
weltarm Escolheremos agora muito mais um terceiro caminho – o caminho de uma consideração comparativa. Nós ouvimos: o homem não é apenas uma parte do mundo, mas é senhor e servo deste mundo, à medida que o “possui”. O homem possui o mundo. O que dizer do resto dos entes que, como o homem, também são uma parte do mundo? O que dizer dos animais, das plantas, das coisas materiais, como as pedras, por exemplo? Diferentemente do homem, que também possui o mundo, eles são apenas parte do mundo? Ou será que também o animal possui mundo? E como? Da mesma forma que o homem ou diversamente? Como é preciso apreender esta alteridade? O que dizer da pedra? Aqui se mostram, ainda que de modo deveras rudimentar, diferenças. Nós a fixamos através de três teses: 1. a pedra (o material) é sem-mundo; 2. o animal é POBRE DE MUNDO; 3. o homem é formador de mundo [1. der Stein (das Materielle) ist weltlos; 9. das Tier ist weltarm; 5. der Mensch ist weltbildend]. GA29-30MAC §42 Tanto mais precisamos aprender a entender que tonalidades afetivas só são o que são, se elas afinam, isto é, se elas determinam um agir real. Nós começamos com a caracterização da primeira pergunta: o que é mundo? Nós apontamos para o fato de haver diversos caminhos para levantar as questões: 1. a consideração historiográfica da história do conceito de mundo; 2. o desdobramento do conceito de mundo a partir de nossa compreensão cotidiana de mundo. Escolhemos como terceiro caminho uma consideração comparativa. Nós fixamos o ponto de Apolo do terceiro caminho em três teses: 1. a pedra é sem mundo; 2. o animal é POBRE DE MUNDO; 3. o homem é formador de mundo. GA29-30MAC §44 O caminho para a elaboração da pergunta “o que é mundo?” deve ser uma consideração comparativa. No entanto, esta pergunta mesma não é desprovida de raízes. A tonalidade afetiva fundamental é o lugar constante da pergunta e temos de nos lembrar sempre uma vez mais disto. Através de uma discussão comparativa das três teses: a pedra é sem mundo, o animal é POBRE DE MUNDO e o homem é formador de mundo, queremos circunscrever provisoriamente o que temos de entender em geral sobre o termo mundo e em que direção temos de olhar em meio a esta compreensão. Nós perguntamos: o que é mundo? Nós perguntamos deste modo não para conquistarmos uma resposta qualquer, mesmo na forma de uma definição, mas para desdobrarmos uma questão metafísica. Na pergunta corretamente desdobrada reside a compreensão propriamente metafísica. Dito de outro modo: as perguntas metafísicas permanecem sem resposta – no sentido da comunicação de um estado de coisas conhecido. As perguntas metafísicas não permanecem sem resposta porque não se pode alcançar esta resposta, porque a metafísica seria algo impossível. Ao contrário, elas ficam sem resposta porque um tal responder, no sentido da comunicação de um estado de coisas constatado, não é suficiente para estas perguntas. Além disto, ele não é apenas insuficiente para elas, mas as degrada e sufoca. GA29-30MAC Terceiro Capítulo Contudo, para podermos real mente desdobrar agora a pergunta “o que é mundo?” precisamos conquistar uma primeira compreensão do que temos em vista com o termo “mundo”, disto para que reservamos este termo. Para levarmos a cabo esta primeira compreensão, empreenderemos a chamada consideração comparativa: a pedra é sem mundo; o animal é POBRE DE MUNDO; o homem é formador de mundo – uma consideração comparativa entre a pedra, o animal e o homem. O [240] ponto de vista da comparação, isto em relação ao que estabelecemos a comparação, é a respectiva ligação destes três entes supracitados com o mundo. As diferenças nesta ligação (ou não-ligação) realçam o que denominamos mundo. Ao que parece, uma tal consideração comparativa procede inicialmente de maneira totalmente ingênua, como se os três termos fossem três coisas coordenadas, como se eles estivessem em um mesmo nível. Nós começamos a caracterização comparativa à medida que partimos do meio, da pergunta pelo que significa a sentença: o animal é POBRE DE MUNDO; e, assim, como que olhamos constantemente para os dois lados: para a ausência de mundo da pedra e para a formação de mundo do homem. A partir destes dois lados consideramos o animal e sua pobreza de mundo. Com esta posição no interior do procedimento comparativo, inicialmente não está nada decidido quanto à hierarquia metafísica. GA29-30MAC Terceiro Capítulo A tese diretriz em relação ao animal é: o animal é POBRE DE MUNDO. Que tipo de proposição é esta – a questão também se aplica igualmente às outras duas? Uma proposição sobre o animal. O animal é o objeto de investigação da zoologia. A proposição é tomada por empréstimo daí? Pois, de qualquer modo, ela é uma investigação apropriada, orientada por fatos que são circunscritos pelo termo ‘‘animal”. A tese citada é uma proposição como: “um dos meios que as abelhas trabalhadoras possuem em uma comunidade de abelhas para se fazer compreender quanto aos lugares onde encontraram alimento é uma espécie de dança, que elas realizam na colmeia”. Ou: “os mamíferos possuem sete vértebras cervicais”. Vemos com facilidade que aquela tese não diz apenas algo sobre insetos ou sobre mamíferos; ela também diz respeito, por exemplo, aos animais desprovidos de membros, aos animais unicelulares, às amebas, aos infusórios, ouriços-do-mar e similares ela diz respeito a todo animal, a cada animal. Dito de fora: aquela tese é mais universal do que as proposições citadas. Mas por [241] que e como mais universal? Porque a tese quer enunciar algo sobre a animalidade enquanto tal, sobre a essência do animal ela leva a termo uma enunciação essencial. Ela não é uma tal enunciação porque vale para todos e não apenas para alguns animais, mas, inversamente, ela vale para todos porque é uma enunciação essencial. A validade universal só pode ser consequência do caráter propriamente essencial de um conhecimento, não o contrário. GA29-30MAC §45 Mas se o caráter essencial da enunciação, um caráter que deve estar presente na tese citada, não consiste em sua universalidade, em que ele consiste então? De onde provém a proposição: “o animal é POBRE DE MUNDO”? Nós diremos uma vez mais: ela provém da zoologia, pois esta trata de animais. No entanto, justamente porque ela trata de animais, esta proposição não pode ser um resultado da investigação zoológica, mas precisa ser sua pressuposição. Pois nesta pressuposição vem a termo, por fim, uma determinação prévia do que pertence em geral à essência do anima!, ou seja, uma circunscrição do campo, no interior do qual tem de se movimentar a investigação positiva dos animais. Mas se reside na tese uma pressuposição para toda a zoologia, então ela não pode ser primeiramente conquistada através da zoologia. Daí parece advir o seguinte: em meio à discussão desta proposição, abdicaremos de todos os ricos e intrincados resultados que os especialistas hoje já não conseguem mais dominar. Parece assim. Se este for efetivamente o caso, porém, que critério de medida ainda teremos para a verdade da tese? De onde a tiramos? Ela é arbitrária ou é uma hipótese que precisa ser primeiramente verificada através da investigação especializada? GA29-30MAC §45 Se retornamos para a nossa tese “o animal é POBRE DE MUNDO” a partir desta ponderação fundamental, então precisamos dizer: se estivermos realmente em condições de ler as mais recentes pesquisas biológicas com um olhar filosófico, nós encontraremos aí uma ampla possibilidade de ilustração desta tese. Esta tese é ao mesmo tempo de um tal gênero que, como toda tese metafísica, pode impelir a investigação positiva para uma meditação fundamental. Sim. à primeira vista esta tese parece justamente ir de encontro às meditações biológico-zoológicas mais incisivamente fundamentais. E isto se pensarmos que se tomou usual desde. J. v. Uexkull falar de um mundo ambiente dos animais? Nossa tese, em contrapartida, diz: o animal é POBRE DE MUNDO. Seria instrutivo e mesmo profícuo para a compreensão de nossa problemática se pudéssemos nos lançar agora em um relato mais detalhado e ao mesmo tempo filosoficamente interpretativo sobre as [249] novas teorias da vida. No entanto, precisamos abdicar disto aqui. Temos tanto mais o direito a uma tal abdicação, quanto mais o peso principal das considerações não repousa sobre uma metafísica temática da vida (animal e planta). GA29-30MAC §46 Nós colocamos a tese “o animal é POBRE DE MUNDO” entre as outras duas: “a pedra é sem mundo” e “o homem é formador de mundo”. Se tomarmos a segunda tese em relação à terceira, então fica imediatamente claro o que se tem em mente. Pobre de mundo – pobreza diferente de riqueza; pobreza – o menos ante o mais. O animal é POBRE DE MUNDO. Ele tem menos. Menos o quê? Algo que lhe é acessível, algo com o que ele pode lidar enquanto animal, pelo que ele pode ser afetado enquanto animal, com o que ele pode se encontrar em ligação enquanto um vivente. Menos em comparação com o mais, em comparação com a riqueza, da qual dispõem as relações do ser-aí humano. As abelhas, por exemplo, possuem sua colmeia, os favos, as flores das quais elas retiram o alimento, as outras abelhas de sua colônia. O mundo das abelhas é limitado a uma determinada região e fixo em sua abrangência. No que concerne ao mundo dos sapos, ao mundo dos pintassilgos existe uma correspondência. Porém, o mundo de todo e qualquer animal não é apenas restrito em sua abrangência, mas também no modo de penetração no que é acessível ao animal. As abelhas trabalhadoras conhecem as flores que visitam, sua cor e aroma, mas não conhecem os estames destas flores enquanto estames. Elas não conhecem as raízes das flores, elas não conhecem algo assim como o número de estames e folhas. Perante este mundo, o mundo do homem é rico, maior em abrangência, mais amplo em penetração, não apenas constantemente expansível em sua abrangência (não se precisa aqui senão trazer a cada vez um ente a mais), mas também cada vez mais insistente no que concerne à penetração. Daí o fato de esta ligação com o mundo, tal como o homem a possui, poder ser caracterizada de um tal modo; daí a possibilidade de falarmos em expansibilidade do âmbito com o qual o homem se relaciona e em formação de mundo. GA29-30MAC §46 Se aproximamos ainda mais de nós a diferença entre “POBRE DE MUNDO” – “formador de mundo” desta forma, então esta diferença se revela como uma diferença de grau dos níveis de plenitude na posse do ente respectivamente acessível. Também já podemos retirar daí o conceito de mundo: mundo significa inicialmente a soma do ente [250] acessível, seja para o animal ou para o homem, variável segundo a abrangência e a profundidade da penetração. O “POBRE DE MUNDO” é ao mesmo tempo menos valoroso diante do “formador de mundo” como o mais valoroso. Um tal fato é tão inequívoco que não se precisa continuar falando sobre ele. Estas reflexões são óbvias, há muito correntes, tanto que não se compreende por que fazer tanto barulho por isto. Em que esta diferença poderia contribuir, afinal, para a determinação essencial da animalidade do animal?!? Parece que só leriamos como que frisado este fato através da inserção de expressões peculiares: mundo e mundo ambiente (meio ambiente). GA29-30MAC §46 Mas, com o auxílio do conceito mais determinado de ser-pobre – no sentido de ser privado de alguma forma —, podemos tentar agora dar um passo adiante na compreensão do que significa a pobreza de mundo do animal. Se pobreza significa privação, então a tese “o animal é POBRE DE MUNDO” diz tanto quanto “o animal é privado de mundo”, “o animal não possui nenhum mundo”. Com isto, a relação com a terceira tese – “o homem é formador de mundo” – está determinada, pois o homem possui um mundo. GA29-30MAC §47 Assim, porém, a relação da segunda tese com a primeira – “a pedra é sem mundo” – torna-se agora tão questionável que não parece mais subsistir absolutamente nenhuma diferença entre a primeira e a segunda. A pedra é sem mundo, ela não possui nenhum mundo. Tanto a pedra quanto o animal não possuem nenhum mundo. A questão é que o não-ter-mundo não é pensado nos dois casos no mesmo sentido. O fato de haver aqui uma diferença está indicado através de expressões diversas: ausência de mundo e pobreza de mundo. Contudo, se o animal é impelido para a proximidade da pedra, então vem à tona a pergunta decisiva pela diferença entre estas duas modalidades segundo as quais, por um lado, a pedra não possui nenhum mundo, e, por outro, o animal não tem mundo. ‘‘Sem mundo” e “POBRE DE MUNDO” são expressões que implicam sempre um não-ter mundo. Pobre de mundo é uma privação de mundo. Ausência de mundo, uma constituição tal da pedra, que ela não pode nem mesmo ser privada de algo do gênero do mundo. O mero não-ter mundo não é aqui suficiente. A possibilidade da privação exige outras condições. O que significa, portanto: a pedra não pode sequer ser privada de mundo? Trata-se inicialmente de esclarecer isto no plano em que nos movemos. GA29-30MAC §47 Se tomarmos o termo mundo com o significado de acessibilidade do ente, como poderemos afirmar então que o animal é POBRE DE MUNDO, uma vez que o animal tem evidentemente acesso ao ente? Ainda além: como poderemos afirmar esta pobreza de mundo do animal, se considerarmos o ser-pobre como significando: ser privado de? O animal pode ter o ente acessível de uma maneira diversa e em limites mais estreitos. Mesmo assim, porém, ele não é absolutamente privado de mundo. O animal possui mundo. A privação de mundo não pertence pura e simplesmente ao animal. GA29-30MAC §47 Como estão as coisas em relação a esta possibilidade do homem de transpor-se para o interior de um ente que ele mesmo não é seja este um ente igual a si mesmo ou de um gênero totalmente diverso? Nós não podemos sequer sonhar aqui em desdobrar estas questões em toda a sua amplitude. Elas precisam ser mantidas nos limites prescritos por nosso problema. Desta feita, trata-se inicialmente da iluminação da tese: o animal é POBRE DE MUNDO. Nós gostaríamos de explicitar a pergunta pela possibilidade de o homem se transpor para o interior de um outro homem, do animal, da pedra por sobre o caminho em que discutimos essas três questões: podemos nos transpor para o interior do animal? Podemos nos transpor para o interior da pedra? Podemos nos transpor para o interior de um outro homem? Junto a estas questões ocupa-nos menos o problema da possibilidade de apreensão e muito mais o que experimentamos através daí sobre o ser apreendido. A elucidação da transposição auxilia unicamente ao esclarecimento da pedra, do animal, do homem em relação ao problema do mundo. A elucidação, que se segue, tem a tarefa particular de afastar o ponto de partida inicialmente ingênuo que toma as coisas como se se tratasse aqui de três entes simplesmente dados da mesma maneira. GA29-30MAC §49 Mas, se a partir do homem é possível uma transponibilidade originária em relação ao animal, então está dito através daí que também o animal possui seu mundo. Ou será que isto é dizer muito? Não é justamente este demais que constantemente desconhecemos? E por quê? Transponibilidade para o interior do animal pode pertencer à essência do homem, mas não precisa necessariamente significar que nós nos transpomos para o interior de um mundo do animal e que o animal possui em geral um mundo. Agora a pergunta torna-se ainda mais incisiva: para onde somos transpostos em meio à transposição para o interior do animal? Com quem seguimos em companhia e o que significa este “com”? Que tipo de movimento é este? Dito a partir do animal: o que é que, no animal, admite e requer esta transposição do homem para o seu interior, e que, não obstante, veda uma vez mais ao homem um acompanhamento do animal? Pelo lado do animal, o que é o poder-conceder uma transposição e o precisar-vedar um acompanhamento? O que é este ter e este ao mesmo tempo não-ter? Apenas onde um ter e um poder-ter e conceder são em certa medida possíveis, subsiste a possibilidade do não-ter e do recusar. O que expressamos de modo formal até aqui, o fato de junto ao animal se dar em certa medida um ter-mundo, e, uma vez mais, um não-ter, mostra-se agora como um poder-conceder; e, em verdade, essencialmente como um poder-conceder a transposição, que segue junto com um precisar vedar o acompanhamento. Apenas onde se dá um ter dá-se um não-ter. E o não-ter no poder-ter é justamente a privação, a pobreza. Portanto, a transponibilidade do homem para o interior do animal, que não é, porém, uma vez mais, nenhum acompanhamento, tem seu fundamento na essência do animal. Nós queremos alcançar esta essência através da tese da pobreza de mundo. Em resumo: o animal mostra nele mesmo uma esfera da transponibilidade para o seu interior; e isto de um modo tal que o homem, a cujo ser-aí pertence ser-tranposto, também [271] já está em certa medida transposto para o interior do animal. O animal mostra uma esfera de transponibilidade para o seu interior; mais exatamente: ele mesmo é esta esfera. No entanto, esta esfera veda um acompanhamento. O animal tem uma esfera de transponibilidade possível para o seu interior, e, apesar disto, não precisa ter o que chamamos mundo. Diferentemente da pedra, contudo, o animal tem uma tal possibilidade de transponibilidade. Não obstante, ele não tem o que possibilita um transpor-se no sentido em que este se dá no caso de um homem ante um outro homem. O animal possui algo e não possui algo: isto é, ele está privado de algo. Nós o exprimimos assim: o animal é POBRE DE MUNDO, ele está por princípio privado de mundo. GA29-30MAC §50 Mas se é assim, então é questionável se temos o direito de apreender os organismos como instrumentos e máquinas. Se esta posição estiver por princípio excluída, aquele procedimento no interior da biologia também é impossível: o procedimento que toma o ser vivo como uma máquina, e, em seguida, introduz, além disso, funções que estão para além do maquinai. Em verdade, um tal procedimento tem mais em conta as manifestações vitais do que uma teoria puramente mecanicista o tem. No entanto, ele desconhece o problema central, [275] para o qual sempre somos impelidos uma vez mais: apreender originariamente a essencialidade própria do vivente e dizer se ela é alcançada através da tese “o animal é POBRE DE MUNDO” ao menos se for liberada através daí a via real para uma interpretação concreta da essência da vida em geral. GA29-30MAC §51 O fato de o utensílio fabricado estar pronto não significa apenas: I. ele está acabado; 2. ele é útil para.... Ao contrário, este fato também significa: 3. o utensílio não pode ir além de seu ser específico (ser utensílio) enquanto tal; ele foi até o fim com este seu ser, ele é e permanece justamente como produzido e apenas enquanto tal produtível [290]e utilizável. Em seu ser utensílio, ele sempre viabiliza e prescreve a cada vez uma determinada utilização. Mas quanto a esta utilização mesma, se ela tem ou não lugar e como, o utensílio não apenas não dispõe sobre isto, mas o ser-utensílio tampouco é em si um ímpeto para isto. O utensílio é pura e simplesmente útil, e, com isto, ele leva a termo o seu ser. Se ele tiver de servir sob a maneira específica de sua utilidade possível, então é preciso que um outro ato, diverso do ato que o produziu, seja antes de tudo acrescentado, e, com este, seja arrancado ao utensílio a sua serventia possível. O martelo está em verdade pronto para martelar, mas o ser-martelo não é um ímpeto para martelar, o martelo pronto encontra-se fora de um possível martelar. Em contrapartida, como no caso, por exemplo, dos olhos, o que pertence a uma aptidão, o que serve à aptidão do ver, só está em condições de uma tal coisa porque a aptidão está em si mesma a serviço de e enquanto tal pode colocar a serviço. No entanto, o surgimento do que e do modo como a aptidão coloca a serviço dirige e delimita a ela mesma. O que está pronto é útil; o que é apto em seu ser-apto enquanto tal está a serviço de. A aptidão é um trasladar-se e um trasladar-se para diante de si mesmo, para o interior do para-quê próprio. O ser do que está pronto, a prontidão, não conhece algo deste gênero. O martelo nunca está em condições de se trasladar, em seu ser-martelo específico, para o interior do martelar enquanto este ato específico, para o qual ele é útil; por outro lado, a peculiaridade do que é apto enquanto tal é trasladar-se para o interior de si mesmo, para o interior do para-quê. Com isto, abre-se todo um novo contexto, no qual o ser-apto nos impele a penetrar; um contexto diverso de todo estar-pronto das coisas produzidas e utilizáveis. Somente quando tivermos dado este passo que vai do ser-apto até o modo de ser que se encontra nele, conseguiremos conceber esta possibilidade específica da aptidão, abarcar o órgão em sua pertinência ao organismo, e, assim, decidir a questão por se o organismo, do modo como o apreendemos, é a condição de possibilidade da pobreza de mundo do animal, ou se, inversamente, é justamente a pobreza de mundo do animal que torna concebível para nós em geral por que um vivente pode e precisa ser um organismo. Se esta última opção for o caso, então se terá provado com isto ao mesmo tempo que a tese “o animal é POBRE DE MUNDO” é uma proposição essencial sobre a animalidade em geral e não uma proposição arbitrária acerca de uma qualidade qualquer que adviria ao animal. GA29-30MAC §53 Isto deve ser suficiente para que nos lembremos do caráter limitado do modo como colocamos a questão. Apesar disto, podemos nos valer do que vimos até aqui para a elucidação e o desdobramento de nossa tese diretriz: o animal é POBRE DE MUNDO. Podemos tornar as nossas considerações antes de tudo frutíferas se tivermos condições de decidir a partir da caracterização essencial conquistada, em que [342] relação ela se encontra com a nossa tese. Esta tese “o animal é POBRE DE MUNDO” é apenas uma consequência da determinação essencial do organismo enquanto perturbação ou será inversamente que esta determinação essencial se funda naquela tese; e isto não apenas porque nós a introduzimos, mas em geral, de modo que aquela tese expressaria um dos princípios mais originários sobre a essência do organismo (da animalidade)? GA29-30MAC §61 Para respondermos à interrogação que encerra o último capítulo, é necessário explicitarmos agora o significado da expressão “pobreza de mundo”. Precisamos retomar esta pergunta a partir do ponto em que nos desviamos dela e passamos a elucidar a animalidade com o auxílio da determinação da essência do organismo. Esta consideração foi levada a termo, a fim de manter o problema em uma conexão concreta com a biologia. No entanto, como a conclusão deste movimento mostrou agora, a consideração não se resumiu absolutamente à mera coleta e apresentação de resultados. Ao contrário, ela procurou encontrar nestes resultados questões principiais que apontassem na direção de nosso problema, e, com isto, aproximar de nós a essência da animalidade. Pois o impasse em relação ao conceito de mundo e à tese “o animal é POBRE DE MUNDO” provocou o surgimento da necessidade de deduzir até onde é possível a essência da animalidade a partir do próprio animal. Mas no que consistia o impasse em relação ao conceito de mundo? Nós estamos agora em condições de afastar este impasse em função da consideração da estrutura do organismo, para compreendermos assim a tese da pobreza de mundo do animal e desenvolvermos então a partir daí o problema do mundo? GA29-30MAC §62 Assim, a unidade anteriormente afirmada do ter e do não-ter é apreendida agora de maneira mais adequada e em consideração à essência da animalidade. E, no entanto, levanta-se neste momento justamente a dúvida mais incisiva contra a nossa tese: “o animal é POBRE DE MUNDO”. Precisamos fazer a nós mesmos a seguinte objeção: em contraposição ao homem, certamente encontra-se no animal um não-ter. Igualmente certo é o fato de este não-ter do animal ser essencialmente diferente do não-ter da pedra. Todavia, este não-ter próprio do animal é uma privação de mundo, um ser essencialmente POBRE DE MUNDO por parte do animal? O animal só poderia carecer de mundo se ele ao menos tivesse conhecimento do mundo. Mas justamente isto é negado ao animal – sim, precisa ser tanto mais negado ao animal, uma vez que mesmo o homem, a cuja essência pertence a formação de mundo, de início e na maioria das vezes não conhece propriamente o mundo enquanto tal. Como quer que as coisas possam se dar em relação a isso, se o mundo estiver essencialmente fechado para o animal, nós poderemos com certeza falar de um não-ter que lhe é intrínseco, mas jamais teremos o direito de compreender este não-ter como uma privação. Portanto, a tese da pobreza de mundo do animal vai longe demais. Se apesar disto perseveramos nela, e, em verdade, com razão, então esta caracterização da animalidade através da pobreza de mundo não será nenhuma caracterização genuína. Ela não terá sido haurida da animalidade mesma e não permanecerá no interior dos limites da animalidade. Ao contrário, a pobreza de mundo será um caráter definido em comparação com o homem. Apenas visto a partir do homem, o animal é POBRE DE MUNDO. Em si, porém, ser-animal não significa ser privado de mundo. Dito de maneira ainda mais clara e abrangente: se em certas variantes a privação implica um sofrimento, então seria necessário, se a privação de mundo e a pobreza pertencessem ao ser do animal, que um sofrimento e um mal transpassassem todo o reino animal e todo o reino da vida em geral. A biologia não conhece estritamente nada disso. Imaginar algo deste gênero talvez seja um privilégio dos poetas. “Isto não tem nada a ver com ciência.” Portanto, a tese da pobreza de mundo do animal não é [347] nenhuma interpretação essencialmente própria da animalidade, mas tão somente uma ilustração comparativa. Se este for o caso, então também já encontramos com isto a resposta para a pergunta que foi reiteradamente colocada: o caráter de organismo do animal é – no sentido circunscrito de perturbação – a condição de possibilidade da pobreza de mundo, ou será, inversamente, que esta pobreza de mundo é a condição e o fundamento essencial para o organismo e a sua possibilidade interna? Evidentemente, a primeira opção é a correta: a perturbação é a condição de possibilidade da pobreza de mundo. Pois se a essência do organismo reside na perturbação e se pertence à perturbação, enquanto um momento essencial, a privação da possibilidade da abertura do ente enquanto tal; e se, além disto, a abertura do ente é um caráter do mundo, então precisamos dizer agora: a privação do mundo pertence à perturbação enquanto um momento essencial. Mas o que perfaz apenas um momento constitutivo da totalidade da essência do organismo – da perturbação – não pode ser fundamento de possibilidade para o todo da essência enquanto tal. Pobreza de mundo não é a condição de possibilidade da perturbação. Ao contrário, é a perturbação que é a condição de possibilidade da pobreza de mundo. Mesmo esta sentença ainda precisa ser atenuada e formulada de maneira mais apropriada: a perturbação como a essência da animalidade é a condição de possibilidade para a caracterização puramente comparativa da animalidade através da pobreza de mundo – uma caracterização que considera o animal a partir do homem, do ente a quem pertence a formação de mundo. Nossa tese “o animal é POBRE DE MUNDO” permanece, consequentemente, muito longe de ser uma – ou de ser plenamente a proposição metafísica de fundo (o princípio) sobre a essência da animalidade. Ela é, quando muito, uma proposição que resulta das determinações da essência da animalidade, e só teria de ser então seguida se o animal fosse considerado em comparação com o gênero humano. Como uma tal proposição é uma proposição resultante, podemos retroceder até o seu fundamento e nos deixar levar assim até a essência da animalidade. Esta foi mesmo a sua função fática no interior de nossas discussões. Mas se estas [348] reflexões se mantiverem intangíveis, então não precisaremos apenas restringir por fim drasticamente a significação da tese. Ao contrário, precisaremos abdicar efetivamente dela porque – visto justamente a partir da essência da animalidade – ela conduz ao erro: isto é, ela despeita a opinião equivocada de que o ser do animal é em si uma privação e uma pobreza. GA29-30MAC §63 Só sabemos até aqui muito pouco sobre a essência do mundo e não sabemos absolutamente nada sobre o fundamento de sua possibilidade. Com maior razão, não sabemos nada sobre a significação do fenômeno do mundo no interior da metafísica. Mas se as coisas estão assim, então ainda não temos nenhum direito de alterar e nivelar agora a nossa tese “o animaI é POBRE DE MUNDO” com a proposição indiferente: o animal não tem mundo algum, e o não-ter-mundo é um mero não-ter e não uma privação. Precisamos deixar muito mais aberta a possibilidade de que a compreensão própria e expressamente metafísica da essência do mundo nos obrigue a tomar, apesar de tudo, o não-ter-mundo do animal como uma privação, e a encontrar no modo de ser do animal enquanto tal uma pobreza. O fato de a biologia não conhecer algo deste gênero não é uma prova contra o que diz a metafísica. O fato de que talvez somente os poetas falem ocasionalmente disto é um argumento que a metafísica não deve lançar ao vento. Por fim, não se necessita primeiramente da crença cristã para compreender algo daquelas palavras que Paulo (Romanos VIII, 19) escreveu sobre a apokaradokia tes ktiseos, sobre o modo nostálgico com que espreitam as criaturas e a criação, cujos caminhos, como também diz o livro de Esdras VI, 7, 12, se tornaram, neste tempo, estreitos, tristes e laboriosos. Mas tampouco um pessimismo é necessário para podermos desenvolver a pobreza de mundo do anima! como um problema intrínseco à animalidade mesma. Pois com o seu estar-aberto para o elemento desinibidor, o animal é, em sua perturbação, essencialmente expelido em direção a um outro. Em verdade, este outro jamais pode ser revelado para ele nem enquanto um ente, nem enquanto um não-ente, mas sempre traz consigo enquanto desinibidor, com todas as variações aí envolvidas na desinibição, um abalo essencial da essência da animalidade. Se antes acentuamos que a privação da possibilidade da abertura do ente [350] forma apenas um momento estrutural da perturbação e não pode, por isto, ser o fundamento da essência do todo enquanto tal, então é agora necessário contrapor a isto o fato de, enfim, ainda não termos clarificado absolutamente de maneira suficiente a organização essencial do organismo, para decidirmos sobre a significação desta privação, e que só poderemos clarificá-la quando trouxermos à baila conjuntamente o fenômeno fundamental do processo vital, e, com isto, da morte. GA29-30MAC §63 Assim, a tese “o animal é POBRE DE MUNDO” precisa persistir enquanto problema; enquanto um problema que não abordaremos agora, mas que conduz os passos ulteriores da consideração comparativa, isto é: a própria exposição do problema do mundo. GA29-30MAC §63 Se passarmos da discussão da tese “o animal é POBRE DE MUNDO” para a discussão da tese “o homem é formador de mundo” e nos perguntarmos pelo que, do que vimos até agora, trazemos conosco para a caracterização da essência do mundo, então vem à tona formalmente o seguinte: ao mundo pertence a abertura do ente enquanto tal, do ente enquanto ente. Nisto reside: juntamente com o mundo vem à tona este enigmático “enquanto”, o ente enquanto ente. Falando de maneira formal: “algo enquanto algo” está associado com o mundo – o que, pelo modo de ser do animal, está vedado para ele. Somente onde o ente se revela em geral enquanto ente subsiste a possibilidade de experimentar este e aquele ente determinado enquanto este e aquele – experimentar no sentido amplo do que se estende para além da mera tomada de conhecimento: experimentar no sentido de fazer experiências com ele. Finalmente, onde se tem a abertura do ente enquanto ente, a ligação com este tem necessariamente o caráter do inserir-se-aí no sentido de deixar e não-deixar-ser o que vem ao encontro. Apenas onde se tem um tal deixar-ser tem-se, ao mesmo tempo, a possibilidade do não-deixar-ser. Em contraposição ao comportamento que tem lugar em meio à perturbação, nós denominamos assumir uma atitude, uma tal ligação totalmente dominada por este deixar-ser do ente enquanto ente. Mas toda e qualquer assunção de uma atitude só é possível na retenção e na contenção. E não há [352] postura senão onde um ente possui o caráter de si próprio, ou, como também dizemos, de uma pessoa. Estes são já caracteres importantes do fenômeno do mundo: 1. a abertura do ente enquanto ente; 2. o “enquanto”; 3. a ligação com o ente enquanto o deixar e não-deixar-ser, o assumir uma atitude em relação a..., a postura e o caráter de si-próprio (ipseidade). Nada disto se encontra na animalidade e na vida em geral. Mas estes caracteres importantes do fenômeno do mundo só nos dizem inicialmente o seguinte: onde quer que nos deparemos com estes caracteres, aí está o fenômeno do mundo. A questão é que o que mundo é e como ele é, se e em que sentido temos o direito de falar efetivamente do ser do mundo, tudo isto é obscuro. Para lançarmos luz, e, com isto, avançarmos em direção à profundidade do problema do mundo, tentaremos mostrar o que significa a expressão formação de mundo. GA29-30MAC §64 Perguntamos, por conseguinte: onde se encontra efetivamente o logos? Precisamos dizer: ele é uma atitude essencial do homem. Deste modo, precisamos indagar o fundamento da possibilidade interna do logos a partir da essência velada do homem. No entanto, esta indagação também não deve procurar estabelecer agora, a partir de um âmbito qualquer, uma definição da essência do homem, e, em seguida, utilizá-la. Ao contrário, é preciso deixar que esta essência se mostre para nós justamente a partir da estrutura do logos corretamente compreendida e que se diga, através do retorno ao fundamento, por ela indicado, de sua possibilidade, como as coisas se encontram em relação ao homem. Só sabemos o seguinte: precisamos retomar à essência do homem a partir do logos na unidade de sua estrutura. No que concerne a esta essência mesma, ainda não se tem nada determinado. O que temos é apenas a tese: o homem é formador de mundo. Assumimos esta tese como um enunciado essencial, exatamente como a tese: o animal é POBRE DE MUNDO. Entretanto, esta tese sobre o homem não pode ser utilizada agora. Vale sim muito mais desdobrá-la e fundamentá-la enquanto problema. Por fim, o que chamamos de formação de mundo é também justamente o fundamento da possibilidade interna do logos. Se esta formação é realmente um tal fundamento, e, antes de tudo, o que ela é, ainda não sabemos. Por fim, a partir da essência da formação de mundo, tornar-se-á compreensível o que Aristóteles tomou como o fundamento de possibilidade do logos apophantikos: a percepção em sua estranha estrutura synthesis-diairesis – o que aproximamos da estrutura “enquanto”. Se nos lembrarmos corretamente, porém, sabemos algo sobre o homem que não foi estabelecido apenas [430] através da tese “o homem é formador de mundo”. Na primeira parte desta preleção, desenvolvemos uma tonalidade afetiva fundamental do homem, no interior da qual tivemos a oportunidade de alcançar uma visualização essencial do ser-aí do homem em geral. A questão é: será que agora, ao fazermos a pergunta remontar ao fundamento da possibilidade interna do enunciado, não somos por fim reconduzidos àquela dimensão, à qual já nos levou, por um caminho totalmente diverso e com a máxima riqueza, a interpretação do tédio enquanto tonalidade afetiva fundamental do ser-aí? GA29-30MAC §73 No que concerne ao que acabamos de fixar uma vez mais no quarto ponto, procuramos empreendê-lo através de um duplo caminho: inicialmente, sem a orientação dada por uma determinada questão metafísica, através do despertar de uma tonalidade afetiva fundamental de nosso ser-aí; ou seja, através da transformação de nossa essência humana a cada vez em nosso próprio ser-aí. Em seguida, sem nenhuma ligação expressa e constante com a tonalidade afetiva fundamental, mas, de qualquer modo, em uma lembrança silenciosa desta tonalidade, procuramos desdobrar uma questão metafísica sob o título do problema do mundo. Isto aconteceu através de um desvio promovido por uma consideração comparativa. Este desvio estendeu-se ainda mais amplamente e foi empreendido com o auxílio da tese “o animal é POBRE DE MUNDO”. Uma tal tese só tinha nos trazido aparentemente algo negativo, até que passamos à interpretação da tese “o homem é formador de mundo”. O todo da interpretação transformou-se em um retorno a uma dimensão originária, em um acontecimento fundamental. Agora afirmamos que neste acontecimento tem lugar a formação de mundo. Isto que dissemos serem os momentos [450] fundamentais deste acontecimento, o manter-se ao encontro da obrigatoriedade, a integração e o desentranhamento do ser do ente, estes três elementos em seu enraizamento especificamente uno, jamais encontramos em parte alguma e em sentido algum junto aos animais. Mas o que temos não é uma simples falta destes momentos citados junto ao animal. Ao contrário, o animal não tem algo deste gênero em meio a e em função de uma posse totalmente determinada, em meio a e em função de seu modo de estar-aberto no sentido da perturbação. GA29-30MAC §74