
Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: «Que é o homem?», creio que responderia com desassombro e sem hesitação: «O homem é o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão.» Não me perguntem agora quem dá o que o homem recusa. Só importa a recusa da gratuidade. O homem se lhe recusa; o homem é a própria recusa, antes de ser o asno o que quer que seja ou o que quer que venha a ser. Pelo menos, ao que me parece, é esta a que está antes de qualquer outra determinação do homem, de todas as suas possíveis ou realizadas determinações. Que dela decorrem, uma a uma, todas as demais — as que se nos deparam em todos os livros de antropologia e de história que se leiam da única maneira de ler, as que se nos oferecem através de uma leitura interrogante. A Recusa está no fundo do abismo sem fundo, aonde tentamos descer, em busca do ser-origem do homem, que mora na intimidade de qualquer dos homens. No entanto, se falamos absurdamente do «fundo de um abismo sem fundo», é porque queremos deixar em aberto a questão de averiguar se a tal Recusa está efetivamente no término (ou no início) do pensar o ser do homem. Talvez mais, muito mais e mais além houvesse que perguntar; que perguntar, sobretudo, haveria se este pensar não tem que descer ao limite do pensável, ao liminar do impensável, e que transpô-lo decididamente, ou se não haverá que deter-nos no meio da escarpa, da escarpa que não tem «meio» se o abismo não tem «fundo». Mas para baixo do meio — que o seja ou não seja — há o mito: Adão recusou-se a prosseguir vivendo no Paraíso. Não importa que não [27] seja esta a letra exata do relato mítico: tudo veio a passar-se como se assim fosse. Aqui, a referência ao Primeiro Homem faz-se só modo de apontar para o que do homem parece característica primeira, e semelhante característica mostra-se-nos como ilusão de um orgulhoso triunfo sobre o Exílio. A Recusa do Paraíso é, pois, a versão já humana do próprio acontecer humano, a primeira afirmação do homem, que é um querer firmar-se ele em si mesmo. [EudoroMito:27-28]