O-OUTRO. Contudo, tampouco conseguimos sair do lugar com essa constatação se a própria verdade não for antes apreendida de maneira mais originária. O desvelamento compartilhado pelo ser-aí é algo essencialmente comum que pertence ao ser-aí e, porém, nesse pertencer-lhe, não é e nunca pode ser justamente uma propriedade sua, uma propriedade do indivíduo singular. GA27MAC §14 Supõe-se que todo e qualquer ser junto ao ente por si subsistente, mesmo o solitário, encerra em si um SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §16 Empreendemos uma série de tentativas para clarificar o SER-UM-COM-O-OUTRO enquanto ser junto ao mesmo. GA27MAC §17 Nossa tese, segundo a qual o SER-UM-COM-O-OUTRO deve ser caracterizado como um modo de ser peculiar do ser-aí, pode ser formulada da seguinte forma: de acordo com sua essência, o desvelamento do ente por si subsistente (o ter-sido-descoberto) sempre é compartilhado por um ser-aí com outros seres-aí, quer um outro ser-aí esteja faticamente presente ou não, quer o outro ser-aí se aproprie expressamente da verdade ou não. GA27MAC §17 Cada um dos muitos que são junto a… é um ser-com; não que um e outro estejam junto ao ente [146] por si subsistente, mas o um e outro é um SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §18 Assim, acha-se esclarecida a possibilidade interna do SER-UM-COM-O-OUTRO como um modo de ser essencial do ser-aí. GA27MAC §18 Tornamos visível o SER-UM-COM-O-OUTRO como estrutura essencial do ser-aí, e, com efeito, por meio de um caminho determinado, escolhido de forma intencional. GA27MAC §18 Demonstramos o SER-UM-COM-O-OUTRO por meio de um SER-UM-COM-O-OUTRO junto ao giz que subsiste por si, ou seja, por meio de algo que está assim bem próximo de nós. GA27MAC §18 Certamente os senhores já se viram às voltas com a seguinte objeção: o ser junto a um mesmo ente por si subsistente pode apresentar um “modo” do SER-UM-COM-O-OUTRO; em nosso caso, porém, o que está em jogo é um um-ao-lado-do-outro completamente extrínseco e indiferente, um um-com-o-outro bem frouxo. GA27MAC §18 Pois, tomado estritamente, o ser junto a um mesmo não é um modo do SER-UM-COM-O-OUTRO: um tipo particular entre muitos outros. GA27MAC §18 No entanto, na medida em que o sujeito é pensado como que cindido desse ser junto a…, como uma espécie de sujeito parcial, a pergunta acerca do [149] SER-UM-COM-O-OUTRO e por sua essência também acaba ficando confusa. GA27MAC §18 Mas, na medida em que o um-com-o-outro como problema permanece reduzido ao denominador comum da “empatia” – como quer que essa empatia seja concebida – , não se conquista a intelecção decisiva de que o um-com-o-outro já pertence à essência do ser-aí como tal, de modo que esse ser-aí como tal também já é um ser junto a… Ser-aí é SER-UM-COM-O-OUTRO junto a… E, assim, se o um-com-o-outro é tomado como algo pertencente à essência de cada ser-aí, então isso não significa que não há mais nenhum problema. GA27MAC §18 O problema do SER-UM-COM-O-OUTRO não é primordialmente uma questão da relação entre sujeitos, mas, antes de tudo, um problema que pertence à determinação essencial do sujeito como tal. [ GA27MAC §19 151] Fatos do SER-UM-COM-O-OUTRO sempre foram conhecidos. GA27MAC §19 Nosso exame visa apenas realçar, em contraposição a ela, a mencionada interpretação do ser-aí e do SER-UM-COM-O-OUTRO e assim, por meio da comparação, elucidar resumidamente o que foi dito. GA27MAC §19 Ao contrário, é essa relação eu-tu que antes pressupõe para a sua possibilidade interna o fato de o ser-aí – tanto o ser-aí que se mostra como eu, quanto o que se mostra como tu – já ser sempre a cada vez determinado como SER-UM-COM-O-OUTRO; sim, mais ainda: mesmo a auto-apreensão de um eu e o conceito de egocidade só surgem com base no um-com-o-outro, mas não como relação eu-tu. GA27MAC §20 Certamente não se exaure com isso a interpretação da essência do SER-UM-COM-O-OUTRO; já se explicitou em que direção essa interpretação precisa ser elaborada e, assim, ela ainda nos ocupará. GA27MAC §20 Mas, como o ser-aí é essencialmente descerrado, o caráter de conjunto próprio aos seres-aí sempre aponta, a cada vez, para um SER-UM-COM-O-OUTRO. GA27MAC §21 Mais além, o SER-UM-COM-O-OUTRO no clã e na tribo é regulado por ritos sacros; nascimento, morte e continuidade da vida após a morte encontram a sua interpretação a partir da totalidade do ente assim descerrado. GA27MAC §22 Aquilo que está em questão para a filosofia não é dizível, isto é, passível de ser discutido, como as outras coisas que podemos aprender, mas é algo que acontece e aconteceu na alma, e, com efeito, em razão e por meio de uma comunhão autêntica, de um autêntico SER-UM-COM-O-OUTRO junto à coisa mesma, é algo que cresce a partir de um empenhar-se-uns-com-os-outros em torno da coisa mesma.] GA27MAC §30 O que Kant tem em mente com as expressões “conhecer o mundo” e “ter o mundo”, assim como o fato de ele compreender “mundo” em um sentido existenciário são coisas que ficam bastante claras a partir dos apontamentos de uma preleção sobre antropologia feita por ele em 1792, apontamentos que se encontravam entre os cadernos universitários do Conde Heinrich zu Dohna-Wundlaken. Conhecimento do mundo: “Ele promove o surgimento de aptidões [319] e torna inteligente no que concerne à habilidade na lida com os homens. Um homem do mundo é um participante ativo no grande jogo da vida” (idem, p. 71). Mundo = o grande jogo da vida = experiência de vida, o ser-aí humano como tal. Conhecimento do mundo = conhecimento do homem (antropologia). Antes habitatores mundi, agora participantes ativos no jogo. “A maior parte dos homens forma-se por meio da escola para o mundo e é formada por meio do mundo para o mundo. As duas coisas misturadas, 1. Conhecimento escolar e 2. Formação por meio da lida são capazes de produzir o melhor resultado.” “Homem do mundo significa saber se relacionar com outros homens e saber como se portar na vida humana.” “Ter o mundo significa ter máximas e imitar grandes modelos.” “Pode-se ter muito mundo e, no entanto, ser um ignorante. O mundo repousa sobre formalidades.” “A palavra inteligência é tomada em um duplo sentido. Por um lado, ela pode portar o nome de inteligência do mundo, e, por outro, o nome de inteligência privada. A primeira inteligência é a habilidade de um homem em exercer influência sobre outros a fim de usá-los para alcançar seus intuitos.” [Immanuel Kant. Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, org. por Karl Vorländer, 6a ed. Leipzig, 1925, p. 42. Observação.] Mundo: o SER-UM-COM-O-OUTRO. Mais além: “Uma história é concebida pragmaticamente quando torna inteligente, isto é, quando ensina ao mundo como é que ele pode alcançar o seu proveito de uma maneira melhor ou ao menos de maneira tão boa quanto o mundo que o precedeu” (ibidem). De maneira totalmente clara, “mundo” e “mundo precedente” querem dizer aqui os próprios homens em seu ser-um-com-o-outro e não, por exemplo, o cosmo ou a natureza. Mundo: o termo para designar o ser-aí humano e, com efeito, tomando em consideração o modo como ele se porta no mundo, o jogo do ser-um-com-os-outros dos homens em sua relação com o ente. Mundo: termo para designar os homens, mas não como elementos do cosmo, como coisas naturais, mas em suas relações históricas e existenciais. O conceito de [320] mundo está aqui direcionado de forma muito mais unívoca ao ser-aí humano. GA27MAC §34 De maneira totalmente clara, “mundo” e “mundo precedente” querem dizer aqui os próprios homens em seu SER-UM-COM-O-OUTRO e não, por exemplo, o cosmo ou a natureza. GA27MAC §34 O ser-aí pode manter-se sobretudo no SER-UM-COM-O-OUTRO, pode imergir principalmente na ocupação com as coisas e pode perder-se especialmente em uma auto-reflexão. GA27MAC §37

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